Guns N' Roses: Resenha de "Chinese Democracy" na Rolling Stone
Resenha - Chinese Democracy - Guns N' Roses
Por Gregory e Rafael Tavares
Postado em 11 de novembro de 2008
David Fricke, da Rolling Stone norte-americana, assinou uma resenha do novo trabalho do GUNS N' ROSES, "Chinese Democracy", cuja tradução segue abaixo (adaptado de textos publicados no GunnersBrasil.com e no Perfect Crime, este último traduzido por Bruno Do Amaral aka Voodoochild):
Avaliação: 4/5
Vamos direto ao assunto: o primeiro álbum de músicas novas e originais do GUNS N' ROSES desde a primeira admnistração de um Bush é um disco de hard-rock ótimo, audacioso, atordoante e descompromissado. Em outras palavras, soa muito parecido com o GUNS N' ROSES que você conhece. Às vezes, é o quinteto de punho cerrado que fez uma tempestade perfeita em 1987 no "Appetite For Destruction"; mais comumente é o destrinchado pelos CDs maximizados de 1991, "Use Your Illusion" I e II, mas aqui é comprimido em um único disco convulsivo de guitarras super-fritadoras, fanfarras orquestrais, eletrônica hip-hop, um coro de tabernáculo metálico e Axl Rose cantando ainda viril como uma sirene enferrujada.
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Se Rose alguma vez teve um momento de dúvida sobre o que "Chinese Democracy" lhe custou em tempo (13 anos), dinheiro (14 estúdios estão listados nos créditos) e contagem de corpos - incluindo a saída de cada membro fundador da banda - ele não deixou espaço para isso nessas 14 músicas. "Eu aposto que você está pensando que estou fazendo tudo isso pela minha saúde", diz Rose entre as guitarras bombeando saturação em "I.R.S.", uma das várias referências no álbum sobre o que ele sabe que as pessoas pensam dele: esse Rose, agora com 46 anos, passou o último terço de sua vida saindo dos trilhos. Mas quando ele diz, "Tudo é possível / Ninguém consegue me deter" não se trata de mera estupidez, mas apenas um bom e velho "vai se foder" típico do rock & roll, algo que fez a fama dele e de sua banda.
Outra coisa que Axl transmite em "Chinese Democracy" é que "limitações são para idiotas". Há muita força de guitarra na frase que abre a primeira faixa, "Chinese Democracy", no fuzz-infernal-arenoso de "Rhiad And The Bedouins" e tudo muda em "Street of Dreams", uma música cheia de angústia. Mas o que Slash e Izzy Stradlin costumavam fazer com duas guitarras, agora leva uma parede delas. Em uma das faixas, Rose tem cinco caras - Robin Finck, Buckethead, Paul Tobias, Ron "Bumblefoot" Thal e Richard Foruts, fazendo riffs e solos. E não é brincadeira. Eu ainda acho que a selvagem e superestufada "Oh My God" - uma antiga música do "Chinese Democracy" usada para a trilha sonora do filme de 1999, "Fim dos Dias", supera qualquer coisa no álbum de covers de 1993, "The Spaghetti Incident?"
Muitas dessas músicas têm múltiplas personalidades, como se Rose continuasse tentando se aproximar de uma ponte e decidisse, "Mas que diabos, elas são todas boas". "Better" começa com o que soa como uma mensagem de voz hip-hop - uma guitarra severamente distorcida, bateria eletrônica e um Rose perto do falsete ("No one ever told me when/ I was alone/ They just thought I'd know better") - antes de entrar na pegada Sunset Strip. "If The World" traz Buckethead tocando um violão sobre uma base estilo de filmes, enquanto Rose mostra que ainda segura um bom volume e boa respiração - parte vítima de tortura, parte jato gritante - como nenhum outro cantor de rock.
E tem muito acontecendo em "There Was A Time" - cordas e Mellotron, um forte coro, os overdubs melódicos da voz de Rose, guitarras com wah-wah e um final falso (mais coro) - é fácil de acreditar que Rose passou a maior parte da década passada trabalhando sozinho nesse arranjo. Nunca chega a ser uma bagunça, é mais como uma mistura barulhenta de más memórias e lições difíceis. Nas primeiras linhas, Rose volta a um início como o seu - "Vidros quebrados e cigarros/ Escritas na parede/ Era a barganha no verão/ E eu achava que eu tinha tudo" - então entram pilhas de coisas com a orquestra e as guitarras. No final, há uma grande mistura de ter ou não saudade ("Se eu pudesse voltar no tempo... Mas eu não quero saber disso agora"). Se esse é o GUNS N' ROSES que Rose andava ouvindo na sua cabeça durante todo esse tempo, é óbvio o porquê das duas guitarras, baixo e bateria nunca seriam o suficiente.
Seria estranho se ele pensasse que o GUNS N' ROSES é uma banda como a que gravou "Welcome To The Jungle" e "Sweet Child O'Mine", "Used To Love Her" e "Civil War". Os volumosos créditos que vem com "Chinese Democracy" certamente mostram o motivo. Meu favorito: "Sugestões de arranjo iniciais: Youth em 'Madagascar'". Rose pega a grande fatia - "Letras e Melodias por Axl Rose" - mas compartilha linhas inteiras de música com outros músicos em todas as faixas menos uma. O baixista Tommy Stinson toca em quase todas as músicas e o tecladista Dizzy Reed, o único sobrevivente da formação dos 'Illusions', faz as honras de um piano ao estilo Elton John em "Street of Dreams".
Mas Rose ainda canta bastante sobre o poder, e entra numa briga ainda maior, como a "Democracia Chinesa". Em "Madagascar", que Rose tocou ao vivo por alguns anos, ele coloca trechos do discurso do Dr. Martin Luther King, "I Have A Dream", e diálogos do filme "Cool Hand Luke". No final do álbum, na intitulada "Prostitute", Rose passa de um tenor quase que conversando para uma bomba prestes a explodir, para uma barreira de cinco guitarras, orquestrações e um rugido: "Pergunte a si mesmo/ Por que eu escolheria/ Me prostituir/ Para viver com fortuna e vergonha". Para ele, a longa marcha até "Chinese Democracy" não foi de paranóia e controle. Foi de dizer "não vou" quando todos diziam "você deve". Você poderá debater qual outro disco de rock é tão extremo e auto-indulgente. Na verdade, a coisa mais rock & roll que existe em "Chinese Democracy" é que ele não está nem aí se você pensa nisso.
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