Os solos de guitarra em que Jimmy Page sentiu que estava se desafiando
Por Bruce William
Postado em 03 de junho de 2026
Jimmy Page sempre teve uma relação muito particular com a guitarra dentro do Led Zeppelin. Ele não era apenas o guitarrista da banda, mas também o produtor, o arquiteto sonoro e o sujeito que decidia como cada peça deveria aparecer no disco. Isso ajudou a fazer com que seus solos raramente soassem como trechos colocados apenas para cumprir tabela. Em muitos casos, eles funcionavam como parte central da narrativa da música.
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Mesmo assim, Page não via todos os seus momentos de guitarra da mesma maneira. Alguns solos chamaram atenção dele justamente por mostrarem uma tentativa de sair do caminho mais confortável. Não era necessariamente uma questão de tocar mais rápido, mais alto ou mais complicado, mas de procurar uma intenção diferente na forma de atacar as notas e explorar a harmonia.
Ao comentar sua própria forma de tocar (via Far Out), Page citou "Dancing Days", faixa de "Houses of the Holy", como um exemplo de solo que não seguia o padrão mais previsível. "Não é a norma. Não é uma coisa arrastada. Tem intenção na atitude. É um ataque", afirmou. A música, lançada em 1973, tinha um lado mais solar e dançante, mas a guitarra entrava com uma aspereza que impedia a faixa de virar apenas um exercício leve dentro do repertório do Zeppelin.
O guitarrista também lembrou "Misty Mountain Hop", de Led Zeppelin IV, como outro momento em que essa busca aparecia, ainda que de maneira menos extrema. "Embora não seja tão extremo, essa ideia também aparece no solo de 'Misty Mountain Hop'. Eu estava me forçando a explorar novas áreas de harmonia. Queria investigar essas bordas externas - talvez me empurrar para além da borda!", disse Page.
Ao falar desses solos, Page não escolheu apenas os exemplos mais óbvios, como "Stairway to Heaven" ou "Heartbreaker". Ele preferiu destacar trechos em que sentia estar mexendo em limites internos da própria linguagem. Isso diz bastante sobre sua visão como músico. Para ele, impressionar não era apenas construir um grande momento dramático, mas também descobrir uma pequena zona de desconforto dentro de uma música aparentemente simples.
"Dancing Days" tem um andamento mais leve do que muitos clássicos do Led Zeppelin, mas Page não toca como se estivesse apenas enfeitando a canção. O solo tem um ataque meio seco, quase debochado, que combina com o clima da faixa sem perder aquela sensação de instabilidade típica da banda. O Zeppelin podia soar festivo, mas raramente parecia domesticado.
Já "Misty Mountain Hop" funciona de outro jeito. A base repetitiva e o piano elétrico criam um clima quase hipnótico, enquanto a guitarra aparece como uma camada de atrito. Page parecia interessado justamente nesse tipo de deslocamento: encontrar um ponto em que a música continuasse acessível, mas com alguma coisa torta o suficiente para não virar uma canção comum de rock.
No Led Zeppelin, esse tipo de inquietação era parte do motor da banda. Page podia buscar folk, blues, música oriental, rock pesado, arranjos acústicos ou riffs mais diretos, mas quase sempre tentava colocar algum desvio no caminho. Em "Dancing Days" e "Misty Mountain Hop", esse desvio aparece nos detalhes da guitarra, nas notas escolhidas, no ataque e na sensação de que o solo não está ali para descansar a música, mas para empurrá-la um pouco mais para fora do lugar.
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