Resenha - American Idiot - Green Day

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Ricardo Seelig
Enviar correções  |  Ver Acessos

publicidade

Nota: 10

Certas bandas são estigmatizadas, e o Green Day é uma delas. Os punks não gostam do som porque é muito pop, os fãs de rock não curtem porque acham muito alegre e infantil, e os headbangers não ouvem porque não têm peito para admitir para os seus amigos que gostam de uma banda punk. Todo este preconceito transformou o Green Day, que já está na estrada há mais de dez anos, em uma banda subestimada, o que é uma pena, pois muita gente vai deixar de ouvir o álbum "American Idiot" justamente por isso.

Green Day: ouça "Fire, Ready, Aim", mais uma nova música da bandaChris Cornell: ele não dava sinais de que se mataria, diz esposa


A história do rock está repleta de álbuns conceituais antológicos, que redefiniram a carreira de seus autores e influenciaram gerações inteiras. Os Beatles fizeram isso com "Sgt Peppers", o Who também com "Tommy", e os anos setenta não seriam os mesmos sem "Dark Side Of The Moon" e "The Wall" do Pink Floyd. Exemplos não faltam. Neste sentido, "American Idiot" representa para a carreira do Green Day um amadurecimento musical e um reconhecimento da crítica inéditos, equivalentes ao impacto que "Achtung Baby" e "London Calling" tiveram nas carreiras do U2 e do Clash, respectivamente.

É como se a gangue de Billie Joe Armstrong tirasse tudo de cima da mesa e resolvesse mostrar que é capaz de fazer muito mais do que músicas como "Basket Case" e "She". Da abertura com a faixa título ao encerramento com "Whatsername", o que se ouve é uma sucessão de canções acima da média, como se as caixas de som cuspissem junto com as notas musicais gritos como "somos nós mesmos", "estamos aqui" e "a gente falou que sabia fazer".

"American Idiot", a música, é também o primeiro single do álbum e é uma porrada que mistura tudo o que o grupo fez antes para entregar um rock contagiante e cheio de energia. O destaque vai também para a letra altamente irônica e politizada, que joga na cara da juventude inerte americana uma cobrança direta sobre o seu papel na América de Bush. O clipe desta canção também é sensacional, e ganha facilmente como o melhor vídeo já produzido pelo Green Day.

Entrando de sola, os mais de nove minutos de "Jesus Of Suburbia" são um deleite para os ouvidos. Em uma faixa que mereceria o rótulo infame de 'prog punk', a banda ousa como nunca ousou antes em sua carreira. No melhor estilo dos grandes dinossauros progressivos, a faixa é dividida em cinco partes ("Jesus Of Suburbia", "City Of The Damned", "I Don't Care", "Dearly Beloved" e "Tales Of Another Broken Home") onde Billie Joe e sua turma passam pelos diversos estilos que fizeram a fama da banda, indo do pop punk a momentos mais lentos. Um tapa na cara dos críticos do grupo, "Jesus Of Suburbia" mostra todo o poder de fogo do trio e deixa bem claro que o Green Day não está para brincadeira.

"Holiday" é outra música fortíssima, e quem viu a apresentação da banda em Berlim durante o Live 8 viu isso claramente, com milhares de alemães pulando ensandecidos enquanto o grupo tocava alucinadamente no palco.

Tirando o pé do acelerador, a banda nos entrega a bela "Boulevard Of Broken Dreams", com ecos do pop inglês dos anos noventa, principalmente de grupos como Blur e Oasis. Aliás, a voz de Billie Joe nesta faixa em alguns momentos soa como se o próprio Damon Albarn tivesse cansado de tentar soar moderninho e descolado com o Blur e o Gorillaz, chutasse o balde e voltasse para as suas origens, quando tocava rock sem compromisso na garagem da sua casa.

Como todo álbum conceitual que se preze, "American Idiot" também tem a sua canção épica. "Are We The Waiting" é uma bela balada, com um refrão poderoso, feito sob medida para ser cantado a plenos pulmões por estádios lotados. Um dos grandes destaques do álbum.

O Green Day 'old school' não foi esquecido, e os fãs de longa data vão adorar canções como "St Jimmy", "She's A Rebel" e principalmente "Letterbomb", onde a banda brinca com o seu passado, aprimorando a fórmula que os levou a conquistar o posto de maior banda punk da década de noventa.

Com um começo surpreendentemente calmo, a belíssima "Give Me Novocaine" é outra grande canção de "American Idiot", com Billie Joe mostrando que sabe cantar, em uma faixa que teria tudo para se transformar em um enorme hit nas rádios se os programadores das emissoras tivessem vontade própria e não tocassem apenas o que as gravadoras exigem. "Wake Me Up When September Ends" vai na mesma linha e mergulha ainda mais na melancolia, crescendo aos poucos e se transformando em uma das faixas mais fortes do CD.

Voltando às influências da terra da rainha, "Extraordinary Girl" é Beatles versão anos 90, em um rock simples e direto, assim como a cadenciada "Whatsername", que fecha o álbum.

Mas antes o Green Day nos entrega mais uma porrada na cara em "Homecoming ", a faixa mais longa do CD. Novamente dividida em partes ("The Death Of St Jimmy", "East 12th St", "Nobody Likes You", "Rock And Roll Girlfriend" e "We're Coming Home Again"), leva o clima de ópera rock do álbum para a casa do fã, já que é praticamente impossível não se sentir no meio do show enquanto a banda vai executando a música.

É difícil dizer para onde o Green Day levará o seu som depois de "American Idiot", mas uma coisa é certa: o grupo das canções alegres ficou no passado. O que temos agora é uma banda altamente politizada, que chama para si o posto de maior grupo punk do planeta e cutuca com espadas extremamente afiadas as diversas feridas abertas pela Era Bush nos Estados Unidos. Ao lado do Audioslave, o Green Day é a única banda sem medo de expor a hipocrisia e a paranóia americana, em um país dominado por um presidente burro, conservador e demagogo, uma figura limitadíssima que só chegou ao poder pela influência e jogos de poder tramados pelos grupos que a sua família representa há décadas (incluindo-se no mesmo saco gigantescas companhias petrolíferas e fanáticos religiosos como a família Bin Laden, tradicional 'aliada' dos Bush). Ao invés de se envolver apenas em iniciativas que garantem uma mega exposição na mídia, como o recente Live 8, o Green Day trilha também o caminho mais difícil ao se posicionar claramente contra o regime conservador e alarmista de George W. Bush, em uma atitude digna de aplausos e que deveria servir de exemplo para muitos artistas. Se o rock é o reflexo da juventude e pode mudar o mundo, que este poder seja usado e não se transforme apenas em mais um slogan vazio.

A arte de todo o álbum também merece destaque, principalmente a bela capa que adiciona 'pop art' à mistura do trio, dando ainda mais força ao conceito de "American Idiot".

É muito difícil que o mundo mude movido por um álbum de rock. Isso nunca aconteceu, e provavelmente demorará muito para ocorrer. Mas, daqui há dez, quinze anos, quando a gente olhar para trás, "American Idiot" estará em todas as listas de álbuns mais politizados e irados do rock and roll, ao lado de clássicos como "Sandinista" do Clash e "War" do U2. Isso já bastaria para que todo e qualquer fã tivesse uma cópia em sua casa, em lugar de destaque em sua estante, mas além da fortíssima mensagem anti-Bush o Green Day nos entregou um disco único, com canções excelentes, e que está há anos luz de tudo o que o grupo produziu antes.

"American Idiot" é o melhor álbum lançado pelo Green Day.

"American Idiot" é um dos melhores álbuns lançados nos últimos anos.

"American Idiot" é desde já um dos grandes álbuns deste década.

Compre já o seu.

Faixas:
1. American Idiot
2. Jesus Of Suburbia
a. Jesus Of Suburbia
b. City Of The Damned
c. I Don't Care
d. Dearly Beloved
e. Tales Of Another Broken Home
3. Holiday
4. Boulevard Of Broken Dreams
5. Are We The Waiting
6. St Jimmy
7. Give Me Novocaine
8. She's A Rebel
9. Extraordinary Girl
10. Letterbomb
11. Wake Me Up When September Ends
12. Homecoming
a. The Death Of St Jimmy
b. East 12th St
c. Nobody Likes You
d. Rock And Roll Girlfriend
e. We're Coming Home Again
13. Whatsername

Ouvindo:
AC/DC, Evil Walks.


Outras resenhas de American Idiot - Green Day

Resenha - American Idiot - Green DayResenha - American Idiot - Green Day

Green Day: 10 anos de um dos últimos clássicos do rock

Green Day: 10 anos do álbum que abalou estruturas do mainstreamGreen Day
10 anos do álbum que abalou estruturas do mainstream

Resenha - American Idiot - Green Day




GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato. Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Denuncie os que quebram estas regras e ajude a manter este espaço limpo.


Todas as matérias da seção Resenhas de CDs e DVDsTodas as matérias sobre "Green Day"


Green Day: ouça Fire, Ready, Aim, mais uma nova música da bandaGreen Day
Ouça "Fire, Ready, Aim", mais uma nova música da banda

Rock in Rio: Green Day já foi chamado para o festival e recusou? Medina respondeRock in Rio
Green Day já foi chamado para o festival e recusou? Medina responde

Green Day: banda muda letra de American Idiot para atacar TrumpGreen Day
Banda muda letra de American Idiot para atacar Trump

Em 20/09/2004: Green Day lançava o álbum American Idioit

Resenha - American Idiot - Green DayResenha - American Idiot - Green Day

Green Day: banda confirma novo álbum e libera 1° single; ouçaGreen Day
Banda confirma novo álbum e libera 1° single; ouça

Weezer: grupo divulga nova música de álbum inspirado em Van HalenSurfing Rockers: várias bandas em documentário sobre surf para 2020

Noisey: vídeos de artistas que surtaram no palcoNoisey
Vídeos de artistas que surtaram no palco

Conceituais: 7 álbuns que fizeram história contando uma históriaConceituais
7 álbuns que fizeram história contando uma história

MusicRadar: os 40 shows mais disputados do mundoMusicRadar
Os 40 shows mais disputados do mundo


Chris Cornell: ele não dava sinais de que se mataria, diz esposaChris Cornell
Ele não dava sinais de que se mataria, diz esposa

David Coverdale: Em 1974, o Deep Purple Expulsou o ACDC do palcoDavid Coverdale
Em 1974, o Deep Purple Expulsou o ACDC do palco

Rafael Serrante: Ele invadiu o palco do Maiden no Rock In RioRafael Serrante
Ele invadiu o palco do Maiden no Rock In Rio

Megadeth: Dave Mustaine não está feliz com os improvisos de Kiko Loureiro?Megadeth
Dave Mustaine não está feliz com os improvisos de Kiko Loureiro?

Dave Mustaine: 10 coisas que você não sabia sobre eleDave Mustaine
10 coisas que você não sabia sobre ele

Nirvana: quem é o bebê da capa de Nevermind?Nirvana
Quem é o bebê da capa de Nevermind?

Sepultura: veja Andreas Kisser tocando com Caetano VelosoSepultura
Veja Andreas Kisser tocando com Caetano Veloso


Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

Mais matérias de Ricardo Seelig no Whiplash.Net.

adGoo336|adClio336