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Resenha - American Idiot - Green Day

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Por Ricardo Seelig
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Certas bandas são estigmatizadas, e o Green Day é uma delas. Os punks não gostam do som porque é muito pop, os fãs de rock não curtem porque acham muito alegre e infantil, e os headbangers não ouvem porque não têm peito para admitir para os seus amigos que gostam de uma banda punk. Todo este preconceito transformou o Green Day, que já está na estrada há mais de dez anos, em uma banda subestimada, o que é uma pena, pois muita gente vai deixar de ouvir o álbum "American Idiot" justamente por isso.

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A história do rock está repleta de álbuns conceituais antológicos, que redefiniram a carreira de seus autores e influenciaram gerações inteiras. Os Beatles fizeram isso com "Sgt Peppers", o Who também com "Tommy", e os anos setenta não seriam os mesmos sem "Dark Side Of The Moon" e "The Wall" do Pink Floyd. Exemplos não faltam. Neste sentido, "American Idiot" representa para a carreira do Green Day um amadurecimento musical e um reconhecimento da crítica inéditos, equivalentes ao impacto que "Achtung Baby" e "London Calling" tiveram nas carreiras do U2 e do Clash, respectivamente.

É como se a gangue de Billie Joe Armstrong tirasse tudo de cima da mesa e resolvesse mostrar que é capaz de fazer muito mais do que músicas como "Basket Case" e "She". Da abertura com a faixa título ao encerramento com "Whatsername", o que se ouve é uma sucessão de canções acima da média, como se as caixas de som cuspissem junto com as notas musicais gritos como "somos nós mesmos", "estamos aqui" e "a gente falou que sabia fazer".

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"American Idiot", a música, é também o primeiro single do álbum e é uma porrada que mistura tudo o que o grupo fez antes para entregar um rock contagiante e cheio de energia. O destaque vai também para a letra altamente irônica e politizada, que joga na cara da juventude inerte americana uma cobrança direta sobre o seu papel na América de Bush. O clipe desta canção também é sensacional, e ganha facilmente como o melhor vídeo já produzido pelo Green Day.

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Entrando de sola, os mais de nove minutos de "Jesus Of Suburbia" são um deleite para os ouvidos. Em uma faixa que mereceria o rótulo infame de 'prog punk', a banda ousa como nunca ousou antes em sua carreira. No melhor estilo dos grandes dinossauros progressivos, a faixa é dividida em cinco partes ("Jesus Of Suburbia", "City Of The Damned", "I Don't Care", "Dearly Beloved" e "Tales Of Another Broken Home") onde Billie Joe e sua turma passam pelos diversos estilos que fizeram a fama da banda, indo do pop punk a momentos mais lentos. Um tapa na cara dos críticos do grupo, "Jesus Of Suburbia" mostra todo o poder de fogo do trio e deixa bem claro que o Green Day não está para brincadeira.

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"Holiday" é outra música fortíssima, e quem viu a apresentação da banda em Berlim durante o Live 8 viu isso claramente, com milhares de alemães pulando ensandecidos enquanto o grupo tocava alucinadamente no palco.

Tirando o pé do acelerador, a banda nos entrega a bela "Boulevard Of Broken Dreams", com ecos do pop inglês dos anos noventa, principalmente de grupos como Blur e Oasis. Aliás, a voz de Billie Joe nesta faixa em alguns momentos soa como se o próprio Damon Albarn tivesse cansado de tentar soar moderninho e descolado com o Blur e o Gorillaz, chutasse o balde e voltasse para as suas origens, quando tocava rock sem compromisso na garagem da sua casa.

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Como todo álbum conceitual que se preze, "American Idiot" também tem a sua canção épica. "Are We The Waiting" é uma bela balada, com um refrão poderoso, feito sob medida para ser cantado a plenos pulmões por estádios lotados. Um dos grandes destaques do álbum.

O Green Day 'old school' não foi esquecido, e os fãs de longa data vão adorar canções como "St Jimmy", "She's A Rebel" e principalmente "Letterbomb", onde a banda brinca com o seu passado, aprimorando a fórmula que os levou a conquistar o posto de maior banda punk da década de noventa.

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Com um começo surpreendentemente calmo, a belíssima "Give Me Novocaine" é outra grande canção de "American Idiot", com Billie Joe mostrando que sabe cantar, em uma faixa que teria tudo para se transformar em um enorme hit nas rádios se os programadores das emissoras tivessem vontade própria e não tocassem apenas o que as gravadoras exigem. "Wake Me Up When September Ends" vai na mesma linha e mergulha ainda mais na melancolia, crescendo aos poucos e se transformando em uma das faixas mais fortes do CD.

Voltando às influências da terra da rainha, "Extraordinary Girl" é Beatles versão anos 90, em um rock simples e direto, assim como a cadenciada "Whatsername", que fecha o álbum.

Mas antes o Green Day nos entrega mais uma porrada na cara em "Homecoming ", a faixa mais longa do CD. Novamente dividida em partes ("The Death Of St Jimmy", "East 12th St", "Nobody Likes You", "Rock And Roll Girlfriend" e "We're Coming Home Again"), leva o clima de ópera rock do álbum para a casa do fã, já que é praticamente impossível não se sentir no meio do show enquanto a banda vai executando a música.

É difícil dizer para onde o Green Day levará o seu som depois de "American Idiot", mas uma coisa é certa: o grupo das canções alegres ficou no passado. O que temos agora é uma banda altamente politizada, que chama para si o posto de maior grupo punk do planeta e cutuca com espadas extremamente afiadas as diversas feridas abertas pela Era Bush nos Estados Unidos. Ao lado do Audioslave, o Green Day é a única banda sem medo de expor a hipocrisia e a paranóia americana, em um país dominado por um presidente burro, conservador e demagogo, uma figura limitadíssima que só chegou ao poder pela influência e jogos de poder tramados pelos grupos que a sua família representa há décadas (incluindo-se no mesmo saco gigantescas companhias petrolíferas e fanáticos religiosos como a família Bin Laden, tradicional 'aliada' dos Bush). Ao invés de se envolver apenas em iniciativas que garantem uma mega exposição na mídia, como o recente Live 8, o Green Day trilha também o caminho mais difícil ao se posicionar claramente contra o regime conservador e alarmista de George W. Bush, em uma atitude digna de aplausos e que deveria servir de exemplo para muitos artistas. Se o rock é o reflexo da juventude e pode mudar o mundo, que este poder seja usado e não se transforme apenas em mais um slogan vazio.

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A arte de todo o álbum também merece destaque, principalmente a bela capa que adiciona 'pop art' à mistura do trio, dando ainda mais força ao conceito de "American Idiot".

É muito difícil que o mundo mude movido por um álbum de rock. Isso nunca aconteceu, e provavelmente demorará muito para ocorrer. Mas, daqui há dez, quinze anos, quando a gente olhar para trás, "American Idiot" estará em todas as listas de álbuns mais politizados e irados do rock and roll, ao lado de clássicos como "Sandinista" do Clash e "War" do U2. Isso já bastaria para que todo e qualquer fã tivesse uma cópia em sua casa, em lugar de destaque em sua estante, mas além da fortíssima mensagem anti-Bush o Green Day nos entregou um disco único, com canções excelentes, e que está há anos luz de tudo o que o grupo produziu antes.

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"American Idiot" é o melhor álbum lançado pelo Green Day.

"American Idiot" é um dos melhores álbuns lançados nos últimos anos.

"American Idiot" é desde já um dos grandes álbuns deste década.

Compre já o seu.

Faixas:
1. American Idiot
2. Jesus Of Suburbia
a. Jesus Of Suburbia
b. City Of The Damned
c. I Don't Care
d. Dearly Beloved
e. Tales Of Another Broken Home
3. Holiday
4. Boulevard Of Broken Dreams
5. Are We The Waiting
6. St Jimmy
7. Give Me Novocaine
8. She's A Rebel
9. Extraordinary Girl
10. Letterbomb
11. Wake Me Up When September Ends
12. Homecoming
a. The Death Of St Jimmy
b. East 12th St
c. Nobody Likes You
d. Rock And Roll Girlfriend
e. We're Coming Home Again
13. Whatsername

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Ouvindo:
AC/DC, Evil Walks.


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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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