Pearl Jam: banda ensaia breve ousadia em Gigaton, mas não surpreende
Resenha - Gigaton - Pearl Jam
Por Jorge Felipe Coelho
Fonte: Rádio Catedral do Rock
Postado em 02 de abril de 2020
Entre as veias punk do Nirvana e metal do Soundgarden, a verdade é que o grunge de Seattle é liderado há muitos anos pela inclinação mais puxada ao rock clássico do Pearl Jam. Desde 2013 sem um álbum de inéditas, no último dia 27/03 o grupo colocou no mercado Gigaton (Universal Music). O disco traz 12 faixas, ao longo de 57 minutos, que foram produzidas pela própria banda em parceria com Josh Evans.
Substituto do velho Brendan O’Brien e escolhido para levar o som do grupo a uma nova direção, Evans integrou a equipe de estúdio ao longo das gravações do álbum Pearl Jam ("Abacate"), de 2006, e trabalhou como engenheiro de som de Chris Cornell durante a turnê do Temple of the Dog (grupo do qual participam todos os integrantes do Pearl Jam) em 2016.
Infelizmente, nem mesmo a torcida dos fãs e a temática ambiental que permeia todo o novo trabalho fez com que a ótima raridade ao vivo "Of the Earth" entrasse no tracklist do álbum. Além de carregar no nome um tipo de unidade que mede o degelo das calotas polares, a capa do disco faz alusão ao aquecimento global e belas imagens de florestas, oceanos e geleiras aparecem nos clipes de todas as canções do álbum lançadas no canal oficial do Pearl Jam no youtube. Segue o caminho para a playlist de clipes completa.
Gigaton abre com o ótimo rock "Who Ever Said". Aqui, arranjos de teclado, fortes viradas de bateria de Matt Cameron e uma ponte acompanhada por uma melancólica linha de baixo de Jeff Ament são os destaques. Na sequência, "Superblood Wolfmoon" e "Dance of the Clairvoyants", que já eram conhecidas do público como os primeiros singles do álbum. Com versos bem rápidos cantados por Eddie Vedder, a primeira acelera ainda mais o ritmo no rock. Mike McCready faz um belo solo de guitarra, mas ainda falta algo na canção para ser um grande destaque.
E justamente o que causou estranheza pelo ineditismo, acabou se tornando o ponto de maior relevância do disco. Com versos que falam sobre um futuro que não existe quando se olha para o passado, "Dance of the Clairvoyants", a primeira faixa disponibilizada ao público em janeiro, mostra o Pearl Jam saindo da zona de conforto e buscando uma ótima sonoridade dançante ao estilo New Wave anos 80. Até o guitarrista Stone Gossard se reinventou e tocou baixo na canção. Seria o dedo de Josh Evans mostrando novos rumos ousados ao grupo? Bom, o que vem na faixa seguinte são influências antigas da banda e principalmente de Vedder, "Quick Escape" (terceiro e mais recente single do álbum) lembra The Who em seu groove de baixo e Grateful Dead na psicodelia dos coros vocais. E assim termina a primeira das três partes do disco, até aqui com potencial interessante.
A sequência intermediária de faixas começa com "Alright", a canção mais serena e inofensiva do álbum. Amantes de "Strangest Tribe", raro lado B da banda, vão se identificar com a atmosfera da canção. Democrata de carteirinha e amigo de Barack Obama, Vedder usa a melhor balada do disco (onde todos os músicos aparecem) para disparar seu habitual ataque contra o líder republicano Donald Trump. "Seven O’ Clock" possui toques "dylanescos" no início e tem tudo para ser o novo sing-along nos shows.
Uma levada rock de timbre cru e melodia simples conduz "Never Destination", dando a sensação de já ter ouvido algo parecido nos trabalhos mais recentes. Composta pelo baterista Matt Cameron e tendo participação vocal de Meagan Grandall (banda Lemolo), a agitada "Take the Long Way" não traz inovação, mas finaliza como a melhor faixa na segunda leva de quatro canções. Uma empolgante melodia somada a um forte riff pontuado por efeitos de pedaleira no pré refrão fazem dessa uma ótima música para se ouvir na estrada, com o pé no acelerador. Cumprirá o papel de agitar o público ao vivo.
Mostrando um certo cansaço, a parte final de Gigaton baixa totalmente o ritmo fazendo o álbum perder o punch inicial. "Buckle Up" procura ser uma balada alegre, mas sem o charme e a solidez de outras coisas já feitas pela banda. "Comes Than Goes" e "Retrograde" são canções que parecem pinçadas de Into the Wild. Com estruturas mais acústicas, têm a cara do trabalho solo de Vedder. O destaque do último terço de canções é "River Cross", que encerra o disco com tom sacro e sussurros em clima espiritual, mas não deslumbra.
Dessa vez o destaque foi a cozinha, Matt Cameron (bateria) e Jeff Ament (baixo) fizeram bom trabalho aparecendo bastante nas composições, mas sem virtuosismos. Aliás, o álbum como um todo é bem direto, sem firulas. Após 7 anos de espera, o 11º álbum da banda trouxe algumas boas canções, mas não surpreendeu. O Pearl Jam, hoje tiozões do grunge, ensaiou uma leve ousadia inicial, mas se manteve em uma zona que seguiu a mesma fórmula e dinâmica musical dos últimos dois trabalhos Lightning Bolt (2013) e Backpacer (2009).
Leia mais no Boletim do JF, disponível no link abaixo.
https://radiocatedraldorock.com/?p=313
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