O músico que para James Hetfield representava a própria América
Por Bruce William
Postado em 03 de junho de 2026
James Hetfield nunca foi apenas o sujeito dos riffs rápidos e da voz rasgada do Metallica. Mesmo com uma carreira construída dentro do metal, ele sempre deixou escapar uma ligação forte com outras formas de música americana, especialmente quando o assunto envolve artistas de voz grave, histórias sombrias e uma certa imagem de estrada, culpa e resistência.
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Essa ligação aparece de forma clara quando Johnny Cash entra na conversa. Para Hetfield, Cash não era apenas um cantor country importante. Era uma figura que carregava algo maior, quase uma síntese de certa ideia de Estados Unidos: botas no chão, voz profunda, canções sobre prisão, pecado, perda, fé, queda e sobrevivência.
A admiração por Cash também ajuda a entender por que Hetfield se interessou pelo trabalho de Rick Rubin no Metallica. Rubin havia participado de uma das fases mais comentadas da carreira final de Cash, iniciada com American Recordings, de 1994. O disco marcou uma retomada do cantor, então já reconhecido como nome histórico, mas afastado do centro comercial da música country havia anos.
Quando o Metallica chamou Rubin para produzir "Death Magnetic", lançado em 2008, Hetfield citou justamente esse lado do produtor: a capacidade de recolocar artistas clássicos em evidência, dando a eles uma nova chance de serem ouvidos. "Especialmente Johnny Cash. Johnny foi totalmente sacaneado por sua gravadora e meio que desapareceu. É tipo: 'Vamos lá, Johnny Cash é a América. Isso precisa voltar ao topo de algum jeito. Tem que hastear a bandeira!'", afirmou Hetfield, segundo a Far Out.
A frase diz muito sobre como Hetfield enxergava Cash. Não se tratava só de gostar das músicas. Para ele, havia ali uma figura que merecia ser preservada, defendida e recolocada no lugar de destaque. Cash tinha atravessado décadas de carreira, passado por períodos de queda e voltado a ser ouvido por novas gerações justamente quando Rubin o apresentou de uma forma mais crua e direta.
Essa fase final de Cash também se aproximava de um público que não vinha necessariamente do country. Em "Unchained", de 1996, ele gravou com Tom Petty and the Heartbreakers e incluiu uma versão de "Rusty Cage", do Soundgarden. O álbum ainda venceu o Grammy de Melhor Álbum Country, mostrando como aquela retomada conseguia conversar com mais de um público ao mesmo tempo.
Não é difícil entender por que isso interessaria a Hetfield. O Metallica também vinha de um período conturbado antes de "Death Magnetic", especialmente após "St. Anger" e toda a exposição interna registrada em "Some Kind of Monster". Chamar Rubin tinha um sentido simbólico: tentar reencontrar uma essência, ou pelo menos tirar parte do excesso acumulado em torno da banda e fazer o Metallica soar novamente como Metallica. "Death Magnetic" foi lançado em 12 de setembro de 2008 e marcou o primeiro álbum de estúdio da banda com Rubin na produção.
A influência de Cash em Hetfield talvez não esteja em uma semelhança musical direta. Ninguém confundiria "Whiplash" com uma canção country. Mas em baladas como "Mama Said", de "Load", já dava para perceber que Hetfield tinha familiaridade com uma tradição mais ligada ao country, à estrada e à exposição de feridas pessoais sem tanto verniz. Nesse ponto, Cash oferecia um tipo de autoridade que ia além do estilo.
Para Hetfield, Johnny Cash parecia representar uma América mais áspera, menos decorada, feita de contradições, quedas e retomadas. E talvez por isso a frase soe tão forte. Quando ele diz que Cash "é a América", não está falando apenas de patriotismo ou bandeira no palco. Está falando de um artista que, mesmo depois de sair do centro das atenções, ainda carregava uma voz reconhecível o bastante para merecer ser ouvida de novo.
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