A canção do Black Sabbath que, para Frank Zappa, definiu "um certo estilo musical"
Por Bruce William
Postado em 09 de maio de 2026
Frank Zappa não era exatamente o tipo de músico que alguém associaria de imediato ao Black Sabbath. Enquanto o Sabbath saía de Birmingham com riffs pesados, som sombrio e uma linguagem que ajudaria a dar forma ao heavy metal, Zappa circulava por outro território: rock, jazz, sátira, música de vanguarda, arranjos quebrados e uma visão muito própria sobre composição.
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Talvez por isso o elogio dele a "Supernaut" tenha causado tanto espanto em Geezer Butler. Para o baixista do Black Sabbath, ouvir Frank Zappa dizendo que aquela faixa estava entre suas preferidas parecia quase uma pegadinha. Não era apenas um fã qualquer falando de uma música pesada. Era um músico conhecido justamente por seu ouvido técnico e por uma relação pouco convencional com o rock.
A história foi lembrada por Geezer em sua autobiografia "Into the Void: Minha Vida no Black Sabbath - e Além" (Amazon). Segundo ele, o encontro aconteceu em 1974, quando Zappa convidou os integrantes do Sabbath para um restaurante onde estava dando uma festa. Foi ali que o músico americano soltou uma frase que Butler não esperava ouvir.
"Frank Zappa - que era um cara muito técnico - nos convidou uma vez para um restaurante onde ele estava dando uma festa. Ele disse: 'A música 'Supernaut' é minha faixa favorita de todos os tempos.' Eu não conseguia acreditar - pensei: 'Esse cara está tirando com a minha cara: deve haver uma câmera escondida aqui em algum lugar...'"
A reação de Geezer ajuda a entender como o Sabbath ainda era visto por parte da crítica naquele período. A banda vendia discos, lotava shows e já tinha uma identidade sonora muito forte, mas nem sempre era tratada com o mesmo respeito reservado a artistas considerados mais "sofisticados". Por isso, quando alguém como Zappa elogiava uma música do grupo, o comentário parecia vir de um lugar pouco óbvio.
Só que a admiração não era brincadeira. Em entrevista publicada pela revista Let It Rock em 1975, Zappa voltou a citar "Supernaut" como uma de suas músicas favoritas e explicou o motivo. "Eu gosto porque considero que é o protótipo de um certo estilo musical. Eu acho bem feita. E também curto o lick da guitarra que é tocado ao fundo."
Zappa não disse, ao menos nesse trecho, que estava falando especificamente de heavy metal. Ainda assim, é difícil separar a frase do papel que o Black Sabbath teve naquele começo dos anos 1970. "Supernaut" tem riff forte, repetição hipnótica, peso, balanço e uma construção que não depende de floreios para funcionar. É uma música direta no impacto, mas muito bem resolvida naquilo que propõe.
Tony Iommi contou ao Songfacts que a faixa nasceu de uma forma bem típica do processo do Sabbath. Ele estava usando um pedal wah-wah quando começou a tocar o riff que se tornaria "Supernaut", e os outros integrantes gostaram da ideia. A partir dali, a banda desenvolveu a música, seguindo aquele método simples que marcava boa parte das composições do grupo: Iommi tocava um riff, os demais reagiam, e a música só seguia adiante se alguém realmente enxergasse algo ali.
"Eu estava usando um wah-wah e comecei a tocar esse riff, que era 'Supernaut'", disse Iommi. "Todo mundo gostou, e transformamos isso na música. Era assim que sempre trabalhávamos nas coisas do Sabbath. Eu sempre tocava algo, e os outros tinham que dizer: 'Ah, eu gostei disso.' Se ninguém falasse nada sobre o que eu tocava, simplesmente seguíamos em frente e fazíamos outra coisa. Sempre tinha que ser alguém dizendo: 'Ah, eu realmente gosto disso', porque eu posso continuar tocando riffs."
Lançada em Vol. 4, em 1972, "Supernaut" mostra bem por que o comentário de Zappa faz sentido. A faixa não é apenas pesada; ela tem movimento. O riff carrega a música, mas a bateria e o baixo dão um balanço que impede tudo de virar um bloco duro demais. É Black Sabbath em uma fase em que o peso já estava consolidado, mas ainda havia espaço para groove, dinâmica e pequenas viradas que faziam a música respirar.
Para Geezer Butler, a aprovação de Zappa teve um peso simbólico. Era como se alguém de fora do cercado natural do Sabbath tivesse enxergado valor naquilo que muitos críticos ainda tratavam com desconfiança. E talvez esteja aí o detalhe mais interessante: Zappa não precisava soar como o Black Sabbath para reconhecer "Supernaut". Ele ouviu a música, percebeu o riff, o desenho e a força daquela construção, e viu ali o protótipo de alguma coisa que, com ou sem nome exato, já estava ficando difícil de ignorar.
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