Grilo Dias: "A Velha Montanha", folk honesto do sul de MG
Resenha - A Velha Montanha - Grilo Dias
Por Bruno Pereira
Fonte: Blog Cultura de Pouso Alegre
Postado em 30 de outubro de 2013
"A Velha Montanha" é um trabalho independente de GRILO DIAS, músico folk do sul de Minas Gerais, lançado em 2011 e repleto de tranquilidade, honestidade e uma atmosfera que remete às primeiras gravações lo-fi de artistas como BECK e NICK DRAKE. A influência dos primeiros álbuns de BOB DYLAN também é notável, já que violões e gaitas são os instrumentos que conduzem o disco (apesar de ser enfeitado por eventuais teclados e guitarras elétricas sem distorção). Outra referência do estilo é o belíssimo álbum "Nebraska", do chefe BRUCE SPRINGSTEEN.
A faixa de abertura, que dá nome ao disco, traz uma sensação relaxante e já anuncia o que virá nas audições posteriores: um folk tranquilo, viajante, que nos faz imaginar as paisagens verdes e aconchegantes do sul de Minas, terra do cantor. A letra forte também já indica quais são seus objetivos, uma mistura de críticas sociais, delírios, sonhos e uma dose da cruel realidade do mundo, retratando cenas como o desmatamento e as guerras.
A 2ª faixa, "Esfinges no Tempo", volta a evidenciar o tema das guerras, trazendo uma bela mensagem de vida: que não devemos nos apegar às riquezas, pois não poderemos levá-la conosco pela eternidade, e sim ensinar lições que serão perpetuadas após nossa morte, tornando-se indestrutíveis como esfinges.
A 3ª canção, intitulada "Ventos de Outono", é uma bonita balada que fala sobre esperança, sonhos perdidos e o tempo, sobre como devemos lutar por nossos objetivos desde o início, pois o tempo não irá parar para nos esperar.
"Seguir em Frente", faixa 4, é um folk otimista e que ao mesmo tempo traz uma sensação de despedida, de pessoas que vão embora atrás de seus objetivos, abandonando entes queridos que não lhes apoiaram.
A próxima música, chamada "Cidade Simples", talvez tenha a letra mais crítica do álbum, possuindo um clima até mesmo anarquista. Foi escrita em parceria com o músico paranaense PAUL ERNEST, e fala sobre os problemas do mundo, a confusão em que tudo se encontra nos dias atuais, e que o futuro deveria ser como uma "cidade simples", uma sociedade onde os bens materiais não estariam em primeiro lugar. A guitarra elétrica faz sua primeira aparição no disco, fechando a música com um belo solo em dueto com a gaita.
A 6ª faixa, "As Luzes da Cidade", se concentra mais no instrumental do que no vocal, já que a letra é pequena e cantada entre vários arranjos de violão. A introdução de violão/gaita é um dos destaques da música, e os solos ao decorrer da mesma são tranquilos e precisos.
Uma introdução marcante é o destaque da faixa 7, "Temporal na Escuridão". Como o nome já diz, trovões poderosos e sons de chuva dão lugar a uma doce psicodelia de violões, teclados e gaita. A letra fala sobre as dualidades do mundo, como confiar em uma pessoa que futuramente irá te enganar. Outro destaque da canção são os solos de vocal em falsete.
Para encerrar o álbum, uma faixa épica de 11 minutos, chamada "O Som do Sol". A guitarra elétrica volta a ser utilizada na introdução e nos solos, e a letra retrata uma sociedade cheia de falhas, observada por uma personagem no alto de um prédio, em dúvida se pula de encontro à morte ou não. A letra foi adaptada de um poema escrito pela irmã do músico, Gabrielle Dias, e termina com uma melodia contagiante, solos de guitarra, vocais sobrepostos e, após o êxtase do encerramento, tudo volta ao início, com o riff da primeira faixa do álbum, "A Velha Montanha", sendo tocado em fade-out. Uma sensação de loop infinito, de algo que volta ao início e não se acaba.
"A Velha Montanha", apesar de ser um trabalho independente e de não possuir a qualidade de uma mega gravadora, merece certa atenção pela competência e sinceridade das canções. Um folk do estilo que se perdeu nos anos 60 e 70 e que fez o rock mudar naquelas décadas, tornando as letras tão importantes (ou mais) quanto o instrumental. Possui até mesmo uma "fragilidade" que acaba dando certo charme ao trabalho final. Pode agradar a alguns e não agradar a outros, mas possui todos os elementos necessários para algo que talvez se torne "cult".
Atualmente, GRILO DIAS encontra-se em fase de produção de seu segundo álbum, que deve ser lançado ainda em 2013.
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