A música que fez Keith Richards se apaixonar; "e ela também se apaixonou por mim"
Por Bruce William
Postado em 08 de outubro de 2025
Keith Richards sempre foi visto como um personagem quase mitológico do rock: um pirata invencível, com alma de capitão e coração blindado por décadas de excessos. Mas por trás dessa imagem endurecida, havia um jovem inseguro que ainda tentava entender o mundo que o sucesso colocava diante de si. Em 1964, quando os Rolling Stones começaram a viver a rotina de estrada, Richards percebeu que o reconhecimento não trazia alívio e que, mesmo entre aplausos, ainda faltava algo.
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Durante uma turnê no norte da Inglaterra, ele buscava relaxar antes de subir ao palco quando ouviu, à distância, um som que o fez parar. "Eu estava andando por um corredor escuro, úmido, e comecei a ouvir essas vozes lindas", recordou anos depois, em seu discurso no Rock and Roll Hall of Fame, conforme publicado na Far Out. "Pensei: 'será que já estou alto?'", brincou. Mas o que ouvia era real: eram as Ronettes ensaiando "Be My Baby."

Richards descreveu o momento como uma epifania. "Aquelas vozes eram puras, e a de Ronnie Spector estava acima de tudo. Era como ouvir um anjo", contou. "Foi uma apresentação particular, só pra mim." A experiência o deixou atordoado e, ao mesmo tempo, em paz. Pela primeira vez, a música não parecia apenas energia ou rebeldia, era algo curativo, quase espiritual.
O que começou como encantamento logo virou algo mais. Em sua autobiografia "Life" ("Vida" no Brazil) (Amazon), Keith revelou que realmente se apaixonou por Ronnie Bennett, nome de solteira da cantora das Ronettes. "Ela tinha vinte anos e era extraordinária - de ouvir, de olhar, de estar junto. Me apaixonei por ela em silêncio e ela se apaixonou por mim", escreveu. O relacionamento era discreto e impossível de ser público: Phil Spector, produtor e então parceiro de Ronnie, já demonstrava um ciúme doentio e mantinha rígido controle sobre sua vida. "Ela precisava estar no quarto o tempo todo, caso ele ligasse", contou Keith.
Mesmo sob esse cerco, os dois sempre davam um jeito de se encontrar. A própria Ronnie relembrou um desses momentos no livro: certa noite, com o ônibus das bandas parado por causa de um nevoeiro, ela e Keith caminharam até um pequeno chalé, onde uma senhora os recebeu com chá e biscoitos. "Aqueles foram os dias mais felizes de toda a minha carreira", disse a cantora. Para Keith, foram dias de empatia e cumplicidade entre dois jovens mergulhados em fama repentina e tentando, de alguma forma, preservar um pouco de normalidade.
O guitarrista descreve aquele breve envolvimento como algo puro, intenso e, inevitavelmente, passageiro. "No fundo, eram só hormônios. E empatia", escreveu. Ronnie acabou vivendo anos difíceis ao lado de Phil Spector, que chegou a mantê-la isolada em casa, mas Keith nunca perdeu o carinho por ela. Décadas depois, ainda se lembrava da cantora como alguém "cujo coração funcionava do jeito certo".
O encontro com Ronnie e as Ronettes também mudou o modo como os Rolling Stones encaravam a própria música. Até então, a banda se limitava a covers de blues; depois daquela turnê, começou a buscar sua própria linguagem, mais emocional, sensual e sincera. Essa virada ficou evidente em faixas como "Get Off My Cloud", onde o desejo e a vulnerabilidade se misturavam de forma inédita.
Keith Richards sempre falou sobre o poder de tocar em grupo, sobre a química que acontece quando uma banda funciona como um só organismo. Mas, naquele dia, ao ouvir "Be My Baby" ecoando em um corredor úmido do norte da Inglaterra, ele descobriu outro tipo de harmonia: a que acontece quando a música e o coração tocam o mesmo acorde.
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