O show mais bizarro de Arnaldo Antunes: "Guitarrista estava no chão, pegando fogo"
Por Gustavo Maiato
Postado em 13 de novembro de 2025
No dia 14 de maio de 2000, Arnaldo Antunes viveu uma das noites mais insanas e perigosas de sua carreira. O ex-Titã, já consolidado em carreira solo, apresentava o show do álbum "Um Som" em Belo Horizonte, dentro de um projeto ousado e inusitado chamado Carlsberg Music Station.
A proposta do festival era simples e criativa: promover apresentações em diferentes estações de metrô, permitindo que o público circulasse entre elas com um único ingresso. Cada estação recebia um artista ou banda diferente, e Arnaldo e seu grupo ficaram responsáveis pela estação de Contagem, na região metropolitana da capital mineira.

Cerca de 1.500 pessoas lotavam o espaço montado no pátio de manobras dos trens, na região do Eldorado, quando o show começou. O clima era de euforia, um público animado acompanhava o cantor em clima de celebração. "Eu adoro fazer show em lugares públicos, abertos. Era um ambiente cheio de energia", recordou Arnaldo em entrevista ao canal GNT, mais de duas décadas depois. Mas o que começou como uma noite de festa logo se transformaria em caos. Durante uma das músicas, as luzes se apagaram repentinamente, cortando o som e mergulhando o local na escuridão.
Em vez de sair do palco e esperar a energia voltar, Arnaldo decidiu improvisar. "Achei muito sem graça interromper o show. A vibração estava linda, então continuei cantando a capela. A banda toda veio para beira do palco, e o público começou a cantar junto", contou. O que poderia ter sido apenas um contratempo técnico acabou virando um momento mágico: músicos e plateia unidos na voz e no ritmo, sem instrumentos, apenas na força da música. Quando a energia finalmente voltou, o artista acreditou que o pior já havia passado.
Algumas músicas depois, porém, o som parou novamente. Arnaldo, que estava na frente do palco, virou-se para entender o que havia acontecido - e viu uma cena surreal. "O guitarrista estava no chão, pegando fogo", relatou. O músico Arthur Guidi havia sido atingido por um coquetel molotov, uma bomba caseira feita com garrafa e combustível, lançada por cima do muro que cercava a estação. Em segundos, um pequeno incêndio começou a se espalhar.
Segundo o relato publicado pela Folha de São Paulo no dia seguinte, dois coquetéis molotov foram arremessados. Um atingiu diretamente o guitarrista, que, ao se jogar no chão, conseguiu apagar as chamas da própria camisa; o outro caiu entre os equipamentos, danificando parte do som e impedindo o show seguinte, da banda Mestre Ambrósio. "A Zaba, que tocava teclado comigo, viu o fogo e pulou em cima dele para apagar. Foi heroico. Eu, sinceramente, teria fugido", lembrou Arnaldo, rindo da tragédia com seu humor característico.
Por sorte, Guidi não teve ferimentos graves, apenas o cabelo chamuscado. Depois, os organizadores encontraram mais duas garrafas de coquetel molotov intactas, que haviam sido jogadas mas não chegaram a explodir. Se uma delas tivesse atingido o público, o episódio poderia ter terminado em desastre. "Se aquilo explode na plateia, seria uma tragédia", disse o cantor. "Foi um susto enorme. A gente estava lá em cima, superando o apagão, e de repente acontece algo muito pior."
Apesar do pânico inicial, não houve correria nem feridos. O show, claro, foi imediatamente cancelado, e o restante da programação do festival também acabou interrompido. Nenhum responsável foi identificado. A suspeita era de que os artefatos tivessem sido lançados a partir de uma comunidade vizinha à estação, talvez como reflexo de um conflito local. Arnaldo, tentando descontrair, brincou que poderia ter sido "uma comunidade fã do Capital Inicial".
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