Resenha - Burning Sanctuary - Headless Cross
Por Ricardo Seelig
Postado em 22 de agosto de 2006
Nota: 9 ![]()
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Há muito tempo atrás, em uma terra muito, muito distante, nasceu uma banda excepcional. Formada por três americanos e um ex-tenista dinamarquês, unidos pelo amor à música e à cerveja (não necessariamente nessa ordem), os quatro passaram a ser conhecidos pelos seus discípulos através de um nome que sintetizou e virou sinônimo do estilo que tocavam: o heavy metal.

Naquela época, não havia nada igual ao Metallica. O choque, o impacto, a influência do grupo sobre toda uma geração foi gigantesca. Mais que apenas música, eles definiram toda uma estética que seria seguida nos anos seguintes. Nada de calças de couro, nada de tachinhas, nada de roupas pesadas na ensolarada Califórnia: a ordem do dia passou a ser jeans rasgados, camisetas de bandas e o velho All Star nos pés.
Este quarteto gravou dois pares de discos que se transformaram em clássicos eternos. "Kill´Em All", "Ride The Lightning", "Master Of Puppets" e "... And Justice For All" estão repletos de hinos, de lições de casa, de peso, de exemplos que serviram de base para toda a música pesada dos anos noventa. O speed metal, a bateria ao mesmo tempo rápida e repleta de quebras, as mudanças de andamento, as guitarras cavalgadas, o vocal que mostrou que não era preciso ser gutural para ser pesado, os riffs que uniram com rara sintonia o peso e a melodia. Tudo isso transformou o Metallica, com justiça, em uma das maiores, mais influentes e importantes bandas da história não só do metal, mas do rock como um todo.
Corta para 2006. O grupo que redefiniu a música pesada há duas décadas hoje não passa de uma piada de mau gosto. Processaram os fãs, que são quem os mantém vivos, por estarem baixando suas músicas gratuitamente na internet, em uma das atitudes mais infundadas, estúpidas e repugnantes da recente história musical. Neste período lançaram álbuns totalmente equivocados, um péssimo ao vivo gravado ao lado de uma orquestra sinfônica e um desesperado disco de covers voltado para as suas origens que tentou, em vão, recuperar o respeito perdido junto aos fãs.
As duas últimas "idéias" do grupo conseguiram ir ainda mais longe. Nem com muita boa vontade e com extremo bom humor "St Anger" pode ser considerado um álbum de rock. Aliás, pensando bem, ele não pode ser considerado nada em nenhum estilo musical, tamanha a falta de noção da banda. E provando que não há limites para a decadência, o documentário "Some Kind Of A Monster" resolveu "mostrar" os conflitos internos do grupo, em um resultado final tão constrangedor que faz séries como "The OC" e "Everwood" parecerem obras de arte.
Hoje, a banda legal que surgiu há muito, muito tempo atrás, está perdida no conflito de egos inflados por substâncias proibidas de seus integrantes. Mas, por mais que os outrora amigos se esforcem cada vez mais para colocar o nome do grupo no lixo, o Metallica permanece incrivelmente vivo na cabeça de milhares de fãs ao redor do mundo. Pessoas apaixonadas pelo grupo, que o defendem com unhas e dentes, ora com argumentos ora apenas com a visão cega do fã, e que devem encher a minha caixa postal depois de lerem tudo isso.
Dave Silver, Jack Wilks, Andy Stone e Kyle Daniel são alguns destes devotos do grupo. Como seus ídolos fizeram há duas décadas, eles também montaram uma banda. Ela se chama Headless Cross e está lançando agora seu primeiro registro, o EP "Burning Sanctuary". Pois bem fãs de Hetfield, Hammet, Burton e Ulrich, ajoelhem-se no chão e ergam suas mãos para os céus: tudo aquilo que vocês estão esperando desde o "... And Justice For All" está aqui.
Ouvir "Burning Sanctuary" é ouvir o Metallica de 1983 novamente. O grupo liderado por Silver é um fenômeno !!! As cinco faixas de sua estréia são puto thrash metal oitentista, com uma rifferama desenfreada baseada nas raízes do som da Bay Area. Bateria rápida, melodias cativantes, agressividade na medida certa, e mais uma surpresa: um vocal que soa como Dave Mustaine há vinte anos !!! Sim, os caras não se contentaram em revitalizar apenas o Metallica, trouxeram de volta também aquele jovem bêbado e impetuoso, autor de alguns dos riffs mais legais da história do metal.
"Elysium" é thrash metal clássico, e poderia estar tanto na estréia do Metallica quanto na do Megadeth. "Burning Sanctuary" é irmã siamesa de "Creeping Death". "Circle Of Madness", "Testament Of The Deceiver" e "Blinding Sorrow" figurariam com destaque em qualquer edição da lendária compilação "Metal Massacre".
Diferente de inúmeros grupos atuais, que olham para o passado e nos entregam músicas repletas de clichês repetitivos e sem inspiração, o Headless Cross coloca dois ingredientes muito importantes nesta mistura: paixão e talento. A sua música é, sim, totalmente baseada no que o Metallica e outros grupos da Bay Area, como Testament, Slayer e Exodus, fizeram lá atrás, mas isso não diminui em nada o prazer de ouvir o seu debut. Aliás, se você parar para pensar, é assim que funciona em qualquer arte. É a influência dos que vieram antes, o peso de nossos heróis em nossas vidas, que molda não apenas a maneira como entendemos a música, mas em certos aspectos até mesmo o jeito com que vemos o mundo. E, sinceramente, se é para ser influenciado por Hetfield e companhia, que seja pela melhor fase de sua carreira.
Eu não sei o que o futuro guarda para o Headless Cross. Eu não quero saber o que o futuro reserva para o Metallica. Eu só sei que, assim como eu, muitos fãs ao redor do mundo, ao ouvirem "Burning Sanctuary", colocarão finalmente a última pá de cal sobre a lápide da anteriormente maior banda de heavy metal do mundo, e que hoje não passa de um N-Sync um pouquinho mais pesado (isso naquelas faixas que podem ser consideradas música).
Se você é fã de thrash metal oitentista, compre este EP. Se você o encontrar exposto em uma loja, não pense duas vezes. E, se por um acaso do destino, quando chegar a sua vez todos já tiverem sido vendidos, entre no site dos caras (www.headless-cross.co.uk) e faça tudo para conseguir uma cópia.
Mais do que um conselho, isso é um serviço de utilidade pública.
Faixas:
1. Elysium
2. Circle Of Madness
3. Testament Of The Deceiver
4. Blinding Sorrow
5. Burning Sanctuary
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