Anno Zero: Indo contra marés de mercado
Resenha - Next Level - Anno Zero
Por Fabio Pitombeira
Postado em 27 de setembro de 2014
Segundo disco é um troço difícil de parir. O primeiro tem até nome bonito, "Full Length", e é perdoado de um deslize aqui e outro acolá. O segundo é pra fincar bandeira, marcar território, mostrar que você veio pra ficar. O impacto da sua chegada é tão temido que os engravatados da agora zumbi e semi putrefata indústria do disco até inventaram técnicas de amortizar sua ameça iminente, intercalando DVDs entre o primeiro e o segundo disco do artista. O segundo rebento, o redentor ou o exterminador, continua com sua sombra nas carreiras de milhares de bandas.
Muita coisa aconteceu com a Anno Zero entre "Another Pleasant Evening", de 2004, até junho de 2013 quando a banda começou a finalmente lançar "teasers" e voltar a fazer shows já incluindo músicas de "The Next Level". Primeira delas é que o baixista Ed Zee foi e depois voltou, num hiato de quase dois anos. Muito pouco ou nada foi gestado na passagem de seus substitutos, fora o fato de manter a agenda de shows da banda na época funcionando. Ao mesmo tempo a banda se cercou da estrutura e tecnologia necessárias, materializadas no estúdio Jardim Elétrico, do guitarrista André Melo, pra começar realmente a "gestar", por assim dizer, "The Next Level", já com Zee de volta e contribuindo efetivamente.
Daí pra frente foram ajustes e a burocracia bem conhecida pelos que tem de trabalhar com incentivos culturais. Mas se por um lado um problema técnico ou uma nova leva de "overdubs" apareciam como pedras no caminho, outras portas se abriam, na forma da oportunidade de masterizar o novo rebento na Europa, em um estúdio com currículo de várias referências no mesmo gênero da banda. Quando finalmente "The Next Level" começou a dar seu ar da graça aos ouvidos externos, percebeu-se que não houve demora que não trouxesse amadurecimento.
Em junho de 2013, exato um ano atrás, um promo vídeo de "Infected" foi lançado pela banda nas redes sociais, que ainda davam seus tímidos primeiros passos na época da divulgação de "Another Pleasant Evening". Apesar de não conter letras e nem adiantar a parte gráfica do disco, o vídeo de "Infected" serviu pra jogar os seguidores da AZ, literalmente, no próximo nível proposto pela banda. Uma atmosfera de peso, plasticidade e modernidade de produção começava a se descortinar.
Em retrospecto, a Anno Zero sempre foi uma banda que soube usar bem as cartas que teve em seu poder. Desde a primeira hora teve uma identidade, visual e sonora, marcante, sem experimentalismos exagerados e sem invencionices. Com esses trunfos pode trazer para perto de si, de primeira hora, vários admiradores. A preocupação em manter essa identidade visual foi preservada ao longo do tempo, fosse em imagens de divulgação, fosse ao vivo ou na fotografia de vídeos. Uma carga de dramaticidade e plástica cênica também foi acoplada desde muito cedo ao som da banda, com atmosferas tensas, métricas casadas com harmonias instrumentais que propiciam ao ouvinte a sensação de mais pura interação, nos moldes do "arena rock" (mesmo carregado dos clichês que a expressão possa englobar, afinal, pela enésima vez, rock é clichê).
"The Next Level" chega agora por inteiro aos ouvintes, no seu tempo certo, até porque nem sempre é o trabalho que precisa "curtir", e sim as cabeças, muitas vezes, é que precisam estar prontas pra deixá-lo entrar. Antes das faixas propriamente ditas, as belas fotografias de Regis Falcão, com direção artística da própria banda, continuam abalizando a identidade visual como artífice importante dentro do trabalho como um todo.
A vinheta "Infected" abre o disco, com elementos eletrônicos e um dedilhado que vão criando o clima para "Back Down", faixa com traços bem marcantes da estrutura harmônica do AZ: um "tema" tocado por sobre a melodia da guitarra base e uma cozinha sólida e de fôlego, reta e sem arestas, aliada de perto por um "loop" de bateria que aparece de quando em vez, dando aquele "algo mais". Uma faixa marca registrada da banda pra começar com excelência. O disco segue com "Deceptions", explorando caminhos já trilhados: a alternância entre vocais limpos e guturais, acrescidos de um dueto com voz feminina; tentado anteriormente com sucesso, volta a emplacar. Vale registrar também a presença de um violão, que a despeito de amortizar o peso da faixa, realça a melodia e dá todo um clima.
A faixa-título tem riff grooveado e uma base quebrada, com clima menos "dark" e mais apropriada pro "bate cabeça" clássico. O refrão também é propício a ser cantado a plenos pulmões nos shows. Promete. "Poison Mind" traz de volta a atmosfera do primeiro disco , e alguns trechos dela poderão ser lembrados pelos mais atentos como música de fundo dos vídeos de ‘making of’ que a banda andou divulgando. Novamente aqui aparecem os vocais femininos e também se percebe a tendência em cantar menos gutural e seguir linhas melódicas de voz mais claras e definidas.
"Another Pleasant Evening", título do primeiro disco, reaparece aqui batizando a "balada" do disco. Climática e com um trabalho de vozes e piano, com certeza, uma das grandes surpresas desse trabalho. Os antenados encontraram uma citação (reverência?) ao disco "The Dark Side Of The Moon" nesta faixa, basta uma ouvida com atenção. Outra que retorno é de "Public Video Survaillence",aqui acrescida da parte "II", timbres que remetem ao Metallica do "Black Album", mas com aquele charme Discharge de cantar gritado. Aos radicais, a faixa revisita um momento cheio de brasilidade da banda, que no primeiro álbum atraiu a ira dos mais xiitas.
A tecladeira e a cozinha da faixa "Pictures" transportaram meus ouvidos, cansados e já bem gastos, a "Angeldust", disco divisor de águas dos californianos do Faith No More. Um baixo mais funky e um vocal com efeitos na marca dos 4:00 só aumentaram essa sensação, mas talvez as duas bandas só tenham tido mesmo a intenção de jogar o ouvinte num turbilhão de referências cruzadas, tipo "explicando pra confundir". Tire a prova ouvindo. "Cold" fecha o disco com típica levada "goth metal", deixando você com vontade de pular pro terceiro nível, mas por enquanto você se contenta em apelar pro "repeat".
Com esse lançamento, o Anno Zero continua sua saga e marca mais um tento no ano que agendou grandes lançamentos pra música Rock piauiense, indo contra marés de mercado, modas cover, e os que se protegem dentro da "bolha de conforto" do não-existir. Bandas como AZ continuam dando a cara à tapa, continuam saindo na chuva, sem guarda, pra se molhar. Cego é apenas aquele que não quer ver, e surdo apenas quem não quer ouvir.
Resenha publicada originalmente no Full Rock e de autoria de Fernando CB.
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