O cara que canta muito, mas Malcolm Young disse que jamais poderia entrar no AC/DC
Por Bruce William
Postado em 23 de novembro de 2025
Quando Bon Scott morreu, em 1980, muita gente achou que o AC/DC tinha chegado ao fim. Não era "só" trocar um integrante: o vocalista era parte central da personalidade da banda, das letras, do humor torto, da forma de cantar. A ideia de seguir em frente com outro frontman soava estranha até para os próprios músicos, que já vinham de uma sequência de discos fortes como "High Voltage", "Dirty Deeds Done Dirt Cheap" e "Highway to Hell."
Mesmo assim, Malcolm e Angus Young não pararam completamente. Os dois seguiram se encontrando, tocando e escrevendo riffs, mais por inércia e instinto do que por certeza de que aquilo viraria um novo álbum. O material que acabaria em "Back in Black" começou a tomar forma nesse período, mas a dúvida principal continuava sem resposta: quem seria o vocalista - e se valia mesmo a pena seguir sem Bon.

Na prática, o AC/DC estava diante de um paradoxo: era uma banda de hard rock em plena ascensão mundial, com moral para atrair praticamente qualquer vocalista interessado em encarar o desafio mas, ao mesmo tempo, os próprios integrantes tinham dificuldade em imaginar outro rosto e outra voz na linha de frente. A vaga era "irresistível" do ponto de vista de qualquer cantor, mas quase impossível de preencher do ponto de vista emocional e estético de quem estava dentro da banda.
Anos depois, em conversa com a Rolling Stone, em fala resgatada pela Far Out, Malcolm Young deixou claro o tamanho da encrenca, e usou um nome bem conhecido pra ilustrar o tipo de escolha que, para ele, simplesmente não fazia sentido. "'Back In Black' é o disco do qual a gente se orgulha", contou. "Porque a gente achou que era o fim da banda, pra ser honesto. Eu e Angus tínhamos passado duas semanas tocando juntos e, depois da morte do Bon, pensamos: 'bom, é isso'. Eu simplesmente não consigo imaginar o David Coverdale cantando na banda, sabe o que eu quero dizer?"
A menção a David Coverdale não era uma crítica direta à carreira do vocalista, que construiu uma trajetória respeitada no Deep Purple e no Whitesnake. A frase de Malcolm expõe outra coisa: o quanto o AC/DC tinha uma ideia muito clara do que era - e do que não era - o tipo de cantor que encaixaria naquele universo. A voz rasgada, quase gritada, com pegada de bar e rua, pesava mais do que qualquer currículo. Um vocalista com um estilo mais "classudo", cheio de vibratos e fraseado diferente, por melhor que fosse, soaria deslocado no meio dos riffs secos da banda.
A escolha de Brian Johnson acabou sendo a resposta que eles nem sabiam direito que estavam procurando. O ex-vocalista do Geordie já tinha sido elogiado pelo próprio Bon Scott no passado e trazia justamente essa combinação de timbre áspero, volume absurdo e energia que casava com o que o grupo vinha construindo desde os anos 1970. O resultado de juntar esse perfil aos riffs que Malcolm e Angus tinham preparado foi "Back in Black", um dos discos mais bem-sucedidos da história do rock e prova concreta de que, para o AC/DC, não bastava ter "um grande cantor": era preciso alguém que soasse como se sempre tivesse pertencido à banda.
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