Willa: Ano começando bem para o blues
Resenha - Better Days - Willa
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 24 de fevereiro de 2017
Mesmo nessa era de propalado excesso de informação, não é fácil achar sobre Willa na internet. Há mais de duas décadas na ativa, a cantora e compositora vem construindo leal base de fãs com sua banda, especialmente no estado de Nova York. Seu ecletismo, que passeia por blues, funk, soul, R’n’B e pitadas de pop, não toca em rádios comerciais, porque todos esses elementos vem sob forma old school. Não tem misturança com electronica ou dancehall (nada contra), não tem manipulação de voz mediante autotune. É tudo orgânico, bem cantado e tocado. E independente.
Mas, se você quiser desfrutar de doze canções impecáveis, tente ouvir Better Days, lançado dia 01 de janeiro. Capaz de agradar a fãs de diversos prismas do espectro da rica música negra estadunidense, o álbum mostra cantora de voz preci(o)sa, que tem caixa torácica para muito, mas jamais cai no berreiro per se e cujo ecletismo não se perde em diluição, porque seu escopo restringe-se a certas áreas vintage da black music.
O LP abre jogando pesado, com o R’n’B contagiante e visceral de Love Looks Good On Me, em que Willa mostra que tem muito para gritar, mas usa apenas o necessário. A guitarra safada blues apimenta a canção ainda mais. No final, a transformação em agitado gospel. Mas não pense que Willa vira irmã carola. Pelo contrário. Tudo vem incendiado por saxofone muito profano e o vocal é puro fogo de inferninho.
Exceto pelo purismo super Delta do Mississippi de violão de corda de aço chorado à mártir negro do blues da concluinte Demons, Better Days mistura e até popifica o blues, acessibilizando-o para sensibilidades mais pop/rock ou ecléticas. Sem perder a qualidade, afinal, purismo é coisa do passado em nosso mundo pós-tudo.
Stop, Drop and Roll tem pegada funk que a deixa sexy à bermudinha jeans desfiada e top de oncinha. Hooked On You desliza saxofonicamente por setores do soul anos 60 e Look What You’ve Done tem riff super Imagination (illusion, illusion...) e climão Tina Turner, 1985. Hey Little Sister é daquela família de blues-rock que o Eurythmics nos ensinou a gostar nos anos 80, com I Need a Man e Crazy Man é guitarrado como Clapton nos acostumou. Opposite Of Lonely tem chiquérrimo sopro jazz e Willa mostra que se sai magistral nesse gênero também. Caroline resvala para certo folk com vocais emocionantes e emocionados.
Se formos esperar pela grande mídia divulgar esses Melhores Dias, eles jamais virão. Vá em busca de Better Days e desfrute de um senhor álbum.
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