Rolling Stones: "Blue & Lonesome" é autêntico, sujo e nostálgico
Resenha - Blue & Lonesome - Rolling Stones
Por Jeferson Oliveira
Postado em 02 de fevereiro de 2017
Em 54 anos de banda, os Rolling Stones já experimentaram (musicalmente falando) tudo. Foram do Psicodélico ao rock raiz. Do Blues ao rock mais selvagem. Do Glam, Punk à Disc Music. E também entraram de cabeça no mundo da New Wave. É uma banda eclética. Jagger e CIA são influenciados pelos cantores de Blues Norte-Americanos -- o nome da banda foi inspirado por um blues chamado "Rollin' Stone", composto por Muddy Waters. No início da banda, os rapazes começaram tocando Blues, mas logo se transformaram em uma banda de rock n' roll que, ao longo dos anos tocaram quase tudo, mas a essência do rock sempre esteve no som da banda. O fato curioso é que, depois que pararam de tocar o legítimo Blues, os Rolling Stones nunca lançaram um álbum do gênero. A banda tem um currículo invejável. Já tocaram em diversos lugares ao redor do mundo, lotando estádios e atraindo fãs aonde passa. Já gravaram álbuns de diferentes estilos musicais, venderam milhões de cópias de discos, mas nunca lançaram se quer um álbum de Blues. Faltava algo para os Stones. Sim, estava faltando um álbum de Blues até que, em Dezembro de 2015, a banda entrou no British Grove Studios de Mark Knopfler, em Londres, perto de Richmond e Eel Pie Island, dois lugares que marcaram o início da carreira da banda. O espírito do Blues estava no ar e em uma pausa das gravações de novas músicas, Keith Richards resolveu trabalhar em um cover de "Blue & Lonesome" de Little Walter, Ronnie Wood entrou na onda e em seguida Mick Jagger e Charlie Watts já estavam na mesma sintonia de Richards e Wood, uma música levava à outra, até que a conversa ficasse mais séria e o Blues tomasse conta das sessões. Mick Jagger voltou para casa e escolheu alguns de seus números favoritos e principalmente, os mais obscuros.
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Em Abril de 2016, Ronnie Wood revelou que a banda havia gravado o álbum:
"Nós voltamos ao estúdio para gravar umas músicas novas, e depois entramos em uma onda blues. Gravamos 11 blues em dois dias. São versões extremamente ótimas de Howlin' Wolf e Little Walter, entre outras pessoas do Blues. Mas elas realmente soam autênticas. Quando voltamos a ouví-las depois de não termos escutado por alguns meses, ficamos perguntando: 'Quem está tocando? É você?' Soa tão autentico."
O álbum foi produzido por Don Was e pelos The Glimmer Twins e foi gravado em apenas três dias. Faz 11 anos que os Rolling Stones lançaram um álbum de estúdio -- o aclamado "A Bigger Bang" -- mas eles retornaram em grande estilo com "Blue & Lonesome" – um disco extraordinário, gravado em três dias, que os reconecta com seu primeiro amor: o blues de Chicago. O álbum foi lançado em 02 de Dezembro de 2016.
O álbum foi feito com base, especialmente, em clássicos do Chicago blues. Little Walter e Howlin' Wolf foram os mais homenageados, com quatro e duas canções no tracklist, respectivamente.
"Just Your Fool" abre o álbum com uma gaita bem divertida -- Jagger é um excelente gaitista. A primeira faixa é empolgante. Charlie Watts executa muito bem a bateria -- linha do instrumento é totalmente Blues. Keith, Wood e Darryl Jones mantém a sintonia da música.
Em "Commit A Crime", o destaque vai para a harmonia da banda. No segundo tema, os Stones mostram um talento nato para tocar Blues. Keith e Wood revesam-se entre os solos e a base. Charlie e Darryl seguram a bronca na cozinha. Mick está inspirado -- que vocal!
Na faixa título, "Blue and Lonesome", o instrumental é mais arrastado. A terceira faixa tem um nome: Mick Jagger! Que linda interpretação. E como de praxe, o vocalista ainda dá uma aula de gaita.
"Eu só queria fazer o solo de gaita corretamente, eu devo ter aprendido isso com Brian". -- Mick Jagger
O álbum segue com "All Of Your Love". A quarta faixa mostra uma banda totalmente segura de si. Todos tocando MUITO bem. E Mick Jagger arrasando (novamente) nos vocais. Aqui ele está perfeito. Arrisco dizer que, é o melhor momento do frontman neste novo trabalho da banda.
A quinta faixa é "I Gotta Go". Música energética! Tem um início explosivo com Mick na gaita. O tema é aquele típico Blues com rock n' roll. Charlie está executando uma linha de bateria um pouco mais rápida. Wood e Keith (como sempre) brilhantemente nas guitarras. E também, percebe-se que, Darryl Jones (que é muito esquecido) faz um belíssimo trabalho em seu instrumento.
Chegamos no grande momento do álbum. A sexta faixa "Everybody Knows About My Good Thing" tem a participação especial do lendário Eric Clapton. 'God' faz um slide guitar impressionante. A música é repleta de (ótimos) solos de guitarra. Vale destacar também a linda linha de bateria arrastada -- sem frescura! Charlie Watts está impecável no novo trabalho.
A sétima faixa é animada "Ride 'Em On Down". A música que foi escolhida como o segundo single de "Blue & Lonesome", tem uma característica bem notável: harmonia! Ronnie e Keith parecem estar tocando em uma 'Jam', -- a guitarra soa tão natural. E Mick mais uma vez provando que, é o grande nome da banda.
E o álbum chega na oitava faixa, "Hate To See You Go". Logo no início, percebe-se a lindíssima gaita de Jagger e a banda acompanhando -- tudo em sintonia.
Em "Hoo Doo Blues" as guitarras voltam com tudo! A nona faixa é lenta, não tanto como a próxima, mas é. O grande destaque, é claro, vai para a dupla de guitarras: Wood e Keith -- a sonoridade mais espontânea possível.
A décima faixa, "Little Rain", é lenta. Cativante. O início é guiado apenas por guitarra e voz -- perfeito! Jagger (mais uma vez) se destaca no final da canção -- solo de gaita incrível.
A penúltima música, "Just Like I Treat You", tem uma pegada Blues/Rockabilly -- um soco na cara!
A última faixa, "I Can't Quit You Baby", traz novamente a participação do lendário guitarrista Eric Clapton. Keith e Wood estão bem entrosados com Clapton -- ótimos solos de guitarra. A nostalgia do passado se torna presente. Mick interpreta muito bem. Charlie faz seu papel, -- muito bem, diga-se de passagem. Darryl segura a cozinha. E os Rolling Stones encerram o álbum em grande estilo.
Enfim, a origem dos Rolling Stones em 42 minutos. "Blue & Lonesome" era o que faltava para a banda. E os fãs aprovaram. O álbum estreou em 1º lugar no Reino Unido e em 4° lugar nos Estados Unidos.
Com o tamanho do sucesso do álbum "Blue & Lonesome", os Rolling Stones renovaram seu recorde na Billboard 200. Este foi o 37º álbum da banda a entrar para o Top 10 do ranking.
Os Rolling Stones sem querer voltaram para o ponto de partida do começo da carreira. O novo registro soa como se fosse uma linda viagem no tempo, sem chances de retorno, figurativamente falando. O álbum "Blue & Lonesome" é autêntico, sujo e nostálgico. É Stones! É Blues!
Os Rolling Stones:
Mick Jagger (vocais & gaita)
Keith Richards (guitarra)
Charlie Watts (bateria)
Ronnie Wood (guitarra)
Músicos de apoio:
Darryl Jones (baixo)
Chuck Leavell (teclados)
Matt Clifford (teclados)
Convidados:
Eric Clapton (guitarra)
-
Setlist:
1. Just Your Fool (Originalmente escrita por Buddy Johnson e adaptada em 1960 por Little Walter)
2. Commit a Crime (Originalmente escrita e gravada em 1966 por Howlin’ Wolf – Chester Burnett)
3. Blue and Lonesome (Originalmente escrita e gravada em 1959 por Little Walter)
4. All of Your Love (Originalmente escrita e gravada em 1967 por Magic Sam – Samuel Maghett)
5. I Gotta Go (Originalmente escrita e gravada em 1955 por Little Walter)
6. Everybody Knows About My Good Thing (Originalmente escrita e gravada em 1971 por Little Johnny Taylor, composta por Miles Grayson & Lermon Horton)
7. Ride ‘Em On Down (Originalmente escrita e gravada em 1955 por Eddie Taylor)
8. Hate to See You Go (Originalmente escrita e gravada em 1955 por Little Walter)
9. Hoo Doo Blues (Originalmente escrita e gravada em 1958 por Otis Hicks & Jerry West)
10. Little Rain (Originalmente escrita e gravada em 1957 por Jimmy Reed, composição de Ewart.G.Abner Jr. e Jimmy Reed)
11. Just Like I Treat You (Originalmente escrita por Willie Dixon e gravada por Howlin’ Wolf em 1961)
12. I Can’t Quit You Baby (Originalmente escrita por Willie Dixon e gravada por Otis Rush em 1956)
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