Discos e Histórias: Metallica e o rompimento com o metal em Load
Resenha - Load - Metallica
Por Ricardo Seelig
Fonte: Collectors Room
Postado em 15 de fevereiro de 2020
Sexto álbum do Metallica, lançado dia 4 de junho de 1996.
Gravado entre maio de 1995 e fevereiro de 1996 no estúdio The Plant, na California.
Produção de Bob Rock ao lado de James Hetfield e Lars Ulrich.
Musicalmente ela dá sequência à sonoridade apresentada no disco anterior, o multiplatinado "Black Album" (1991), mas enfatizando ainda mais a abordagem hard rock e deixando o lado metal em segundo plano.
Esse direcionamento desagradou uma grande parcela dos fãs, o que, somado ao fato de a banda aparecer com os cabelos curtos, maquiagem e um visual inspirado no rock alternativo, intensificou ainda mais o afastamento dos antigos apreciadores e a rejeição ao disco.
É um trabalho muito rico musicalmente e traz elementos de rock, blues, country, southern rock, rock alternativo e até mesmo pop, como fica claro em "Hero of the Day".
Segundo Lars Ulrich: "Load representa, na minha opinião, o que o Metallica realmente é: uma banda que explora sonoridades diferentes. Acredito que no momento que você parar de explorar novas possibilidades, você morreu artisticamente".
A banda demorou cinco anos para lançar o sucessor do "Black Album", o disco que mudou a sua história e colocou o Metallica de maneira definitiva no pequeno grupo de mega bandas do rock.
Não há praticamente nenhum elemento do passado thrash metal nas quatroze músicas do disco. A única exceção está na abertura com "Ain’t My Bitch", uma música que conversa de maneira muito mais harmônica com o período inicial da banda do que todas as faixas presentes em "Black Album".
Uma das principais razões para esse distanciamento dos discos iniciais percebido na maioria das músicas de "Load" está na forma como as guitarras de James Hetfield e Kirk Hammett foram tocadas no disco. Ao invés dos riffs pedalados, agressivos e rápidos, a dupla experimentou tons e estilos mais alinhados com o blues rock. Isso fez com as músicas soassem, musicalmente, mais distantes da sonoridades thrash tradicional do grupo.
Lars também optou por um modo de tocar mais minimalista, deixando de lado a velocidade e as viradas e seguindo um caminho mais simples.
Em relação à Kirk Hammett, Load é o primeiro disco do Metallica onde ele gravou também as guitarras bases, que antes eram todas feitas por James no estúdio.
É o disco mais longo da carreira do Metallica, com 79 minutos de duração.
Como o CD só suporta 79 minutos, "The Outlaw Torn" teve que ser cortada em cerca de um minuto para caber no disco, e a sua versão completa foi lançada apenas no single de "The Memory Remains", do próximo disco, "Reload" (1997).
Apenas quatro das quatorze músicas de "Load" nunca foram tocadas ao vivo: "The House Jack Built", "Cure", "Thorn Within" e "Ronnie".
A capa de "Load" causou polêmica entre os fãs por trazer uma foto do fotógrafo norte-americano Andres Serrano clicada em 1990 intitulada "Sêmen e Sangue III". Na imagen, Serrano misturou sangue bovino com o seu próprio sêmen para criar a composição.
James nunca gostou da capa e falou sobre ela em uma entrevista para a revista inglesa Classic Rock: "Lars e Kirk gostavam muito de arte abstrata, fingindo que eram gays. Eu acho que eles sabiam que isso me incomodava. Foi uma afirmação em torno de tudo isso. Eu amo arte, mas não para chocar os outros. Eu acho que a capa do Load foi apenas um mijo em torno de tudo isso. Eu fui junto com a maquiagem e toda essa porcaria louca e estúpida que eles acharam que precisávamos fazer na época".
A capa também apresentou um novo logotipo do Metallica, deixando bem claro o quanto o disco representava uma mudança e uma ruptura com o passado.
O M do logo clássico também passou a ser utilizado como uma abreviação, em uma espécie de estrela ninja semelhante a um shuriken japonês.
Essa logo abreviada só com o M passou a ser utilizada pelo Metallica em vários materiais, desde capa de discos, singles até posteres e materiais de merchandising da banda.
O encarte traz várias imagens da banda clicadas pelo fotógrafo holandês Anton Corbijn, que também possui uma longa associação com o U2. Nessas fotos o Metallica aparece com figurinos que destoam totalmente do que a banda usava até então, e que, como previsto, causaram rejeição nos fãs.
James também comentou sobre isso: "Lars e Kirk deram a direção nesses discos. Era tudo sobre 'precisamos nos reinventar'. Imagem não é algo ruim para mim, mas se a imagem não é você, não representa você, não faz muito sentido. Eu acho que eles estavam realmente seguindo um tipo de vibração meio U2, com esse lance do Bono ter um alter ego e tal".
Analisando a parte lírica, muitos críticos consideram que estão em "Load" as letras mais pessoais e introspectivas de James, intensificando o que ele já havia feito no álbum anterior.
"Ain’t My Bitch" abre o disco com uma letra sobre raiva e o desejo de ficar sozinho.
"2x4" fala sobre o uso desnecessário da violência.
"The House Jack Built" fala sobre uma casa que é o único lugar onde nos sentimos seguros. Para alguns, a letra traz alusões a drogas e a tal casa do título é a mente de cada indivíduo.
"Until It Sleeps" fala da luta perdida da mãe de James contra o câncer, tema que ele já havia abordado antes em "Dyers Eve" de "... And Justice for All" e em "The God That Failed" do "Black Album".
"King Nothing" fala sobre as pessoas obcecadas em conseguir tudo e se tornarem "reis do nada".
"Hero of the Day" critica as pessoas que buscam heróis nas histórias retratadas pela mídia, quanto na verdade os verdadeiros heróis estão ao nosso lado a vida toda.
"Bleeding Me" fala sobre uma pessoa que está sendo torturada mentalmente.
"Cure" fala sobre o desejo de conseguir uma cura, uma solução, para uma situação difícil.
"Poor Twisted Me" fala sobre como os mais pobres são ignorados pelas pessoas.
"Wasting My Hate" fala sobre estar cansado de sentir ódio de alguém.
"Mama Said" explora o relacionamento de James com Cynthia, a sua falecida mãe, e de como ele queria se distanciar dela até perceber que, com a sua morte, gostaria de a ter por perto novamente.
"Thorn Within" fala sobre uma pessoa que é culpada por um erro que é imperdoável para todos ao seu redor.
"Ronnie" conta a história de um garoto que um dia decide ir para a escola e atirar contra todos os seus colegas.
E "The Outlaw Torn" fala sobre perder alguém que morreu subitamente e a dificuldade em encontrar outra pessoa para preencher esse sentimento.
A recepção da crítica para Load foi bastante mista.
A Rolling Stone deu nota 4 de 5 para o álbum e afirmou que o disco unia o rock curtido pelos motociclistas nos velhos tempos com o lado sombrio do pós-grunge dos anos 1990.
A Melody Maker disse que o disco não era tão pesado quanto os anteriores, em alguns momentos soava exaustivo e causava estranhamento nos fãs.
O AllMusic deu nota 2,5 de 5 e considerou o disco repetitivo, desinteressante e mal executado.
O álbum rendeu quatro singles: "Until It Sleeps", "Hero of the Day", "Mama Said" e "King Nothing".
"Load" vendeu 680 mil cópias na primeira semana de lançamento, indo direto para o primeiro lugar da Billboard, onde permaneceu quatro semanas. Foi a melhor estreia de um álbum do Metallica e a melhor estreia de um álbum durante todo o ano de 1996.
"Load" chegou ao primeiro lugar em quatorze países, vendeu cinco milhões de cópias nos EUA, dois milhões de cópias na Europa e um total de 12 milhões de discos em todo o mundo.
E um fato curioso que ratifica toda essa mudança é que a banda foi a atração principal da sexta edição do Lollapalooza, que rodou os Estados Unidos em 1996 e que desde sempre foi um festival voltado para o público alternativo e que sempre ignorou o metal.
MINHA OPINIÃO
Gosto muito de "Load", sempre gostei. Ele sempre soou aos meus ouvidos como a evolução natural do "Black Album".
Traz na abertura uma das melhores e menos comentadas músicas do Metallica, "Ain’t My Bitch".
"2x4" é levada por um riff de guitarra clássico, enquanto "Until It Sleeps" é um hard pop conduzido pelo baixo de Jason Newsted e uma cativante linha vocal de James. Uma das melhores músicas do disco.
Em "The House Jack Buit" podemos ouvir um solo de guitarra usando talkbox.
"King Nothing" é bem a linha do Black Album, com andamento cadenciado, bastante peso e um riff sabbathiano.
Já "Hero of the Day" flerta com o rock alternativo e tem um clima meio Pearl Jam, além de trazer uma letra inspiradora. No entanto, sempre achei essa música uma das piores do álbum, mas conheço amigos que adoram.
"Bleeding Me" no entanto é demais, a minha preferida do disco, com um clima atmosférico no início e um peso mastodôntico, onde mais uma vez as lições de Tony Iommi são seguidas à risca pelo Metallica.
"Mama Said" traz para a ordem do dia a influência de Lynyrd Skynyrd que Cliff Burton tanto apreciava, em uma balada totalmente southern rock e que entrega uma das melhores interpretações vocais de James Hetfield.
E "The Outlaw Torn" fecha o disco com uma tour de force de quase dez minutos com andamento cadenciado e arranjo sensacional.
No entanto tem música fracas e que pessoalmente não curto, como "Hero of the Day", "Cure", "Poor Twisted Me" e "Ronnie", mas que são momentos onde o Metallica tenta seguir outros caminhos e experimentar novas sonoridades, o que eu acho super importante e respeito demais.
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É um disco que ficou estigmatizado devido à mudança de visual da banda, à capa polêmica e à atitude principalmente de Lars e Kirk na época do lançamento. E isso, pra quem conhece o mundo do metal e o público de metal, bate muito forte em que é fã de música pesada, apesar de soar estranho para quem não está habituado com esse mundo.
Aqui fica evidente a personalidade inquieta e aventureira da banda, que sempre caminhou e olhou para frente. Isso gera boas músicas e outras nem tanto, mas é fundamental para a banda se manter viva e criativa.
Mas o saldo final é muito mais positivo do que negativo, o que faz o disco ter um ar de injustiçado por todos esses motivos listados.
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