O Beatle que Ringo Starr disse não ter bom senso de tempo
Por Bruce William
Postado em 07 de junho de 2026
Ringo Starr nunca precisou tocar de maneira espalhafatosa para ser importante nos Beatles. Sua função era outra: segurar a música, entender a canção e dar a cada faixa exatamente o tipo de pulso que ela precisava. Por isso, quando ele fala sobre o senso rítmico dos outros integrantes, a opinião vem de alguém que passou anos sustentando musicalmente aquele quadrado formado por John, Paul, George e ele próprio.
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O comentário mais curioso envolve John Lennon. Ringo não diminuiu o papel do parceiro; pelo contrário, chamou Lennon de guitarrista rítmico brilhante. Mas fez uma ressalva que, vinda do baterista da banda, ganha peso. "Minha bateria é realmente a base de muitas daquelas faixas. Paul é o baixista mais melódico do mundo, e John era um guitarrista rítmico brilhante, apesar do fato de não ter nenhum senso real de tempo. Então, musicalmente, todos nós éramos muito importantes", afirmou.
A frase parece áspera se for lida fora do contexto, mas combina com algo que os Beatles tinham de especial. Lennon não era um músico "certinho" no sentido técnico. Muitas de suas músicas tinham entradas estranhas, compassos atravessados, frases que pareciam sobrar ou faltar em relação ao esperado. O papel de Ringo era justamente fazer aquilo funcionar sem perder naturalidade.
Esse tipo de irregularidade aparece em várias composições de Lennon. "All You Need Is Love" alterna compassos e cria uma sensação de marcha torta, enquanto "Good Morning Good Morning" tem mudanças de métrica que deixam a música inquieta, quase instável. "Happiness Is a Warm Gun" também passa por seções diferentes como se fosse uma pequena colagem, exigindo da banda precisão para não soar apenas confusa.
Em outros casos, o efeito era mais sutil. "Don't Let Me Down", gravada nas sessões de "Let It Be", tem uma sensação de balanço que não fica presa a uma rigidez absoluta. Lennon parecia mais interessado em seguir a frase, a emoção e a urgência da música do que em encaixar tudo de maneira quadrada. Isso podia irritar um baterista menos atento, mas Ringo tinha justamente a capacidade de acomodar essas curvas.
A importância de Paul McCartney nessa engrenagem também aparece na fala de Ringo. Anos depois, em entrevista à GQ (via Far Out), o baterista voltou a elogiar Paul como baixista melódico ao falar de uma gravação solo em que chamou o antigo parceiro para tocar baixo. "Ele é o músico mais melódico, adoro tocar com ele", disse Ringo.
Talvez seja justamente aí que os Beatles funcionavam melhor. Nem tudo vinha da perfeição técnica. Às vezes, vinha do atrito entre músicos muito diferentes, cada um compensando, provocando ou completando o outro. Ringo podia dizer que John não tinha grande senso de tempo, mas passou anos provando na prática que sabia exatamente como fazer aquela falta de precisão virar música.
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