Resenha - Roorback - Sepultura
Por Raphael Crespo
Postado em 17 de dezembro de 2003
Texto originalmente publicado no
JB Online e no Blog Reviews & Textos.
Se o Sepultura ainda tem algum resquício de Max Cavalera, ele se resume apenas à presença de seu irmão Igor na bateria e às músicas mais antigas que ainda fazem parte do set list nos shows. Com o novo álbum, Roorback - que sai no Brasil com quatro meses de atraso em relação ao lançamento europeu -, a banda brasileira de maior reconhecimento internacional em todos os tempos parece ter apenas iniciado sua carreira, que, no entanto, completa duas décadas no ano que vem, com o já não tão novo vocalista Derrick Green fazendo parte desta história desde o final de 1997.

Depois de Against e Nation, dois grandes álbuns, mas que contavam com um pouco da batucada que Max ainda insiste em fazer em seu Soulfly, e de Revolusongs, experimental, apenas com covers, Roorback chega para deixar claro o que o Sepultura pretende voltar às raízes. Mas não às raízes de Roots - que, diga-se de passagem, também é um ótimo álbum -, quando a batucada começou, mas da música direta, pesada, sem firulas.
Sem dúvida, Roorback é o melhor trabalho da banda com Derrick como vocalista, e o melhor depois da fantástica trinca ''Beneath the remains/Arise/Chaos A.D.''. Depois de uma introdução curta e angustiante, Come back alive entra de forma arrasadora, um thrash/hardcore nervoso, com a letra falando de guerra, tema recorrente no CD, e um refrão fortíssimo: ''Come back alive! Don't end up dead''. Uma música que, certamente, já nasceu clássica e disputa o título de melhor faixa do CD com Apes of God, não tão rápida, mas pesadíssima e com um riff matador, um dos melhores dos já compostos por Andreas Kisser.
''A fraude nas eleições nega a liberdade de escolha das pessoas/Repetindo erros e inventando desculpas para lucrar com conflitos'' é um trecho de Godless, numa clara referência a George W. Bush, o que demonstra a preocupação que o Sepultura vem tendo, desde o Chaos A.D. (1993), em escrever sobre a realidade feia, política e socialmente falando, do mundo em que vivemos.
E a banda pretende fazer sua parte para tornar um pouco menos difícil a realidade de um grupo de menores carentes que trabalham para a usina de triagem e Reciclagem de Papel de Santo André. Foi feita uma tiragem inicial de 2000 unidades para a ''luva'' que envolve a caixa do CD nacional. O projeto se chama ''Usina da Reciprocidade'' e é uma realização do Sepultura e da FNM, dirigido para adolescentes de 12 a 18 anos, que deixam de ficar nas ruas e trabalham para a entidade. Cada ''luva'' do CD é processada manualmente.
Em meio à pancadaria thrash/hardcore, Roorback também destaca alguns momentos mais calmos, num ritmo não tão alucinante, mas, nem por isso, menos pesados, como nos casos de More of the same, As it is, Urge - com João Barone (baterista do Paralamas do Sucesso) como convidado especial na percussão - e Bottomed Out, quase uma balada, muito pesada da metade para o final, que tem como destaque o vocal de Derrick e o excelente solo de guitarra de Andreas Kisser.
Corrupted e Mindwar, dois petardos que também estão entre as melhores do disco, são as músicas que já eram conhecidas do público brasileiro desde antes do lançamento na Europa, em maio. A primeira, já vinha sendo tocada pela banda em alguns shows no ano passado, enquanto a segunda foi apresentada ao vivo pela primeira vez em março deste ano, num show no Canecão e deverá ser o primeiro clipe de Roorback.
Leech, The Rift e Activist formam a trinca hardcore de Roorback, onde toda a fúria do Sepultura é melhor representada. Vale destacar o fato de que Igor Cavalera é, simplesmente, um dos melhores bateristas do mundo em todos os tempos. Rápido quando tem que ser e, sempre, preciso e criativo.
Depois da última faixa, Outro, com pouco mais de um minuto de chiados estranhos, há uma música escondida: Paulo's Microfone, uma divertidíssima brincadeira de estúdio com o baixista Paulo Jr., principal alvo e também autor das gozações mútuas dentro da ''família'' Sepultura. A versão nacional de Roorback tem como bônus a cover de Bullet the blue sky, do U2, em áudio e também no ótimo video-clipe."
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