Yes: Levantando novo voo em 2011
Resenha - Fly From Here - Yes
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 16 de março de 2015
Nota: 8 ![]()
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Um dos alvos favoritos das escarradas punk no estouro de 1977 era o progressivo YES. Fundada na segunda metade dos anos 60, em Londres, a banda é um dos epítomes do "excesso" odiado pelos punks. Canções intrincadas, bombásticas, quilométricas e misticóides. Shows com pirotecnia a rodo.
O grupo produziu obras-primas do prog sinfônico. Ama-se ou odeia-se, mas não se fica indiferente a álbuns como Close to the Edge (1972). Em 1974, a crítica começou a malhar o YES, por conta do lançamento do ambicioso Tales From Topographic Ocean. Quando o movimento punk arrombou a festa, o YES era alvo fácil para se atacar a autoindulgência e "elitismo".
Os egos dos integrantes sempre foram tão grandiloquentes quanto sua sonoridade. O estrelismo, as tensões e divergências criativas são tamanhas que fica difícil acompanhar as variadas formações. É um tal de entra, sai, volta, briga, sai de novo e retorna ao longo dessas mais de 4 décadas...
O conceito de YES "de verdade" varia com a facção à qual pertence o fã. Sou da ala que crê na presença do vocalista Jon Anderson. Se Rick Wakeman estiver na formação, melhor, mas Jon é a primeira coisa que espero dum álbum do YES. A voz inconfundível igualmente desperta paixões e ódios. Um crítico inimigo definiu que Anderson canta como uma alface no cio.
Em uma das desavenças, o vocalista abandonou o YES e em 1980, a banda lançou Drama, com Geoffrey Downes nos vocais e Trevor Horn nos teclados, no lugar do também exilado Wakeman. Downes e Horn integravam o BUGGLES, banda new wave/synth pop, cujo lugar na história está garantido porque sua deliciosa Video Killed the Radio Star foi o vídeo de estreia da MTV. Essa formação do YES não agradou aos fãs e Anderson voltou pouco depois, pra versão reinventada, que gerou um dos maiores sucessos da década de 80, a canção Owner of a Lonely Heart. O álbum que a contém – 90125 (1983) – foi o último grande sucesso arrasa-quarteirão do grupo, produzido por Horn, diga-se. Depois disso, o YES seguiu lançando álbuns com alcance cada vez mais modesto.
No fatídico 11 de setembro de 2001, os caras estavam em Nova York pra lançar Magnification. Desde então, nada de novo no front. Em 2008, Jon Anderson teve problemas respiratórios e os outros membros tomaram uma atitude típica frente à recomendação médica de 6 meses de repouso pro vocalista: cartão vermelho pro baixinho.
Pro seu lugar, contrataram David Benoit, líder duma banda-tributo canadense chamada Close to the Edge. Rick Wakeman saiu de novo também. A formação passou a ser: Steve Howe (guitarra), Chris Squire (baixo), Alan White (bateria), pros teclados voltou Geoffrey Downes. Em 2010, anunciaram álbum novo, produzido por Trevor Horn. O YES voltava pra 1980. Fly From Here, lançado em 2011, soa como se gravado em 1981; mistura de YES com BUGGLES.
A ausência de Wakeman implica na falta da tapeçaria tecladística. Benoit não tenta (muito) imitar Anderson, mas seu vocal está a anos-luz do Napoleão - apelido colocado pelos colegas de banda por Jon ser baixinho e mandão. A mixagem das vozes, a integração com outras e a participação de outros membros cantando, driblam um pouco essa falta de personalidade, mas o fantasma de Jon Anderson assombra Fly From Here.
O álbum traz Squire e Howe sempre exímios em seus instrumentos, algumas vezes remetendo aos áureos tempos setentistas. Os sessentões tocam com garra e frescor invejáveis. Velhos fãs não terão como não amar certas firulas, determinadas passagens, timbres e maneirismos familiares e, claro, associá-los com canções anteriores.
A faixa-título é uma suíte de 25 minutos dividida em 6 partes, que poderiam ser ouvidas independentemente. Uma espécie de medley ou cartilha Trevor Horn, com influências de YES. Alguns trechos existiam sob forma de demo desde a época de Drama; isso explica muito. A faixa cresce a cada audição, embora esteja longe dos voos de uma Gates of Delirium e seus alucinantes 22 minutos. A maturidade podou alguns excessos na instrumentação, mas será que nós fãs não amamos YES precisamente pelo hiperbolismo? De qualquer modo, uma adição louvável ao repertório do grupo.
The Man You Always Wanted Me to Be é o que se chamava faceless nos anos 80. Dispensável. Life On a Film Set também existe em forma embrionária desse os anos 80, e soa como uma canção do BUGGLES aos poucos metamorfoseando-se em prog. A bateria lembra o peso de Drama. Hour of Need e Solitude são para mostrar a perícia de Steve Howe no dedilhado. Into the Storm é maravilhosa! Puro YES safra anos 70, com harmonias vocais talhadas pra gente não sentir muita falta de Jon Anderson (embora eu não deixe de imaginar como certos trechos seriam com seus vocais. Imagine o "take me awaaay" com ele!). Em quase 7 minutos, andamentos e maneirismos obsessivos que qualquer fã identificará com a fase melhor do grupo. Parece uma banda de jovens descobrindo o prog agora, cheia de energia. Chave de ouro pro álbum.
Com o movimento prog longe de estar morto, Fly From Here mostra para as novas gerações o que o YES ainda é capaz de fazer.
Tracklist
1. "Fly From Here - Overture" - 1:53
2. "Fly From Here - Pt I - We Can Fly" - 6:00
3. "Fly From Here - Pt II - Sad Night at the Airfield" - 6:41
4. "Fly From Here - Pt III - Madman at the Screens" - 5:16
5. "Fly From Here - Pt IV - Bumpy Ride" - 2:15
6. "Fly From Here - Pt V - We Can Fly (reprise)" - 1:44
7. "The Man You Always Wanted Me to Be" - 5:07
8. "Life on a Film Set" - 5:01
9. "Hour of Need" - 3:07
10. "Solitaire" - 3:30
11. "Into the Storm" - 6:54
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