As músicas que não são do Rush e que Alex Lifeson tocou "um milhão de vezes"
Por Bruce William
Postado em 14 de maio de 2026
Antes do Rush encontrar sua própria linguagem, Alex Lifeson era um adolescente tentando entender o que uma guitarra podia fazer dentro de uma música mais ambiciosa. Ele tinha começado a tocar ainda nos anos 1960, em um período em que o rock mudava muito rápido: blues pesado, psicodelia, hard rock e rock progressivo se misturavam antes que as etiquetas ficassem tão rígidas.
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Nessa fase, o Yes teve um papel importante para Lifeson. Durante a cerimônia de introdução da banda ao Rock and Roll Hall of Fame, em 2017, ele falou sobre como aqueles discos chegaram até ele quando tinha por volta de 17 anos. "O Yes foi minha banda de entrada de muitas maneiras", disse o guitarrista, em fala resgatada na Far Out. "Há algo tão passageiro e ao mesmo tempo duradouro na forma como a música soa quando você tem 17 anos. Enquanto o Yes tocava no meu quarto, eu também tocava."
O disco que marcou esse momento foi "The Yes Album", lançado em 1971. Ainda era uma fase anterior à entrada de Rick Wakeman, com Tony Kaye nos teclados e Steve Howe já trazendo uma guitarra muito diferente do padrão blues-rock mais comum da época. O Yes ainda tinha um pé na psicodelia, mas já apontava para composições mais longas, mudanças de clima e arranjos que exigiam outro tipo de escuta.
Lifeson citou duas músicas em especial. "Passei horas tentando tirar músicas como 'Starship Trooper' e 'Yours Is No Disgrace'… devo ter tocado aquilo um milhão de vezes…", afirmou. A frase tem aquele exagero natural de músico lembrando adolescência, mas também diz bastante: ele não apenas ouvia o Yes, ele estudava aquelas músicas no instrumento, repetindo os trechos até entender como aquilo funcionava.
"Yours Is No Disgrace" abre The Yes Album com quase dez minutos de mudanças, passagens instrumentais e uma guitarra que não fica presa ao acompanhamento tradicional. Já "Starship Trooper" é dividida em partes e reúne ideias de Jon Anderson, Chris Squire e Steve Howe, com uma construção que cresce aos poucos até o trecho final. Para um guitarrista jovem, era um tipo de material que mostrava que a música podia sair do formato verso-refrão sem perder força.
A ligação com o Rush não precisa ser forçada demais para aparecer. A banda canadense seguiu por outro caminho, mais pesado em certos momentos, mais seco em outros, e com uma personalidade própria muito forte. Mas dá para ouvir como a geração do prog britânico abriu uma possibilidade para músicos como Lifeson, Geddy Lee e Neil Peart: a ideia de que uma banda de rock podia esticar estruturas, mudar compassos, criar suítes e ainda assim manter energia de palco.
O próprio Rush depois levaria essa lógica para discos como "2112", "A Farewell to Kings" e "Hemispheres", já com uma mistura de peso, técnica e estranheza que era só deles. O Yes não explica o Rush inteiro, claro, mas ajuda a entender uma parte do vocabulário que Lifeson absorveu antes de encontrar sua voz. Às vezes a influência não aparece como cópia, mas como permissão. No caso dele, "The Yes Album" parece ter sido justamente isso: um disco que dizia a um guitarrista de 17 anos que dava para ir mais longe.
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