Iron Maiden: um som mais limpo, porém menos pesado.

Resenha - Somewhere in Time - Iron Maiden

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Por Luis Fernando Ribeiro
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Polêmica! Um substantivo que sempre rondou a carreira do IRON MAIDEN, especialmente a partir do ano de 1986, quando do lançamento de "Somewhere in Time". Os fãs já acostumados com a qualidade e peso dos discos gravados anteriormente pela banda, aguardavam ansiosos o lançamento de um novo álbum. Com o peso da responsabilidade de lançar discos tão bons quanto os anteriores, a banda decidiu se reinventar, adotando uma roupagem diferente para seu som. Desta forma, com o intuito de lançar um disco com temática futurista, a banda utilizou sintetizadores na gravação do baixo e das guitarras, tornando o som mais limpo, porém menos pesado.

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O lançamento de "Somewhere in Time" foi estrondoso e as vendas foram muito boas, mas logo começaram as críticas em relação ao disco. Os fãs mais fervorosos acusavam a banda de ter mudado muito o seu som e estarem se tornando mais comerciais, visando especialmente o mercado americano.
Apesar de todo o alvoroço causado na época, atualmente este é considerado um verdadeiro clássico da Donzela, figurando facilmente entre os preferidos pelos fãs. Abro aqui um parêntese para citar o porquê este review me será muito especial. Simplesmente pelo fato deste álbum, junto com "...And Justice for All", do METALLICA, ser considerado por mim o melhor disco de todos os tempos. "Somewhere in Time" tornou-me um verdadeiro fã de boa música e me fez aprender a curtir cada detalhe de uma canção. Este disco não é apenas um grande álbum de Heavy Metal, ele é uma verdadeira obra-prima da música moderna.

De cara, "Somewhere in Time" já chama a atenção pela sua maravilhosa arte de capa. A ilustração, novamente feita por Derek Riggs, possui inúmeros detalhes que nos remetem a história da banda. Falaremos destes detalhes mais adiante.
Como já citado anteriormente, a banda optou neste disco por uma musicalidade e temática futuristas, baseando-se especialmente no filme "Blade Runner", de 1982. Não se trata necessariamente de um disco conceitual, mas as músicas em geral falam sobre o tempo e a relação das pessoas com ele. Bruce Dickinson não teve participação nas composições e isso gerou certo desconforto entre os músicos, Harris ainda figurava como principal compositor e Adrian Smith participa com mais efetividade que outrora na parte criativa.
Mantendo a mesma formação desde "Piece of Mind", o entrosamento da banda já é algo indiscutível, a forma como cada nota se encaixa beira a perfeição. A dupla que Adrian Smith e Dave Murray fazem nas guitarras se tornaria uma das mais importantes e influentes do Heavy Metal, neste disco a dupla chega a seu ápice criativo, despejando riffs memoráveis e alguns dos melhores solos de toda sua carreira. Bruce Dickinson, apesar de não ter participação na criação das músicas, mostra mais uma vez todo seu potencial imprimindo sua personalidade inconfundível a cada faixa do disco. Steve Harris também vive um de seus melhores momentos em técnica e composição e junto com Nicko McBrain, que demonstra uma técnica e velocidade monstruosas, formam uma cozinha impecável.

O disco abre com a veloz e variada "Caught Somewhere in Time". Após uma introdução calma e melodiosa que deixa clara a proposta da banda para o disco, a velocidade toma conta da música, especialmente na bateria, onde Nicko demonstra uma técnica absurda no bumbo, sem sequer utilizar pedal duplo. Cheia de variações, a música vai evoluindo até chegar aos solos, onde Smith demonstra toda sua versatilidade e virtuosismo, sem perder o feeling. Diferente dos discos anteriores, onde a banda abria com uma faixa mais direta, "Caught Somewhere in Time" é uma música longa e em seus mais de 7 minutos mostra-se bastante complexa e variada, apesar do peso e velocidade constantes.

"Wasted Years" é o maior hit do disco e seu single fez bastante sucesso na época. Sem muita frescura e virtuosismo desnecessário, a música apresenta uma introdução interessante, um refrão pegajoso e se desenvolve em uma estrutura melódica bastante simples, mas eficaz. Nesta música Adrian Smith apresenta mais um solo extraordinário.
O disco mantém uma regularidade impressionante. Sua qualidade é tão constante que torna-se praticamente impossível destacar este ou aquele aspecto. Em "Sea of Madness", por exemplo, Steve Harris e Nicko McBrain iniciam a música com uma levada interessantíssima, o já famoso andamento cavalgado de Harris contrasta com o peso das variações de Nicko. Em seguida Dickinson entra com sua interpretação arrebatadora chegando ao ápice no refrão, onde é impossível não cantar junto, a plenos pulmões. Por fim, os riffs de Murray e Smith presentes em toda a extensão da música são empolgantes e precisos.

"Heaven Can Wait" é a música melhor aproveitada ao vivo pela banda, especialmente devido a seu ritmo empolgante e refrão bombástico. A música inicia com uma sequência distinta de notas e uma melodia cortante acompanhada da bateria precisa de Nicko McBrain. Assim como a faixa de abertura, "Heaven Can Wait" é uma música mais embalada, com um ritmo mais rápido, mas ainda assim sobra espaço para solos e melodias precisos. Sua letra é soberba, de longe a melhor do disco e fala sobre uma pessoa recebendo nova oportunidade de continuar vivendo.
Vale destacar que, diferente dos discos anteriores que possuíam alguns momentos mais interessantes, outros um pouco menos inspirados, "Somewhere in Time" mantém o mesmo nível em todo seu decorrer, sem músicas que se sobressaem. "The Loneliness Of The Long Distance Runner", apesar do título esquisito é uma música incrível. Ela inicia com belas melodias e vai ficando mais encorpada conforme vai se desenvolvendo, com mudanças constantes de ritmos e quebradas de tempo diversas que culminam em mais dois solos inacreditáveis, um mais lento e melodioso de Adrian Smith, outro mais rápido e preciso de Dave Murray.

"Stranger in a Strange Land" começa com Harris e McBrain novamente demonstrando seu entrosamento. Trata-se de uma faixa mais cadenciada, mas ainda assim muito pesada. Adrian Smith nos presenteia nesta canção com o solo mais bonito do disco e provavelmente um dos melhores de toda a sua carreira, ele é também o autor da letra que fala da história de um explorador que visitava o Ártico, morreu congelado e depois de cem anos seu corpo foi encontrado preservado por outros exploradores. Esta faixa também foi lançada como single, mas apesar de sua qualidade não obteve o mesmo sucesso que "Wasted Years".

A única participação de Murray como compositor no disco se dá em "Dejà Vu", que junto com Steve Harris não decepciona. A música começa com um dedilhado belíssimo e uma melodia bastante emotiva. Uma música bastante moderna, que soa atual mesmo após quase 30 anos de sua gravação. A velocidade é predominante e os duetos de guitarras estão por todos os lados. O termo "dejà vu" é francês, e diz respeito à sensação de já ter vivenciado uma situação anteriormente. ("Feel like i've been here before", "Sinto como se já tivesse estado aqui antes").

Fechando o disco temos a épica "Alexander the Great". Apesar do descaso da banda para com essa obra-prima, ela figurava na lista das preferidas de muitos fãs, inclusive na minha. Após uma introdução narrada, o instrumental e a parte lírica se completam de forma inexplicável, chegando ao ápice no refrão bombástico. Todas as melodias e harmonias se encaixam de forma perfeita e a música se desenvolve em diferentes climas de forma que ao transcorrer seus quase 9 minutos você sente que ela poderia ainda se prolongar por outros 30.
Apesar de tantos adjetivos que "Somewhere in Time" carrega consigo, a maioria de suas canções não foram aproveitadas após a turnê do disco. Apenas "Wasted Years" e "Heaven Can Wait" ainda são lembradas em alguns shows da banda. Mesmo a épica "Alexander the Great", considerada umas das melhores músicas da banda, nunca foi executada ao vivo. Enfim, como somente o tempo pode provar muitas coisas, este disco se tornou um clássico, reverenciado pela maioria dos fãs de Heavy Metal, mesmo aqueles que torceram o nariz para o disco na época em que foi lançado.

Curiosidades a cerca da capa de "Somewhere in Time":
Pode não ser a mais bonita, mas com certeza a capa de "Somewhere in Time" é a mais interessante da carreira do IRON MAIDEN. A capa deste disco, ilustrada pelo famoso Derek Riggs apresenta diversos detalhes a respeito da história e das músicas da banda, além de outros detalhes divertidos. Veja a seguir alguns detalhes a respeito desta arte genial:

- "This is a very boring painting", mensagem escrita ao contrário atrás da perna direita do Eddie;
- Aces High bar, com um avião da Segunda Guerra Mundial voando ao fundo. (Referência à música "Aces High", do álbum "Powerslave");
- Ancient Mariner Seafood Restaurant. (Referência à música "Rime of the Ancient Mariner", do álbum "Powerslave");
- Eye of Horus sobre o anúncio da Webster à esquerda da arma de Eddie. (Referência à música "Powerslave", do álbum "Powerslave");
- Phantom Opera House. (Referência à música "Phantom of the Opera", do álbum "Iron Maiden");
- Na contra-capa vê-se um homem em queda livre, trata-se de Icaro caindo do sol com as asas de cera em chamas. (Referência à música "Flight of the Icarus", do álbum "Piece of Mind");
- O relógio na contra-capa, no viaduto, marca 23:58. (Referência à música "2 minutes to midnight", do álbum "Powerslave");
- "Tonight GYPSY'S KISS", abaixo do relógio. (Referência à primeira banda do baixista Steve Harris);
- Live After Death e Blade Runner são os filmes em cartaz no cinema. (Referência ao disco ao vivo, "Live After Death" e ao filme "Blade Runner", no qual o disco "Somewhere in Time" é inspirado);
- O cinema é o Philip K. Dick, que é o autor de "Do Androids Dream of Electric Sheep?", em que o filme "Blade Runner" foi baseado.
- Ruskin Arms (Velho pub onde o IRON MAIDEN tocava no início da carreira);
- The Rainbow Bar (Outro clube que a banda frequentava nos primórdios);
- Marquee Club (Mais um velho clube freqüentado pela banda);
- Hammerjacks (Um dos bares favoritos da banda nos EUA, "Hammerjacks Night Club" em Baltimore, no estado de Maryland);
- Tehe's bar é o local onde a banda conseguiu as pessoas que contam os Backing Vocals de "Heaven Can Wait". Batman está embaixo do anúncio do Tehe's bar;
- West Ham 7 x 3 Arsenal. Placar de futebol mostrando a vitória do time preferido da banda, West Ham;
- Long Beach Arena (Referência ao lugar onde foi gravado o disco ao vivo, "Live After Death");
- Nicko McBrain veste uma camiseta com o dizer "Iron What?";
- "Bradbury Hotels International" (Referência ao autor Ray Bradbury de clássicos como "Ice Nine", "The Martian Chronicles", etc.);
- As pirâmedes na contra-capa fazem referência à capa do disco "Powerslave";
- Próximo às pirâmides pode-se ver a sombra da morte;
- Os letreiros escritos em japonês fazem referência ao disco ao vivo "Maiden Japan";
- "Maggies revenge" na contracapa faz referência à primeira ministra britânica Margareth Tatcher, que teve uma confusão com o Iron Maiden por volta de 1980 em virtude dos singles "Sanctuary" e "Women In Uniform", que a ilustravam morta por Eddie no chão e escondida atrás de uma parede observando Eddie, respectivamente;
- A rua em que Eddie se encontra é a Acacia Avenue (Referência a música "22 Acacia Avenue" do álbum "The Number of the Beast");
- Em uma das janelas da Acacia Avenue há uma garota sentada próximo à uma janela, ela é supostamente a prostituta Charlotte (Referência a música "Charlotte the Harlot", do álbum "Iron Maiden");
- Bruce Dickinson segura um cérebro em suas mãos (Referência ao disco "Piece of Mind");
- Há uma lixeira embaixo da perna esquerda de Eddie junto a um poste de luz. Estes objetos constam na capa do álbum de estréia, "Iron Maiden";

Outras curiosidades:
- Devido a falhas na gestão financeira da banda na época, pouco material da turnê foi gravado em vídeo, visando redução de gastos, fazendo com que registros ao vivo dessa época sejam raríssimos;
- Pela primeira vez desde o lançamento do 'debut' "Iron Maiden", a banda passou um ano sem lançar discos, lançando "Powerslave" em 1984 e "Somewhere in Time" em 1986;
- As músicas que foram regravadas por outras bandas foram as seguintes: "Wasted Years" (FATES PROPHECY, THUNDERSTONE, NOCTURNAL RITES, SKUNK D.F, DEVILDRIVER, SIGMA), "Sea of Madness" (PROTOTYPE), "Stranger in a Strange Land" (DISBELIEF, ERROR SEVEN), "Alexander the Great" (ELEVENTH HOUR), "Caught Somewhere in Time" (MADINA LAKE)

Somewhere in Time - Iron Maiden (1986 - EMI)

Track List:
1 - Caught Somewhere in Time
2 - Wasted Years
3 - Sea Of Madness
4 - Heaven Can Wait
5 - The Loneliness of the Long Distance Runner
6 - Stranger in a Strange Land
7 - Déjà Vu
8 - Alexander the Great


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Sobre Luis Fernando Ribeiro

Apaixonado por música, cinema, escrita, literatura e pela zoeira infinita. Inserido no mundo da música pesada em 2004 com Destruction, Metallica e Blind Guardian, quando ainda se compartilhava música através de fitas K7.

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