"Consigo tocar a maioria das músicas do Sabbath com dois dedos", disse Tony Iommi
Por Bruce William
Postado em 03 de junho de 2026
Tony Iommi poderia ter parado de tocar guitarra antes mesmo de formar o Black Sabbath. Ainda jovem, trabalhando em uma fábrica em Birmingham, ele sofreu um acidente que arrancou as pontas de dois dedos da mão direita - justamente a mão usada para pressionar as cordas, já que ele é canhoto. A solução veio na base da insistência: próteses caseiras, cordas mais leves, afinações mais baixas e uma forma própria de tocar.
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Em uma entrevista feita por Dan Epstein em 2001 e publicada agora no Substack Jagged Time Lapse, Iommi aparece falando sobre esse lado técnico e físico de sua trajetória. A conversa aconteceu no lobby de um hotel em Beverly Hills, durante uma rodada de entrevistas para uma matéria da Guitar World com três integrantes do Sabbath: Iommi, Geezer Butler e Bill Ward. Ozzy Osbourne não estava presente naquele momento.
Epstein contou que estava nervoso antes de conversar com o guitarrista, não apenas por ser fã, mas pela imagem que tinha de Iommi como uma figura escura, elegante e intimidadora, quase o "Christopher Lee" do Black Sabbath. Na prática, encontrou alguém mais acessível do que esperava. Durante a conversa, Iommi chegou a mostrar a caixa com suas pontas de dedos protéticas, as soluções caseiras que o ajudaram a continuar tocando depois do acidente.
O título da publicação traz uma frase que resume bem essa mistura de limitação, adaptação e espanto: "Consigo tocar a maioria das nossas coisas com dois dedos". Vinda de qualquer guitarrista, a frase já chamaria atenção. Vinda do sujeito que criou riffs como "Black Sabbath", "Iron Man", "War Pigs", "Children of the Grave" e "Into the Void", ela ganha outro peso.
A entrevista também voltou ao começo do Black Sabbath e à ideia de criar uma música que fosse quase o oposto do clima flower power do fim dos anos 60. Iommi não descreveu aquilo como um plano teórico para "inventar" o heavy metal, mas como uma vontade de fazer algo que causasse impacto físico em quem ouvisse. "Eu só queria criar algo assustador, algo que realmente te pegasse de surpresa. Algo que fizesse você dizer: 'Uau, o que é isso?!?' e te desse arrepios na espinha", afirmou.
O guitarrista disse que era exatamente essa sensação que a música provocava neles quando tocavam. Ele queria algo mais poderoso do que canções associadas ao período, citando "Monday, Monday", do The Mamas & the Papas, como exemplo de um outro tipo de música que também apreciava, mas do qual queria se afastar. Não era uma negação simples do que existia. Era a busca por uma força diferente, mais pesada e mais sombria.
Esse detalhe ajuda a entender por que o Black Sabbath soou tão estranho quando apareceu. A banda vinha de um ambiente industrial, não de uma fantasia colorida californiana. Os riffs de Iommi, o baixo de Geezer, a bateria de Bill Ward e a voz de Ozzy formaram uma música que não parecia interessada em suavizar nada ao redor. O acidente do guitarrista, que poderia ter encerrado tudo, acabou interferindo diretamente no som que ele criou.
A entrevista de Epstein também tem valor por registrar Iommi antes de uma fase que ainda prometia um novo álbum do Black Sabbath com Rick Rubin. Em 2001, havia planos para esse trabalho, mas as sessões foram interrompidas para que Ozzy terminasse "Down to Earth". O reencontro em estúdio com Rubin só renderia um disco muitos anos depois, com 13, lançado em 2013.
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