Led Zeppelin: Presence é um álbum injustiçado?

Resenha - Presence - Led Zeppelin

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Por Ronaldo Costa
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Foi na segunda metade de 1968 que o guitarrista Jimmy Page, com o intuito de juntar o que havia sobrado do “Yardbirds”, se une aos jovens Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham, na tentativa de dar seguimento ao projeto, sob o título de “The New Yardbirds”. O nome não duraria muito, mas com a nova denominação de “Led Zeppelin” sua banda modificaria definitivamente a história do rock. Era fama, dinheiro, loucuras e, o principal, música da melhor qualidade. Tanto é que, em meados dos anos 70, o Zeppelin já havia conquistado, e com sobras, o posto de maior e mais influente banda do mundo àquela época. Resistiam a todo tipo de coisa. Desde os excessos de seus integrantes, passando por acusações de plágio e desembocando em várias histórias sobre o suposto ‘pacto com o demo’, tudo aquilo parecia reforçar ainda mais a aura mítica que cercava a banda. À essa altura, o Led já contava com um currículo recheado de obras irretocáveis que, ainda que recebessem alguma crítica, normalmente geravam mais manifestações de idolatria e discussões no estilo “qual disco é o melhor?”.
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O enorme sucesso que a banda fazia rivalizava com a também enorme ‘uruca’ que os acompanhava. Eram acidentes, problemas de saúde e todo tipo de chateação possível. Lógico, logo alguém se apressou em associar tudo ao ‘trato’ que os músicos supostamente tinham com o ‘coisa-ruim’. No meio da bagunça, a banda lança em 1975 “Physical Graffiti”, seu primeiro álbum duplo. Apesar de alguns comentários negativos, dizendo que o disco era muito extenso e não acrescentava muito ao som da banda, o certo é que boa parte da crítica e, sobretudo, do público aprovou incondicionalmente o então novo trabalho. Nos Estados Unidos, por exemplo, a repercussão foi tamanha que os cinco álbuns anteriores retornaram às paradas e o Zeppelin se tornou a primeira banda de rock a colocar seis álbuns simultaneamente no ‘Top 200’ da Billboard. Nesse contexto, carregavam sobre seus ombros seis discos estupendos, popularidade e sucesso comercial nas alturas. Como conseqüência normal disso, a pressão sobre eles também era enorme. É então chegado o ano de 1976, quando a banda lança o seu sétimo trabalho de estúdio. Falamos aqui do álbum que o mundo conheceu sob o nome de “Presence”.

É interessante analisar esse disco hoje, sob uma visão de mais de 30 anos após seu lançamento, principalmente por sabermos que “Presence” conseguiu a, então, inédita peripécia de atingir disco de platina nos Estados Unidos antes mesmo de seu lançamento, na base da encomenda, dada toda a expectativa gerada. Hoje em dia, isso não impressiona tanto mas na época era algo assustador. E por que é curioso analisar isso? Justamente porque esse passou para a história da banda como um de seus trabalhos mais fracos, sendo que muitos o consideram o disco mais fraco de toda a sua carreira. Alguns até dirão que todo artista tem que ter um disco que seja considerado o menos atrativo. A questão é que “Presence” tornou-se um álbum subestimado não apenas quando comparado a outras obras da banda, mas ficou para algumas pessoas como um disco realmente ruim. Eis a raiz do problema. Avaliando-se suas sete faixas, o que fica é que “Presence” definitivamente não é um disco fraco. Pelo contrário, é um disco excepcional e que não deixa nada a dever a muitos dos outros trabalhos do Led que, costumeiramente, são colocados à sua frente na opinião dos fãs. Eu sei, eu sei...questão de opinião. Tem quem dirá que já viu alguém que falou ou escreveu que esse trabalho é espetacular, um marco na carreira da banda, etc. Mas, na média das opiniões, esse disco ficou como um dos trabalhos menos apreciados do grupo, para muitos o pior, o menos inspirado, ou como o início de uma fase de decadência criativa. A questão que se pretende discutir aqui é: será que ele é merecedor de tal classificação?

“Presence” foi gravado em meio a uma série de problemas dentro da banda. No ano anterior ao seu lançamento, o vocalista Robert Plant sofreu um grave acidente de carro, onde sua esposa apresentou ferimentos sérios e ele teve o tornozelo e vários ossos do pé esquerdo fraturados, além de lesões no cotovelo, o que o obrigou a permanecer por um bom tempo numa cadeira de rodas, na qual ele teve que ficar até mesmo durante as gravações do álbum. Jimmy Page e John Bonham também não enfrentavam fase das melhores, apresentando problemas recorrentes. John Paul Jones era o elo que tentava manter as coisas ainda funcionando, como uma unidade. Como dito antes, o Led era uma banda gigante que, querendo ou não, carregava a pressão de sempre ter que fazer algo acima da média. O álbum anterior, “Physical Graffiti”, era um misto de sonoridades, carregando influências diversas. Na verdade, a discografia inteira da banda até então era extremamente variada. O Zeppelin aparece então com um álbum que trazia uma nova proposta, a de um som homogêneo, mais simples, não tão variado como os discos anteriores, com uma identidade própria e única. E a coisa já começou a não agradar desde aí. Falou-se que a banda teve medo de se arriscar após tanto sucesso, que fez um disco no ‘piloto automático’ para não se comprometer comercialmente ou, então, considerava-se apenas que a fonte criativa da banda havia secado.

Basta a abertura do disco para justificar a impressão de que é um álbum injustiçado. “Achilles Last Stand” é uma obra-prima. Em seus mais de 10 minutos, somos presenteados com um épico, onde tudo se encaixa perfeitamente. A estrutura se mantém constante durante praticamente toda a música, com poucas variações mas, diferente do que se poderia esperar, em momento algum a canção soa enfadonha. A letra mítica é interpretada com competência por Robert Plant. John Paul Jones faz um trabalho memorável e a pegada selvagem apresentada aqui pelo bom e velho Bonham se traduz em uma de suas melhores performances. No entanto, não há como não destacar o trabalho de guitarras de Jimmy Page para essa canção, não apenas pelo poder dos riffs e pela beleza dos solos, mas até mesmo pelos timbres que ele consegue com sua guitarra, pois quem aprecia esse instrumento não tem como não se emocionar ao ouvir essa canção. Clássico. Possivelmente a melhor do disco e das melhores na carreira da banda.

É no ritmo cadenciado da ‘cozinha’ composta por Jones e Bonham que se desenvolve a ótima “For Your Life”, música com vestígios muito discretos de blues e certa influência ‘funky’. Plant encaixa um bom vocal e Page executa um solo de extremo bom gosto. “Royal Orleans”, a única com a assinatura de todos da banda, aprofunda-se um pouco mais nas já citadas influências ‘funky’, com um entrosamento perfeito dos músicos, que fica mais evidente nas várias pausas que ocorrem no andamento da canção. Destaque para Bonzo e sua levada um pouco mais solta que o normal. “Nobody’s Fault But Mine” é outra obra de arte. Talvez seja a música mais conhecida do álbum depois de “Achilles Last Stand” e também divide com ela o posto de mais agressiva do disco. E que canção maravilhosa. Um hard rock direto, virulento, pesado, que remete à sonoridade dos primeiros discos da banda, com direito a solos de Plant e Page, nos quais ambos demonstram ‘timing’ e ‘feeling’ extraordinários. “Candy Store Rock” é outra que retorna às mencionadas pitadas de uma sonoridade mais ‘funky’, com alguma influência de soul também e onde John Paul Jones dá um show à parte. Em “Hots On For Nowhere” temos o momento mais pop do disco, mas entenda o pop aqui não no sentido meramente comercial e, sim, como algo mais fácil de ouvir quando não se tem o ouvido acostumado com o som do Zeppelin. A melodia mais ‘feliz’ e simples contribui bastante para isso. Encerrando o álbum da melhor maneira possível, temos outra faixa memorável, que é “Tea For One”. Essa música é tratada por muitos como a “Since I've Been Loving You (parte 2)” e, de fato, é inegável que uma lembra a outra. No entanto, “Tea For One” é uma canção com alma própria. Um blues. E como a própria tradução do termo sugere, melancólico. Mais do que isso, um blues ‘à la Led Zeppelin’, carregando em cada nota a identidade musical da banda, extenso, com mais de 9 minutos e, aqui, sem muitas variações de andamento e melodia, mas que funciona bem.

Em “Presence” a banda se afasta um pouco dos experimentalismos de seus discos anteriores. Deixa um pouco de lado também arranjos mais complexos para apostar em um álbum com menos variações, mas um trabalho homogêneo, onde tudo soa mais básico. Um disco essencialmente de voz, baixo, bateria e guitarra. Obviamente, existem detalhes diferenciados em partes das músicas, mas foi concebido como um álbum mais simplista. Jimmy Page afirma que esse é seu disco favorito, pois considera que se a banda tivesse entrado em férias naquele momento, provavelmente teria ali mesmo encerrado as atividades. Só que, além disso, esse disco ser o seu predileto não é para menos, já que aqui ele entrega um trabalho de guitarras que, além de maravilhoso, é puro. Muito do fato de esse álbum ter ocupado historicamente uma posição de menos destaque na discografia da banda vem dessa suposta simplicidade, homogeneidade e menor espaço para a experimentação. Além disso, o gigantesco sucesso da banda em seus discos pregressos, sobretudo o sucesso comercial de “Physical Graffiti”, o trabalho imediatamente anterior, geraram uma pressão e expectativa enormes sobre esse álbum. E mais, a própria fase de excessos e azar que assolava a vida pessoal dos membros da banda pode ter contribuído para avaliações nem sempre positivas sobre “Presence”.

A arte da capa traz pessoas sentadas em torno de uma mesa, observando um objeto ao centro, e foi criada pela firma Hipgnosis, que já havia feito trabalhos para UFO e Pink Floyd, dentre outros. Muito se fala que o objeto é uma referência ao monolito do filme “2001”, de Stanley Kubrick, mas há versões que afirmam ser ele apenas uma representação da força da banda. Sobre a produção, em momento algum deixa a desejar, assim como os músicos na execução de suas funções. Plant comparece de novo com a voz tradicional, bem casada com todos os temas. John Bonham mais uma vez justificou a fama de ter sido o maior baterista que já passou pelo rock, e isso não parece ser pouca coisa. John Paul Jones ficou no Led como o mais obscuro dos integrantes. Muitos ouvidos não tão aguçados consideram, numa alusão ao futebol, que ele seria aquele cabeça de área que não aparece muito, responsável por segurar as pontas lá atrás enquanto os atacantes se destacam no jogo. Ledo engano. Discos como “Presence” são mais uma oportunidade de conferir todo o talento, elegância, bom gosto e virtuosismo do mestre. E Jimmy Page...bem, Jimmy Page é Jimmy Page, pra que falar mais?

Sim, “Presence” é um álbum injustiçado. Injustiçado por ter sido preterido na preferência de tantos fãs. Injustiçado por ter ficado para a história como um disco sem grandes ‘hits’, sendo que apresenta músicas tão maravilhosas. Injustiçado por ter sido considerado o início de uma curva descendente na carreira da banda. Alguém pode até achar que isso é exagero e que ele é um bom álbum, apenas não tão bom quanto outros. É exatamente essa a grande injustiça com esse trabalho, pois ele é uma obra maravilhosa. Se você tem o disco aí por perto, coloque-o para tocar, deite em algum lugar, feche os olhos e se deixe levar pelo som. Feito isso, concorde ou discorde do que está escrito aqui, mas dê a sua opinião sobre essa obra. Até a próxima.

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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