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Foo Fighters

A Banda 365 transforma tempo, cidade e resistência em disco que ecoa além das décadas

Por
Postado em 18 de maio de 2026

Quatro décadas depois de fincar seu nome como um dos pilares do rock paulistano, a Banda 365, formada por Miro de Melo, MN Junior, Ari Baltazar e Wellington de Mello, retorna com um trabalho que não apenas revisita sua trajetória, mas a expande em novas direções. Ciclo Eterno é mais do que um álbum comemorativo - é um manifesto sobre permanência, transformação e os ciclos que moldam o indivíduo e a sociedade.

Foto: Reprodução
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Dividido entre composições de estúdio e registros ao vivo, o disco constrói uma narrativa que começa no íntimo e desemboca no coletivo. É um movimento natural para uma banda cuja essência sempre esteve ligada ao chamado "rock de combate": aqui, a reflexão pessoal não se dissocia da leitura social - ao contrário, se alimenta dela.

Foto: Mario Palhares
Foto: Mario Palhares

A abertura com "Luz do Eterno Amor" funciona como um prólogo quase espiritual. Há uma sensação de permanência que atravessa a faixa, como se o álbum estabelecesse desde o início sua tese central: algo sempre permanece, mesmo quando tudo muda. Na sequência, "Quando Tudo Passar" tensiona essa ideia ao trazer a impermanência para o centro, criando um contraste que guia o ouvinte para dentro do conceito do disco.

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O jogo entre certeza e dúvida ganha corpo em "1.2.3 Talvez Não", que quebra a linearidade e introduz ritmo, hesitação e humanidade. Já em "Serei Eu de Novo", a banda mergulha em uma das questões mais profundas do álbum: a identidade em um mundo em constante transformação. Fechando esse primeiro bloco, "Você Terá Sempre um Lugar" oferece um respiro emocional - um ponto de acolhimento que equilibra a densidade existencial construída até ali.

Mas é em "São Paulo", ainda na versão de estúdio, que o disco encontra seu eixo concreto. A cidade deixa de ser pano de fundo e se torna personagem: caótica, pulsante, inevitável. É o momento em que o ciclo deixa de ser apenas interno e passa a dialogar com o espaço urbano - marca registrada da Banda 365.

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A virada para o bloco ao vivo redefine completamente a experiência. Gravadas na sala Centro Cultural São Paulo, em 25 de janeiro de 2026 - aniversário da cidade -, as faixas carregam a energia crua do palco e ampliam o discurso da banda.

"Nunca Mais" surge como ruptura, quase um grito coletivo. Em seguida, "Só Armas" intensifica o tom com uma abordagem direta e sem rodeios, reafirmando o viés político que sempre permeou a obra do grupo. Esse olhar crítico se aprofunda em "Berço Esplêndido", que revisita a ideia de identidade nacional sob uma perspectiva menos confortável e mais questionadora.

No meio dessa densidade, "Dança das Mãos" oferece movimento e respiro, trazendo uma dimensão mais sensorial à experiência ao vivo. Já "Por Quanto Tempo" retoma o eixo conceitual do álbum ao colocar o tempo novamente em pauta, enquanto "Manhã de Domingo" desacelera, criando um instante quase cinematográfico de contemplação.

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Entre os momentos mais emblemáticos está "Cegos Movimentos", síntese clara do conceito do disco: a repetição inconsciente que rege indivíduos e sociedades. A inclusão de "Asa Branca" amplia ainda mais o alcance do trabalho, conectando o urbano ao regional, o presente à memória, e reforçando a identidade brasileira como parte essencial desse ciclo.

O retorno a "São Paulo", agora em versão ao vivo, fecha um arco narrativo inteligente - a mesma cidade, sob outra luz, provando que o tempo transforma tudo, inclusive o olhar. E é com "Grândola, Vila Morena" que o álbum encontra seu desfecho mais potente: um símbolo histórico de mudança que aponta, com clareza, que ciclos podem se repetir, mas também podem ser rompidos.

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Ao longo de Ciclo Eterno, a Banda 365 demonstra que sua relevância não está apenas na longevidade, mas na capacidade de se manter conectada ao tempo - interpretando suas tensões, refletindo suas contradições e transformando tudo isso em música.

Se o nome 365 sempre sugeriu continuidade, este novo trabalho reafirma: o ciclo segue - mas nunca exatamente da mesma forma.

NR: A Banda 365 dedica este trabalho ao agora saudoso amigo, músico e produtor, Michel Kuaker. As faixas em estúdio foram gravadas e produzidas por ele que, infelizmente, partiu no início de abril deste ano. Gratos pelo incrível legado. Kuaker, eterno!

Foto: Reprodução
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Sobre Flávia Pais da Silva

Jornalista com foco em música, especialmente rock 'n' roll — não apenas como gênero, mas como expressão cultural e histórica. Produzo conteúdo que informa, contextualiza e provoca reflexão. Em um tempo em que o rock já é legitimado, contribuo para que ele seja cada vez mais bem visto e bem quisto.
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