O relato maduro e honesto de Rafael Bittencourt do Angra sobre ser pai de um homem trans
Por Gustavo Maiato
Postado em 11 de abril de 2026
Rafael Bittencourt falou de forma aberta e serena sobre a experiência de ser pai de um homem trans. Em entrevista ao canal da Billboard Brasil, o guitarrista do Angra tratou o tema sem pose de especialista e sem tentar esconder o próprio choque inicial. O que apareceu foi um depoimento de pai: às vezes confuso, às vezes duro consigo mesmo, mas disposto a aprender e, sobretudo, a acolher.
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Ao tocar no assunto, Rafael começou situando a conversa num quadro mais amplo. Disse que sua geração envelheceu, que o público também cresceu e que falar de filhos passou a ser parte natural da vida de músicos e fãs. Foi então que revelou: "O meu filho é um filho trans, é um homem trans". Logo depois, veio o complemento que dá o tom de todo o relato: "Ele só me dá alegria".
Rafael Bittencourt e a descoberta que seu filho é trans
O músico não tentou romantizar o começo do processo. Admitiu que a notícia foi um baque. Para ele, a questão está dentro de algo ainda maior: o desafio de ser pai hoje, em um mundo que oferece aos jovens referências, categorias e caminhos que não existiam com a mesma visibilidade para a geração anterior. "Nossa geração estava preparada para uma palheta com menos cores", afirmou. Na sequência, reconheceu o descompasso: "A gente não entende".
Rafael contou que, quando o filho se apresentou de forma clara, a fala veio sem margem para dúvida. Segundo ele, ouviu algo muito direto: "Eu sou um homem trans, não sou a menininha de tiara que você levou para a escola. Veja como você fala comigo, vá se informar". A reação do guitarrista foi de desnorteamento. "Eu fiquei em parafuso", disse.
A partir daí, ele descreve um processo que mistura resistência inicial e busca de informação. Disse que tentou argumentar com a ideia de que o filho poderia estar confuso diante de muitas possibilidades. Mas ouviu de volta uma resposta ainda mais firme: "Não, pai, eu sei direitinho qual é o meu caminho, e você que não entendeu. Se vire para entender isso aí".
Em vez de encerrar a conversa no choque, Rafael procurou ajuda profissional. Levou o filho a psiquiatra e psicólogo e ouviu especialistas tratarem o caso com cuidado, sem simplificação. O ponto decisivo para ele veio quando percebeu que a questão não estava restrita a discurso ou fase passageira, mas envolvia vivência concreta, escola, nome social, banheiro, exposição e preconceito. Segundo o relato, o próprio filho enfrentou esse caminho de frente, indo à escola para pedir mudança de nome na lista e reivindicar o uso do banheiro masculino.
O relato fica mais forte quando ele amplia a questão para além da própria casa. Rafael afirma ter visto, na órbita do filho, outros jovens passando pelo mesmo drama, muitos deles em famílias mais fechadas ou despreparadas. Disse que alguns se cortavam. Disse também que houve casos de suicídio. E nomeou o problema que, na visão dele, muitos pais seguem varrendo para debaixo do tapete: "disforia de gênero". Para o guitarrista, trata-se de um tema "muito sério".
A fala mais dura dele talvez seja justamente a mais simples. "Não batalhem contra o mundo, porque um dia você vai morrer e o mundo vai vencer, vai continuar", afirmou. A frase não aparece como provocação gratuita, mas como recado a pais que, segundo ele, seguem reagindo com temor ao olhar alheio, ao julgamento social e à perda de referências antigas. Na visão de Rafael, os filhos já avançaram um pouco nessa discussão; o problema é que muitos pais ainda não têm maturidade emocional para acompanhar.
O desfecho do raciocínio dele também passa pelos médicos. Segundo Rafael, a orientação recebida foi direta: "Ou você acolhe ou vai ser mais um infeliz que não tenta entender". A partir daí, o guitarrista rejeita a explicação preguiçosa de que haveria apenas uma explosão artificial de identidades trans por influência externa. Para ele, a realidade está posta e o melhor caminho não é negar, mas acolher.
No fim, o que fica do depoimento não é uma tentativa de se apresentar como pai perfeito. Rafael fala justamente do contrário: despreparo, susto, ignorância inicial e esforço para sair desse lugar. Talvez por isso o relato soe tão forte. Ele termina com uma declaração simples, mas que amarra tudo o que veio antes: "Eu tenho muito orgulho do meu filho Alex, que eu amo demais. Só me dá alegria".
Confira a entrevista completa abaixo.
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