"(Music From) The Elder", o álbum mais injustiçado do Kiss?

Resenha - (Music From) The Elder - Kiss

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Por Ronaldo Costa
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


O Kiss chegou aos últimos anos da década de 70 do jeito que sonhara e para o qual fora planejado: ser um super-grupo. A banda, que havia gravado seu primeiro disco em 1974, já contava com vários álbuns em sua discografia, alguns dos quais se tornaram clássicos do rock, como “Dressed to Kill”, “Destroyer”, “Rock´n´Roll Over” e “Love Gun”, isso sem falar nos dois álbuns ao vivo (“Alive” I e II) e nas coletâneas lançadas. O conceito do Kiss não era o de ser simplesmente mais uma banda de rock. Eles queriam fazer algo além de tudo o que já havia sido feito antes, inclusive em termos estéticos. A ‘Kissmania’ tomou conta dos EUA e já se expandia para Japão e Europa. Turnês que iam se tornando cada vez mais grandiosas, revistas em quadrinhos, filme, todo tipo de bugiganga com a logomarca da banda, enfim, aonde quer que se fosse, era possível encontrar algo que fizesse o sujeito se lembrar dos caras.
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Entretanto, nem a fama, o dinheiro e a legião de devotos que os seguia foi capaz de conter o descontentamento de alguns integrantes, sobretudo o desapontamento do batera Peter Criss e do guitarrista Ace Frehley. Na tentativa de acalmar as coisas, fica decidido que cada membro do grupo gravaria um álbum solo para que pudesse se expressar melhor artisticamente. Feito isso, o Kiss se reúne novamente e lança em 1979 “Dynasty”, um disco que se afasta um pouco do rock característico da banda e traz alguns elementos da ‘disco music’, tão em voga naquele período. Como poderia ser previsto, alguns fãs não engoliram aquele material novo, ainda que a popularidade do Kiss não tivesse sofrido tanto, sendo que, inclusive, a música “I Was Made For Loving You” alcançou o topo das paradas. Mas a banda não arredou o pé de sua tendência em investir num som mais comercial e em 1980 lança “Unmasked”. Ao que se sabe, Criss nem chegou a ir ao estúdio para as gravações desse álbum. Logo após seu lançamento, o grupo anuncia um novo baterista, Eric Carr, e parte para mais uma turnê. O problema é que a crítica, que já não demonstrava morrer de amores pelo Kiss, agora passava a criticar a banda duramente, dizendo inclusive que toda aquela parafernália de produção de palco, efeitos, maquiagem, roupas espalhafatosas e tudo o mais, na verdade tinha o objetivo de esconder a fragilidade de seus integrantes enquanto músicos. O resultado disso foi que a banda resolveu produzir um material que tivesse qualidade técnica, instrumental e lírica suficientes para calar seus detratores e provar ao mundo sua competência. Começava a se criar então aquele que deve ter sido o mais criticado, o que mais dividiu opiniões e, pra muita gente, o mais injustiçado disco da carreira da banda, o álbum “(Music From) The Elder”.

Bem, essas matérias sobre álbuns injustiçados sempre criaram polêmicas e, nesse caso, certamente a coisa não será diferente. Primeiro porque há aquela corrente que detesta qualquer coisa que venha do Kiss e que encontra o contraponto perfeito nos fãs de longa data do grupo, os quais estão entre os mais devotos que se conhece. Mas o problema é que “The Elder” tem críticos ferozes até mesmo dentre os mais fanáticos pela banda. E o pior é que não são poucos os fãs que não gostam dessa obra, alguns dos quais chegam ao ponto de nem reconhecer esse trabalho como Kiss. No entanto, vamos continuar essa conversa e tentar ver se esse disco é tão insosso mesmo ou se é mais um grande caso de injustiça para com um álbum.

Depois de ter que conviver com críticas cada vez mais duras e com a possibilidade de entrar em decadência, a banda vê que havia a necessidade de uma reação, de um disco realmente forte e que recolocasse as coisas no seu devido lugar. Para tanto, chamaram de volta o produtor Bob Ezrin, o mesmo de “Destroyer”, fato que não agradou muito a Ace Frehley. No entanto, mais divergências começavam a surgir na banda, pois Gene Simmons e Paul Stanley achavam que não adiantava fazer as mesmas canções que compuseram nos anos 70 e passaram a considerar a hipótese de gravarem um álbum conceitual, ao passo que Frehley, com o apoio do novo baterista Eric Carr, pensava que o correto era fazer um disco bem ‘rock’, como mandava a melhor tradição do Kiss. Ezrin, para o desgosto de Ace e Carr, influenciava cada vez mais no sentido de se produzir um álbum conceitual e passou a idealizar uma obra com essas características. Com a concordância de Gene e Paul, a banda começa a escrever o material para “The Elder”. As ambições para esse disco, assim como quase tudo no Kiss, eram imensas. Partindo de uma história imaginada por Gene, o álbum ia sendo criado com aspirações de ser a obra-prima da banda, um trabalho conceitual com influências e elementos progressivos. Dizia-se que o álbum consistiria numa trilha sonora para um pretenso filme que, de fato, jamais foi feito. Lou Reed, ex-Velvet Underground, participou como co-autor em algumas músicas. A banda vai ao Canadá para fazer o disco, enquanto o descontente Ace fica em sua casa e grava suas partes em seu estúdio particular.

Terminado o trabalho, a banda então coloca “The Elder” no mercado. Um álbum conceitual baseado na história da luta entre o bem e forças do mal, calcado na personagem central, que era uma criança inocente. Qual não foi o susto que os velhos fãs tomaram logo de cara. “Mas o que é isso?!?”, diriam os mais exaltados. “O Kiss tentando soar como uma banda progressiva?”. As diferenças já começavam a partir da capa. Não havia uma foto da banda, como de costume, apenas uma mão tocando uma porta. Posteriormente, soube-se que a mão era de Paul Stanley. Além disso, o próprio visual adotado pela banda passou a ser menos extravagante. Pela primeira vez, via-se os integrantes com cabelos cortados ou bem presos, além de roupas um pouco menos espalhafatosas, embora as máscaras continuassem lá. Bem, não seria isso que deixaria um fã do Kiss desapontado. A questão é que a estética musical de “The Elder” era absoluta e radicalmente diferente de qualquer coisa que o Kiss já tivesse lançado antes. Orquestrações clássicas como som ambiente ligando as canções, violinos, pianos, aquele definitivamente não era o Kiss que todo mundo estava acostumado a ver e ouvir.

Pois bem, vamos à questão principal. O que faz de algo bom ou ruim? Uma coisa é boa por si só ou só é boa se for melhor que algo feito antes? E mais, em termos de música, uma coisa só é boa se obedecer às características básicas que dão a identidade de uma banda ou há a possibilidade de um trabalho ser de qualidade ainda que fuja da sonoridade que caracteriza um artista? Essas são questões difíceis de se responder e que podem gerar respostas diferentes, pois cada caso é um caso. Bom, no caso de “(Music From) The Elder”, apesar de ter existido até uma certa simpatia da crítica para com o álbum, a resposta dada pela maioria dos fãs variou da indignação até ao total desprezo pela obra, afinal aquele não era o ‘verdadeiro’ Kiss. Foram poucos, bem poucos, os que deram valor àquele disco na época de seu lançamento. Mas, afinal, como ele é?

Realmente, pra quem estava acostumado com a sonoridade anterior do Kiss, ouvir “The Elder” era um susto, nem tanto no mau sentido, mas porque ninguém esperava aquele tipo de som. Sim, era o Kiss fazendo um som com um pé bem fincado no progressivo. Claro que não havia a complexidade de um Pink Floyd, seja em termos líricos ou instrumentais, mas percebe-se nitidamente que foi um trabalho feito com cuidado. As letras não eram extremamente sofisticadas, mas também não eram infantis como tantos críticos gostam de alardear por aí. A instrumental “Fanfare” é ótima, mas totalmente fora dos padrões da banda, com todas as suas orquestrações e partes que em alguns momentos lembram a trilha de um filme de ficção futurista e em outras lembram uma epopéia medieval, bem diferente de “Escape From The Island”, a outra instrumental do disco, mais rocker e ágil, mas que ainda traz certas características de progressivo em seu andamento. “Just A Boy” é uma pérola que se perdeu em meio a todo o desdém com que o disco é tratado. Uma música meio balada, meio épica, que traz um excepcional trabalho de guitarra e bateria, além dos vocais com falsete, que criam um clima excelente para a canção. O que dizer, então, da emotiva “Odyssey”, uma balada prog com uma melodia belíssima e acompanhada de um piano que deu todo um realce à música?

“Only You”, embora ainda tivesse proximidade com o progressivo, já trazia guitarras um pouco mais ao timbre do ‘velho Kiss’. O destaque nessa música é Gene Simmons, tanto por suas linhas de baixo quanto pela linha vocal peculiar que adota nessa faixa. “Under the Rose” fundia elementos do mais puro progressivo com linhas típicas de heavy metal, ainda arrumando espaço para orquestrações e um refrão medieval composto por um coro de vozes mais graves. Lembra, em certos momentos, algumas coisas do Rush do início de carreira. Fantástica. “Dark Light” é um rock daqueles que só bandas como o Kiss sabem fazer direito, cortesia de Ace Frehley, que canta, entrega riffs precisos e um solo bem legal. Essa música dá claras pistas de como seria a sonoridade de “(Music From) The Elder” caso Ace não tivesse sido voto vencido na decisão da banda. “A World Without Heroes” talvez seja a mais famosa do álbum. Uma música bonita, calma e melódica. “The Oath” é facilmente a mais pesada do disco, com um riff simplesmente matador e um grande refrão, cheio de efeitos sonoros que dão um resultado bem eficiente. “Mr. Blackwell” é a mais estranha do disco e, possivelmente, a mais fraca também. Não chega a ser uma música ruim, mas é até meio difícil classificá-la. E a mais Kiss de todas, “I”, caberia num daqueles discos dos anos 70 que fizeram a fama da banda ou mesmo num “Psycho Circus”.

Embora metade da banda (Frehley e Carr) não concordasse com isso, “(Music From) The Elder” foi composto para ser uma obra de referência na carreira do Kiss. A banda esperava até mesmo iniciar com ele uma seqüência de discos que seriam uma continuação da idéia conceitual original do álbum. Imaginou-se para esse trabalho uma turnê que traria um palco confeccionado com todo o cuidado e riqueza de detalhes, que retratasse bem a temática das letras, além de a banda vislumbrar a realização de um filme baseado na história. Mas “The Elder” fracassou no quesito vendas e aceitação do público e, com isso, todos aqueles planos nunca se concretizaram, até mesmo a turnê de divulgação do álbum, que não aconteceu. As raríssimas vezes em que o Kiss tocou algo desse disco foram em programas de televisão. Ace Frehley, que já não demonstrava há algum tempo ter mais a mesma energia do início, parecia cada vez mais infeliz com aquilo tudo. A coisa caminhou para um ponto em que Ace já não se apresentava mais com a banda, até que sua saída fosse consumada em1982.

A própria banda renegou esse disco, já que ele representou relativamente um fracasso sem precedentes na carreira do grupo. E o sucesso sempre foi uma obsessão para o Kiss. “The Elder” seria então o pior trabalho de sua carreira? Por tudo o que escrevi nesse texto considero que ele está longe disso. É o melhor? Também acredito que não. Mas é o trabalho mais maduro e lapidado da banda, além de ser possivelmente um de seus melhores discos. Coloca-se em dúvida até mesmo a sinceridade na inspiração para o álbum, já que muita gente afirma que sua única motivação foi a de impressionar os críticos e servir como mais uma jogada de marketing. Sem sombra de dúvidas, o álbum foge completamente às características que conquistaram milhões de fãs e que fizeram do Kiss uma das bandas mais famosas do mundo. E aquilo que se convencionou chamar de ‘identidade musical’ é, com certeza, uma das coisas mais importantes que uma banda pode ter. Fugir a isso muitas vezes pode ser tomado pelos fãs até como traição. Agora, é uma enorme injustiça não reconhecer todas as qualidades que “(Music From) The Elder” traz consigo. Por isso mesmo, este é mais um álbum que figura nessa lista de obras historicamente subestimadas por público, crítica e até mesmo por quem as idealizou. Agora, resta saber o que você acha. Não deixe de dar a sua opinião, de preferência após dar umas boas ouvidas nesse disco. Faça isso com a mente aberta e depois registre as suas impressões. Em breve, nos encontraremos por aqui de novo. Até lá.

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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