Buddy Guy: o homem que veio da chuva
Por Paulo Severo da Costa
Postado em 28 de outubro de 2016
Quando BUDDY GUY disse a seu professor de música que havia optado pela carreira, esse lhe disse: "Ótimo, vamos começar pelo livro 1" - aquele lhe retrucou, apontando um disco de 78 rpm de MUDDY WATERS: "Esse é meu livro número 1!". Crescido no caldeirão entre música cajun, guitarras feitas com elásticos e grampos de cabelo e a umidade pantanosa da Louisiana, o homem que cantaria anos depois "pode apostar que eu tenho o blues da cabeça aos pés", não era um predestinado - sua biografia mostra um timoneiro das próprias escolhas. Se águas lamacentas foram sua inspiração, BUDDY subverteu os landmarks da ortodoxia do blues, eletrificando e distorcendo os pilares de taipa do ritmo que atravessou, vivo, mais de um século de existência.
"Eu não pego a guitarra para compor - componho a partir das conversas que tenho", afirmou em uma entrevista a NIC HACOURT. BUDDY não foi um dos "Kings" por nomeação, mas ouviu do grão mestre do triunvirato: "Buddy, eu não conheço um guitarrista melhor do que você" - frase lhe dita por B.B. KING. Se BOB McFERRIN fez o inusitado, usando o corpo como instrumento, GUY o precedeu, usando camisas de seda como palhetas, dedos em riste como slides e unhas como abafadores. O rangido lamurioso extraído de sua Strato, inspirou HENDRIX a cuspir querosene no mundo no final dos anos sessenta, transformando onomatopéia em arte. Ora com a brutalidade de um lenhador, ora como um devoto do soul, BUDDY GUY converteu a guitarra em voz - e sua voz, em alma.
Indestacável de suas raízes, cantou: "Superficial, por dentro não somos todos iguais"? Se a luta por direitos civis fôra um norte para militantes pacíficos ou radicais, BUDDY tomou a bandeira da unificação de MANDELA e MARTIN LUTHER KING em suas mãos. Nunca se sentiu ultrajado ou menosprezado pelo sucesso da Invasão Britânica: ao contrário, entendeu o valor de seu espólio e de seus pares para os súditos saxões, que nunca deixaram de lhe render homenagens e crédito por seu valor artístico. Reverenciou o passado tanto quanto abençoou a leva futura, tocando com ROBERT CRAY e JOHN MAYER- sem lamúrias, sem peso, sem a dor que entendeu como sendo apenas um recurso lírico, uma parte de sua música.
"Antes de morrer minha mãe disse: filho nunca esqueça suas origens". Ele nunca esqueceu- e se tornou fluido e leve como a chuva de onde veio.
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