Anathema: Uma aula de destemida curiosidade sonora
Resenha - Distant Satellites - Anathema
Por Angélica Amâncio
Postado em 04 de junho de 2014
Nota: 10 ![]()
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Não é de hoje que o ANATHEMA decidiu trocar os subterrâneos do doom metal por uma pegada, digamos, mais "celestial". Não é que a banda tenha se voltado para o white e esteja compondo músicas cristãs, mas o que comprovam os títulos dos últimos álbuns e de muitas de suas canções, como "Thin air" e "Summerlight horizon", do "We´re here because we´re here" (2010), "The storm before the calm" e "The gathering of the clouds", do "Weather Systems" (2012), é que o céu tem sido recorrente na pauta de interesses desses ingleses de Liverpool.
Diferentemente, entretanto, da apoteose quase religiosa dos agudos de LEE DOUGLAS em "The lightning song", do disco anterior, o "celeste" de "Distant Satellites" (2014) parece, de fato, referir-se a uma concepção mais astronômica, mais concreta, do céu. As letras ainda falam dos sussurros da brisa, de almas voadoras e espíritos refletindo-se por aí, mas sonoramente o álbum se afasta consideravelmente dos dois últimos. Produzido por CHRISTER-ANDER CEDERBERG – responsável também pela mixagem do trabalho anterior – e gravado na capital da Noruega, "Distant Satellites" tem uma atmosfera mais obscura.
Quase todas as canções estão em tom menor, há certa preferência por notas mais graves, mesmo nas atuações da vocalista feminina – como nas suaves "Ariel" e "The lost song – Part 2" – e o destaque é dado notavelmente à base, ou seja, ao baixo e, principalmente, à bateria. O ritmo sincopado está presente já na canção de abertura, a bela "The lost song – Part 1", e dá um tom mais agitado e dançante a faixas como "The lost song – Part 3", ápice da harmonia entre as vozes de LEE DOUGLAS e VINCENT CAVANAGH, bem-sucedido dueto, que, já fascinante em "Untouchable Part 2", de 2012, está sintomaticamente mais presente no disco atual. A batida eletrônica, que já dera as caras anteriormente, como na mencionada "The storm before the calm", perpassa livremente todo este novo álbum, remetendo, muitas vezes, àquela que tem sido confessadamente uma das maiores influências para o grupo nos últimos tempos, o RADIOHEAD, especialmente na faixa que dá título ao disco e na qual mesmo a linha melódica parece inspirada na voz de THOM YORKE.
E uma terceira voz se soma, de fato, ao trabalho: a de DANIEL CAVANAGH, que se faz ouvir na última faixa, "Take shelter" – a qual, ao lado da oitava, "Firelight", é a composição mais atmosférica da obra – e na interessante "You´re not alone". Esta, que tem início com acordes graves de piano, instrumento em evidência nesta obra, vai ganhando gradativamente andamento, até atingir o peso dinâmico do instrumental no fim. A estrutura é semelhante em "Anathema", sexta música da sequência, que tem, no entanto, ritmo mais arrastado do que "You´re not alone", e maior abertura para a guitarra do mais velhos dos irmãos CAVANAGH.
A intensa "Dusk" é, talvez, a que melhor exemplifique o que afirmou VINCENT, em entrevista publicada no Whiplash no último 01 de junho: segundo o vocalista, este teria sido o álbum mais improvisado da banda, em que a maturidade e o bom momento na vida pessoal dos integrantes teriam permitido que as canções fossem compostas com facilidade, como se elas se fizessem sozinhas e livremente. "Dusk", de execução intrincada, harmoniza de forma menos tradicional os vocais, e tem um subtítulo curioso entre parêntese: "dark is descending". É como se, no único título que remete diretamente ao céu ("Crepúsculo"), fosse preciso assinalar a escuridão que o acompanha, neste que é o álbum mais soturno do ANATHEMA nos últimos anos.
Os fãs sabem, no entanto, que isso não é um veredito. Como escreveu Dom Lawson, para o jornal britânico "The Guardian", "Distant Satellites" é uma aula de destemida curiosidade sonora. Em quase vinte e cinco anos de carreira, o ANATHEMA tem provado estar sempre pronto a se renovar, sem perder a consistência e a capacidade de compor algumas das mais belas canções sobre a Terra.
Resta torcer para que o grupo, depois da memorável turnê pelo Brasil no ano passado – após várias malogradas tentativas –, e da recente aparição de DANNY CAVANAGH, ao lado de ANNEKE VAN GIESBERGEN, volte a tocar em breve nos palcos tupiniquins e nos dê a honra de ouvir de perto esses "Distant Satellites".
TRACKLIST:
1. "The Lost Song, Part 1" - 5:53
2. "The Lost Song, Part 2" - 5:47
3. "Dusk (Dark Is Descending)" (D. Cavanagh, Vincent Cavanagh) - 5:59
4. "Ariel" - 6:28
5. "The Lost Song, Part 3" - 5:21
6. "Anathema" - 6:40
7. "You're Not Alone" (D. Cavanagh, Jamie Cavanagh, John Douglas) - 3:26
8. "Firelight" - 2:42
9. "Distant Satellites" (D. Cavanagh, Douglas) - 8:17
10. "Take Shelter" - 6:07
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