Ideologia Rock: a fase suja dos Titãs

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Por David Oaski, Fonte: Ideologia Rock
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A história dos Titãs é curiosa, pois ao contrário de outras bandas, esta que hoje é considerada uma das maiores – senão a maior – banda do rock nacional, esteve próxima de ficar sem gravadora e com um destino totalmente incerto.
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Após o lançamento dos dois primeiros álbuns: “Titãs”, de 1984 e “Televisão”, de 1985, a banda não obteve o sucesso que era esperado pela gravadora WEA, pois apesar dos sucessos “Sonífera Ilha” e “Televisão”, as melodias eram realmente pouco inspiradas, tanto que muitas faixas seriam sucesso anos depois com nova roupagem, como “Marvin”, “Go Back”, “Insensível” e “Pra Dizer Adeus”.

Os rumos da banda mudariam de forma decisiva após a prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto por posse de drogas. Munidos de toda revolta causada pelo fato, os Titãs gravariam um dos melhores álbuns da história do rock: “Cabeça Dinossauro”, de 1986 que mostrava uma banda mais madura e entrosada, incluindo boa dose de peso em suas canções os caras finalmente mostraram a que vieram, arrebatando crítica e público.

A banda lançaria na sequência duas outras obras primas: “Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas”, em 1987 e “Õ Blésq Blom”, em 1989, formando talvez a melhor trinca de discos lançados na sequência por uma banda nacional.

E assim acabavam os anos 80, a fase de ouro e mais lembrada do rock nacional até hoje, de onde os Titãs saiam mais do que prestigiados, com álbuns que flertavam com punk, rock de garagem, funk, reggae, MPB, eletrônico e tudo que mais que pintasse pela frente, sempre com letras interessantes, ora geniais, ora despretensiosas, mas nunca soando vazias.

Na década seguinte, o rock não gozou da mesma alegria, pois com a ascensão de ritmos como pagode e sertanejo, somados ao desgaste natural da super exposição das bandas e a catastrófica gestão Collor, o período era de incertezas para o rock nacional.

A banda resolve então voltar a investir no rock cru e pesado e lançaria dois álbuns sensacionais, mal compreendidos na época e obscuros atualmente: “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”, de 1991 e “Titanomaquia”, de 1993.

O primeiro foi produzido pela própria banda e traz uma sonoridade crua, remontando o rock de garagem dos anos 70 e trazendo influência do ascendente rock alternativo americano, da cena que ficaria conhecida como grunge, trazendo guitarras distorcidas e canções com um andamento mais rápido do que a banda vinha fazendo. O álbum foi taxado na época como infantil e escatológico, devido principalmente às letras de “Isso Para Mim É Perfume”, de Nando Reis, com frases do tipo: “amor, eu quero te ver cagar” e “Saia de Mim”, de Arnaldo Antunes. Porém a análise se mostra extremamente equivocada, pois analisadas dentro do contexto do disco e da melodia que se encontram fazem todo sentido. O álbum contem ainda verdadeiras pérolas, como “Clitóris”, “O Fácil É O Certo” e “Eu Não Sei Fazer Música”.

Já o segundo é ainda melhor, mantendo a pegada agressiva, a banda adere de vez a onda grunge, recrutando o produtor Jack Endino, famoso por trabalhos com Nirvana, Soundgarden e Mudhoney. Esse disco marca também o primeiro registro sem Arnaldo Antunes, que saiu da banda para investir em projetos pessoais, mas ainda assim assina autoria de diversas faixas em parceria com os outros integrantes. Trata-se de um baita disco de rock que traz como destaques: “Será Que É Isso Que Eu Necessito”, “Nem Sempre Se Pode Ser Deus”, “Disneylândia”, “Estados Alterados Da Mente” e “A Verdadeira Mary Poppins”. As letras são novamente um show a parte, trazendo a sempre positiva diversidade de composições, porém dessa vez trazendo temas mais obscuros, característica também oriunda do som de Seattle.

É curioso notar que uma banda tão boa e com uma carreira tão consistente como os Titãs chegou num nível tão alto com os três petardos dos anos 80, que é comum ao avaliar a discografia dos caras colocar esses dois álbuns da fase mais crua e suja numa qualidade menor, no entanto, nem por isso são discos a serem desprezados, muito pelo contrario, são ótimos discos de um tipo de rock raro no país.

Depois dessa fase, os Titãs voltariam ao rumo mais comercial de seu som, mas lançando bons discos até hoje e fazendo shows por todo o Brasil.

Que o tempo reconheça o valor da fase raivosa dos Titãs, o que seria muito garboso.

David Oaski

Disponível também em:
http://rockideologia.blogspot.com.br/2013/06/a-fase-suja-dos...

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Sobre David Oaski

David Oaski é editor do blog Ideologia Rock, colunista do site Stereo Pop Club e colabora frequentemente com os sites Galeria Musical e Whiplash, além de já ter escrito para outras plataformas online. Amante de música (principalmente rock) independente de rótulos, escreve por hobby e para exercitar o senso crítico.

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