O disco que os Beatles lançaram sem querer — e que passou a ser o maior arrependimento da banda
Por Bruce William
Postado em 28 de maio de 2025
Quando os Beatles encerraram sua carreira, deixaram um catálogo tão sólido que virou referência para toda a história da música pop.
"Let It Be", lançado em 1970, acabou se tornando esse ponto de desconforto. E o motivo não era exatamente o conteúdo musical, mas tudo o que ele representava. Gravado em meio a brigas, afastamentos e má vontade geral, o projeto refletia uma banda em processo de desintegração — algo que nem os próprios músicos conseguiam ignorar.
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A proposta inicial parecia promissora: os Beatles queriam voltar às origens, compor e ensaiar ao vivo em estúdio, como nos velhos tempos. Mas o clima já era insustentável, relembra a Far Out. George Harrison chegou a abandonar as sessões, John Lennon não desgrudava de Yoko Ono, e Paul McCartney tentava controlar a situação, o que só piorava as tensões.
Barry Miles, biógrafo ligado à cena da época, foi direto ao definir o clima: "Foi um desastre. Paul mandava em George, que estava ressentido. John não ia ao banheiro sem a Yoko. A tensão era palpável." George Harrison, anos depois, foi ainda mais conciso: "Todo mundo ouviu de novo e não gostou. A gente nem queria lançar."
Apesar disso, o disco seguiu adiante — e com um agravante. As fitas passaram pelas mãos de Phil Spector, que adicionou orquestras e corais a faixas que, originalmente, eram mais cruas. Paul McCartney odiou o resultado. A ponto de usar o lançamento de "Let It Be" como argumento legal para pedir a dissolução definitiva da banda.
Anos depois, Paul McCartney ainda tentaria corrigir esse incômodo. Em 2003, foi lançado "Let It Be... Naked", uma nova versão do álbum sem os arranjos adicionados por Phil Spector. O projeto, supervisionado por Paul, procurava resgatar a intenção original das gravações: um disco mais cru, direto e espontâneo. Para ele, essa era a forma como "Let It Be" deveria ter soado desde o início.
A rejeição não veio só de Paul. O engenheiro Glyn Johns chamou a versão final de "nojenta" e "vômito", enquanto o produtor George Martin — que não participou do álbum — declarou que aquilo não parecia um disco dos Beatles. Para muitos envolvidos, "Let It Be" foi menos um álbum do que um epitáfio precoce.
O mais irônico é que "Let It Be" não foi o último álbum gravado pela banda — esse foi "Abbey Road", finalizado meses depois. Mas como foi lançado por último, "Let It Be" acabou ficando com o peso simbólico da despedida. E ninguém ali queria se despedir daquela forma.
Talvez por isso o disco nunca tenha sido plenamente defendido por nenhum dos quatro. Ao contrário de outros trabalhos mais celebrados, "Let It Be" ficou como um lembrete doloroso do momento em que tudo desabou.
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