O show do Rush que Geddy Lee não lembra de ter tocado
Por Bruce William
Postado em 31 de março de 2026
Hoje é difícil imaginar Geddy Lee perdendo o controle de qualquer detalhe num palco. Durante décadas, ele foi o sujeito que cantava, tocava baixo, acionava pedais com os pés, cercava-se de teclados e ainda conduzia músicas cheias de mudanças de andamento e estruturas nada simples. Mas houve um momento, ainda no começo da história do Rush, em que ele entrou em cena sem saber muito bem como sairia dali - e depois nem conseguiu se lembrar direito do que aconteceu.
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O episódio aconteceu quando a banda começava a dar um salto maior de público e foi excursionar com o Uriah Heep, ainda na fase inicial com Neil Peart recém-chegado. O Rush vivia um período de transição, ainda longe da complexidade que mais tarde viraria sua marca registrada. Mesmo assim, a mudança de escala já pesava. Não era mais aquela vida de clube pequeno e circuito local. De repente, havia milhares de pessoas diante deles, e a pressão bateu.
Foi aí que Geddy resolveu apelar para uma ajudinha líquida antes do show. Ao relembrar aquele momento em Beyond the Lighted Stage, ele contou, em fala publicada na Far Out: "Disseram: 'Bem, a gente pode mandar bebida para o camarim'. Eu pedi uma garrafinha de Southern Comfort, e o Alex pediu um Blue Nun ou algo assim. Lembro que dei um gole naquele negócio, e aquilo subiu direto para a minha cabeça. Fiquei completamente zonzo, e nós entramos no palco. Quando voltei a mim, o show tinha acabado, e eu não fazia ideia de quão bem tínhamos tocado."
A lembrança mostra um Rush ainda muito distante da imagem quase sobre-humana que viria depois. Havia nervosismo, insegurança e improviso também. E, convenhamos, não era exatamente a banda mais óbvia do mundo para lotar arenas e estádios naquele momento. O grupo ainda encontrava sua identidade com Neil, e boa parte do repertório vinha de uma fase que hoje soa bem mais direta, mais hard rock, menos labiríntica.
Ao mesmo tempo, essa história também ajuda a medir a velocidade com que tudo mudou. Se já era complicado subir meio tonto ao palco quando o Rush ainda trabalhava com canções mais simples, imagine fazer isso poucos anos depois, diante de peças como "Xanadu" ou "La Villa Strangiato". A partir de certo ponto, o trio passou a exigir um nível de concentração que não combinava nem um pouco com esse tipo de aventura.
No caso de Geddy, isso pesava em dobro. Além de cantar em registros altos, ele precisava sustentar a base da banda no baixo e ainda lidar com pedais e teclados ao vivo. Era um trabalho físico e mental dos mais exigentes. O rock sempre flertou com excessos, mas o Rush acabou virando justamente o tipo de banda em que qualquer vacilo podia comprometer tudo.
Talvez por isso a lembrança funcione tão bem hoje. Não porque seja um grande escândalo, mas porque humaniza uma banda que muita gente acostumou a tratar como sinônimo de disciplina e execução impecável. Antes de se transformar nesse monstro de precisão, o Rush também teve seus momentos de desorientação. E Geddy Lee, pelo menos uma vez, terminou um show sem saber ao certo nem o que tinha acabado de fazer.
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