Angra: as sementes de um novo começo plantadas em Secret Garden
Resenha - Secret Garden - Angra
Por Ricardo Seelig
Fonte: Collectors Room
Postado em 05 de julho de 2019
"Secret Garden" marca o início da terceira fase da carreira do Angra. Lançado no final de 2014 no Japão e no início de 2015 no Brasil e na Europa, o oitavo álbum do quinteto marcou a estreia do vocalista italiano Fabio Lione (Rhapsody of Fire, Vision Divine) e do baterista Bruno Valverde, substitutos de Edu Falaschi e Ricardo Confessori, que haviam gravado o disco anterior, "Aqua" (2010). "Secret Garden" também é a despedida de Kiko Loureiro, pois o guitarrista foi anunciado como guitarrista do Megadeth em abril de 2015.
Marcando o início da parceria da banda com o produtor sueco Jens Bogren (que assinou trabalhos de bandas como Opeth, Amon Amarth e Soilwork e foi responsável pela produção do disco seguinte do grupo, "Ømni", de 2018), "Secret Garden" contou com Roy Z (Bruce Dickinson, Halford, Helloween) na pré-produção. Ajudando no renascimento da banda após um dos períodos mais turbulentos de sua trajetória, o Angra contou com diversas participações especiais, com destaque para as presenças de Simone Simons, do Epica, no vocal da faixa-título (composta pela pianista e tecladista finlandesa Maria Ilmoniemi, esposa de Kiko Loureiro) e Doro Pesch, dividindo os vocais com Rafael Bittencourt em "Crushing Room".
Musicalmente, "Secret Garden" é um disco que apresenta uma modernização no som do Angra. É claro que as características que fizeram a fama da banda estão nele, como a variação entre faixas que vão do power ao prog metal sem escalas pelo caminho, mas é preciso frisar que a banda soa rejuvenescida aqui, com todo o frescor e novas ideias que a adição de novos integrantes trouxe. Valverde é um prodígio na bateria, criativo e com vontade de encarar desafios musicais, devidamente amparado pela parceria de anos com o baixista Felipe Andreoli, já que ambos já tocavam juntos no trio de Kiko Loureiro. Sua contribuição é gigantesca, tanto nas composições como na elevação da qualidade rítmica do álbum, repleto de batidas intrincadas, andamentos fora do comum e um requinte técnico que não se ouvia há anos em um trabalho do Angra.
Em relação à chegada de Fabio Lione, alguns apontamentos são necessários. Vou pegar como exemplo a minha experiência como fã para tentar colocar em palavras o que senti. A presença de Lione, a princípio, causa um estranhamento, pois ainda que seja inegável que o italiano se pareça como uma força da natureza e seja um vocalista de qualidade mundial, seu timbre e seu modo de cantar "pleno" (como ele próprio se auto define) contrastam de maneira forte com o que Andre Matos e o Edu Falaschi fizeram antes. Esse estranhamento é aplacado com o tempo e as audições consecutivas do disco, exercício esse que também deixa evidente o quanto a banda foi sábia em moldar a sua sonoridade à chegada de Lione, soando mais adequada para a sua voz através de um peso evidente, timbres atuais e uma abordagem distinta da que vinha sendo executada nos discos anteriores.
O álbum conta com dez faixas, com a dupla Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro dividindo o direcionamento criativo. Uma de suas mais fortes canções está logo na abertura, com a energizante "Newborn Me" e sua pegada contemporânea e agressiva. O choque para quem ouviu o álbum esperando encontrar o Angra dos anos anteriores é grande, com a banda deixando para trás e engolindo sem dó os anos finais da era Falaschi. "Black Hearted Soul" mantém o clima lá em cima com sua abertura feita com coros épicos e um speed metal que conversa tanto com "Angels Cry" (1993) quanto com o ótimo "Temple of Shadows" (2004). Uma das melhores músicas do disco e uma espécie de afago no coração dos fãs, com a banda afirmando que não nega o novo caminho que está seguindo, porém ainda sabe como olhar para o passado e jamais irá renegá-lo. As guitarras dessa faixa são um dos destaques do disco, tanto nos solos como nas harmonias.
"Final Light", cujo trecho inicial é utilizado com frequência nos vídeos do canal do grupo no YouTube, desacelera o clima com um andamento mais cadenciado e uma ótima participação de Lione, além de um dos refrãos mais cativantes do disco. O clima prog emerge sem timidez em "Storm of Emotions", uma composição densa e com um clima sombrio que casou muito bem com o arranjo ascendente, onde Fabio Lione mais uma vez encaixa belas linhas vocais.
"Storm of Emotions" é a primeira das músicas a contar com o vocal de Rafael, que faz bem o seu papel. A linda e climática "Secret Garden" traz a bela voz de Simone Simons em uma canção com um arranjo que conduz o Angra para o universo do metal sinfônico, e o resultado é muito bom. "Upper Levels" é a única canção de "Secret Garden" a apresentar elementos de música brasileira, sempre marcantes na identidade do Angra. O instrumental dessa faixa é irrepreensível, com a banda evidenciando a técnica acima de qualquer suspeita de seus integrantes, começando no vocalista e indo até o baterista. Uma das mais fortes canções do disco.
Bittencourt retorna ao microfone em "Crushing Room", agora dividindo a voz com Doro Pesch em uma faixa que alterna momentos mais calmos com outros onde o peso e a explosão típicas do heavy metal assumem a frente. O clássico metal melódico da banda dá as caras em "Perfect Symmetry", enquanto "Silent Call" encerra o álbum de uma forma bastante bonita com uma composição que traz influências do icônico "The Wall" do Pink Floyd e harmonias vocais muito bonitas, além de uma performance irretocável de Rafael Bittecourt no vocal principal. Sinceramente, uma das mais belas canções da carreira do Angra.
O saldo final de "Secret Garden" é o renascimento de uma banda mantida através de um núcleo fortíssimo – Kiko, Rafael e Felipe – e que encontrou novos alicerces em Lione e Valverde. Um novo começo que assentou o caminho e arrumou a casa para seu sucessor, "Ømni", construindo uma dupla de álbuns que recolocou o Angra entre os principais nomes do power e prog metal em todo o mundo.
O destaque final vai para a bela edição em digipack lançada no Brasil, onde a arte desenvolvida por Rodrigo Bastos Didier ganha ainda mais destaque.
Um disco muito consistente, onde os mistérios e sussurros do jardim secreto do Angra foram deixados de lado e a banda investiu nas sementes do seu futuro. Uma decisão mais do que acertada, e que segue rendendo frutos até hoje.
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