The Clash: a visão detalhada de "Should I Stay or Should I Go"
Por Paulo Severo da Costa
Postado em 16 de maio de 2014
"Na sala de aula da primeira geração do punk inglês, se THE DAMNED era o bagunceiro sentado na fila de trás, assustando as garotas com sapos, os SEX PISTOLS eram os moleques que discordavam de tudo que lhes diziam- isso fazia do CLASH os desafiadores que lembravam a todos- várias vezes e em voz alta –como o mundo estava errado" escreveu CHRIS BRYANS, especialista em punk e pós-punk britânico. Politizados, o quarteto, ainda que tachado de "diluidor da essência do movimento", cuspia críticas ferrenhas às instituições e, com isso, mostrou que o egoísmo pragmático de alguns pensadores punk não passava de cara feia. Abertos à experimentações com o pop, o rockabilly e, evidentemente o reggae, o CLASH construiu um muro de lamentações lúcidas fundado, sobretudo, em clássicos como "The Clash"(1977), "Sandinista!" (1980) e o monstruoso "London Calling" (1979).
A partir do início dos anos 80, com o arrefecimento da cena punk, o CLASH se viu no abismo teleológico que havia sufocado a primeira geração. Sem vocação para o emergente hardcore e cônscio demais para a frivolidade da new wave a banda lançou , em 1982, "Combat Rock", registro recordista de vendas do grupo que trazia nuances de dance punk e, segundo avaliação da Q Magazine, foi "o começo do fim". Se "Combat" estava a quilômetros do brilhantismo de canções como "I Fought the law" ou "Train in Vain", foi um sopro de vida a banda até a edição do péssimo "Cut the Crap" (1985) e rendeu uma vaga aos ingleses no dial com "Rock the Casbah" , "Straight to Hell" e , claro, "Should I Stay or Should I Go?".
"'Should I Stay or Should I Go?' não era sobre algo específico e não foi um prenúncio de minha saída do CLASH. Foi apenas a nossa tentativa de escrever um clássico. Quando tocávamos apenas por diversão, era esse o tipo de coisa que curtíamos tocar" afirmou MICK JONES em 1983. Apoiada pelo riff chiclete-pop mais urgente de todos os tempos, a versão mais aceita é que a doméstica letra foi a descrição do curto relacionamento de JONES com a cantora ELLEN FOLEY (que havia produzido o álbum "The Spirit of St. Louis" em 1981, contando com a participação de outros membros da banda). Com versos como "Devo ficar ou ir embora?/Querida você tem que me deixar saber/Devo ficar ou ir embora?/Se você diz que você é minha/Estarei aqui até o fim do tempo e "Sempre provocando, provocando, provocando/Você é feliz quando estou de joelhos" fica mesmo difícil de desmentir a versão oficial.
Um detalhe nos backing vocals também trouxe notoriedade à faixa. JOE ELY, um cantor texano (cujo álbum de 1978 "Honky Tonk Masquerade" havia chamado chamou a atenção do CLASH) fez um show na Inglaterra, e conheceu a banda. Eles se tornaram amigos, e quando The Clash foi tocar no para o Texas no ano seguinte, eles tocaram juntos alguns shows. Permanecendo em contato, quando o CLASH retornou aos Estados Unidos em 1982, ELY se juntou a eles no estúdio quando eles estavam gravando "Combat Rock" em Nova York.
Foi dessas sessões que surgiu a ideía de cantar os refrões em espanhol, vocalizadas por JOE STRUMMER e ELY. De acordo com ele: "Eu fui para o estúdio enquanto eles estavam trabalhando as canções. Eles estavam trabalhando sobre "Should" há algumas horas. Acho que foi idéia de STRUMMER que, quando chegou a essa parte, ele imediatamente disse:` Você sabe espanhol, me ajudar a traduzir essas coisas´. Meu espanhol era meia boca, `Tex- Mex’ (nota: uma mistura entre espanhol e inglês, característico das regiões sul-fronteiriças dos Estados Unidos) por isso não foi uma tradução exata. Mas eu acho que isso foi concebido para ser uma espécie de bagunça mesmo, porque nós realmente não traduzimos palavra por palavra" .
Ainda na linha folclore do rock n´roll, STRUMMER dize que o grito em meio aos refrões foi acidentalmente registrado -"Quando você ouve "Should I Stay or Should I Go"' há um lugar na música onde MICK diz 'Split'. Eu e ELY estávamos gritando as letras em espanhol de fundo, atrás dele, enquanto ele estava gravando. Estávamos atrás de uma cortina, saltamos para o lado dele e isso o assustou. Ele olhou para e nós e disse 'Split! Mantiveram isso na versão final".
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