A banda à frente de seu tempo, influenciada pelos Stones, que teria sido rejeitada por Jagger
Por Bruce William
Postado em 03 de junho de 2026
Quando os Rolling Stones criaram a Rolling Stones Records, no começo dos anos 70, a ideia principal era ganhar mais controle sobre a própria carreira. Depois de anos lidando com a Decca e com disputas em torno de capas, lançamentos e decisões artísticas, a banda passou a ter seu próprio selo. Mas administrar uma gravadora era outra história, especialmente para um grupo que já tinha problemas suficientes para cuidar da própria rotina.
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Nesse período, os Stones também poderiam ter colocado no catálogo uma das bandas mais importantes do rock nova-iorquino dos anos setenta. Segundo Sylvain Sylvain, guitarrista dos New York Dolls, a Rolling Stones Records chegou a observar o grupo antes de sua assinatura com a Mercury. A história foi relembrada pela Far Out a partir de uma declaração de Sylvain publicada pela Classic Rock.
"Uma das gravadoras que estava nos sondando era o selo dos Rolling Stones", contou Sylvain. Segundo ele, a banda enviou Mick Jagger para conferir os Dolls. O vocalista dos Stones não se animou. "Ele passou. Provavelmente achou que éramos um monte de porcaria", disse o guitarrista, em tom bem compatível com o espírito dos New York Dolls.
A recusa, se foi mesmo nesses termos, não era tão difícil de entender naquele momento. No começo dos anos 70, os New York Dolls pareciam deslocados demais para quase todo mundo. Tinham algo de Rolling Stones, algo de glam, algo de hard rock sujo e algo de punk antes mesmo de o punk ser reconhecido como movimento. A imagem também confundia: roupas femininas, maquiagem, salto, atitude debochada e uma energia de palco que muita gente da velha guarda achava apenas bagunçada.
O próprio mainstream britânico demorou a engolir a banda. Em 1973, ao apresentá-los no programa The Old Grey Whistle Test, Bob Harris chamou o som dos Dolls de "mock rock", uma expressão que carregava desprezo e ironia. A banda, porém, não precisava convencer imediatamente apresentadores de TV, executivos ou astros já estabelecidos. Sua influência apareceria com mais força na geração seguinte.
Os New York Dolls acabaram assinando com a Mercury e lançaram o álbum de estreia em 1973, produzido por Todd Rundgren. O disco não foi um sucesso comercial, chegando apenas à posição 116 da parada americana, mas se tornou um dos registros mais citados quando se fala na ponte entre glam rock, hard rock e punk. Faixas como "Personality Crisis", "Trash" e "Jet Boy" ajudaram a criar uma linguagem que seria absorvida por bandas como Ramones, Sex Pistols, The Clash e muitos outros nomes que vieram depois.
A ironia é que David Johansen, vocalista dos Dolls, era frequentemente comparado a Mick Jagger. Sylvain chegou a lembrar que, em uma passagem pela França, pessoas seguiam Johansen convencidas de que ele era Jagger e pediam autógrafos ao cantor. A semelhança visual e gestual podia até existir, mas os Dolls levavam aquela herança para um território mais torto, mais urbano e menos controlado.
Visto em retrospecto, a Rolling Stones Records perdeu a chance de ter no catálogo uma banda que antecipou parte importante do rock que viria depois. Mas talvez isso também diga muito sobre o próprio momento. Os New York Dolls eram fáceis de rejeitar em 1972 ou 1973 porque pareciam exagerados, desafinados com o mercado e perto demais do caos. Só que, no rock, às vezes é justamente daí que sai a próxima linguagem.
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