O álbum que explodiu e prejudicou carreira de Regis Tadeu na bateria, segundo o próprio
Por Gustavo Maiato
Postado em 02 de março de 2026
A explosão do rock brasileiro nos anos 80 costuma ser lembrada como uma era dourada. Gravadoras apostando em novos nomes, rádios abrindo espaço para guitarras e uma juventude sedenta por identidade própria ajudaram a consolidar uma geração. Mas, como quase todo boom de mercado, o crescimento acelerado também deixou histórias paralelas - algumas menos celebradas - pelo caminho.
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Em entrevista a Gustavo Maiato, do Whiplash.Net, Regis Tadeu relembrou como esse momento afetou diretamente sua trajetória como baterista do Muzak. A banda fazia parte da cena underground paulistana da primeira metade dos anos 80, um ambiente que reunia nomes como Ira!, Voluntários da Pátria e Inocentes. "Todo mundo se encontrava à noite, havia diálogo. Não tinha essa rivalidade que você vê hoje", afirmou.
O Musak chegou a gravar um EP pela EMI, dentro de um pacote de apostas da gravadora. Entre os lançamentos daquela leva estava "Concreto Já Rachou", da Plebe Rude. O disco rapidamente ganhou projeção nacional, com faixas que capturavam o clima político e urbano do período, misturando crítica social direta e energia punk acessível ao grande público.
Regis Tadeu e Musak
Foi nesse ponto que, segundo Regis, a engrenagem da indústria começou a girar de forma desigual. "Como o EP do Plebe Rude fez um sucesso muito grande, a gravadora optou por privilegiar a Plebe Rude. E as outras bandas acabaram meio que ficando num limbo ali dentro da gravadora", declarou. A fala é direta e sem rodeios: o sucesso de um projeto redirecionou investimentos, divulgação e prioridade.
Musicalmente, o Musak seguia outro caminho. Influenciado por bandas como Gang of Four, Killing Joke e The Smiths, o grupo apostava numa sonoridade pós-punk com lirismo marcante. "A intenção nossa é sempre digerir essa influência pós-punk de uma maneira que não seja um pastiche", explicou Regis. "É realmente o tipo de som que a gente gosta." O resultado era uma mistura de agressividade rítmica, guitarras angulares e letras com teor poético - menos panfletárias e mais reflexivas.
Um exemplo citado na entrevista foi "Ilha Urbana", faixa que aborda solidão e alienação nas grandes cidades. Para Regis, o tema permanece atual. "Não tenho dúvida que é atual. Mesmo com toda essa pseudosocialização das redes sociais, as pessoas continuam muito sozinhas." A música sintetiza bem a proposta da banda: crítica social com linguagem menos óbvia, apoiada em climas densos e bateria pulsante.
Na prática, porém, a consolidação comercial do rock nacional favoreceu quem dialogava melhor com rádio e televisão. "A gente cresceu bastante naquela época", reconheceu Regis, lembrando que o lançamento pela EMI representava uma chance concreta. Mas a balança do mercado pesou para quem tinha maior retorno imediato. E, quando um produto estoura, a indústria tende a concentrar forças.
O baterista também reforçou que o Musak nunca moldou seu som para se encaixar em tendências. "O som do Muzak é esse, que as pessoas gostem ou não." Essa postura ajudou a preservar a identidade artística, mas pode ter limitado o alcance num momento em que a exposição midiática era determinante.
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