David Bowie: o marketing do camaleão
Por Alaor Rocha
Fonte: Mil Gatos
Postado em 12 de março de 2013
Meio a Meio
Acho que todos já estão cansados de saber do revival inacreditável de bandas e artistas nesse terceiro milênio. SOUNDGARDEN pra lá, NO DOUBT pra cá, BLACK SABBATH abrindo mão de baterista para voltar à ativa, Beyoncé dando chance para as amigas do DESTINY'S CHILD... Todo artista está matando cachorro a grito para ter o retorno mais triunfal. Esse movimento, no entanto, chegou ao seu ápice com o que podemos chamar de "ressurreição" de DAVID BOWIE à música após dez anos sem inéditas. Alguém tinha dúvida disso?

Tudo bem, parece que ficou claro quando o próprio Bowie liberou o single "Where are we now?" na absoluta surdina que a indústria musical estava sob suas mãos enrugadas há muito tempo, mas e antes? Quando biógrafos decretavam a aposentadoria dele e ninguém conseguia encontrá-lo comendo um donut na rua, será que era tão óbvio que um dos maiores marqueteiros da música voltaria de modo tão gigante, desbancando qualquer tentativa de ressurgimento? Revendo um pouco de sua carreira, sim.
Não era mais o mesmo...
Após o sucesso arrebatador de "The rise and fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars", de 1972, o já consolidado Bowie, maquiado até o talo e teatralizando seu palco como uma versão colorida de Alice Cooper, foi um dos pioneiros em anunciar o fim prematuro da carreira. "Esse show ficará muito tempo em nossas memórias", declarou no Hammersmith Odeon, "não somente porque é o último da turnê, mas porque é o último que faremos".

Como David Bowie pôde renunciar a seu sucesso dessa maneira? Na verdade, aquele era somente o último show de Bowie como Ziggy Stardust e o último da banda Spiders from Mars, por mais que isso não estivesse claro ao momento da declaração. Além do mais, essa aposentadoria precoce serviu como descanso para o artista e para sua gravadora: Enquanto o primeiro já estava com estúdio marcado para "Pin Ups" (1973), seu álbum de covers, o segundo não estava tendo o retorno financeiro necessário para arcar com os custos de um prosseguimento da turnê. Mas demorou pouco — para ser exato, um ano — para que Bowie voltasse aos palcos com o repertório do conceitual "Diamond Dogs".
...mas estava em seu lugar
Mas o camaleão do rock n' roll não descansou após o susto dado com o pronunciamento pós-Ziggy: Em 1990, o cantor não titubeou ao declarar que não mais tocaria seus antigos sucessos (em outras palavras, "Rebel Rebel", "Life on Mars?", "Starman" e outros clássicos que até hoje são carros-chefe da produção musical de Bowie) após a famosa "Sound+Vision Tour". Chegou a afirmar em uma entrevista que essa medida o "incentivaria a continuar fazendo coisas novas" e que, quando estivesse próximo aos cinquenta anos, "teria construído um repertório inteiramente novo".
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Meio a meio
Bowie nunca cansou de polemizar; sua música fala por si mesma com certo escárnio, certo veneno escorrendo de sua boca. Isso porque toda a originalidade do artista nunca foi 100%, mas sim 50% no presente e 50% no futuro.

Isso ficou confuso, não? Vamos ilustrar isso: À época de "Ziggy Stardust" e "Alladin Sane", o que tivemos foi um David Bowie que se utilizou do teatro de Alice Cooper e da pop art de Andy Warhol para criar seu mundo andrógino e alienígena, que por si só tem reflexos na música até hoje (ou o raio no rosto de Lady Gaga foi mera coincidência? Ela mesma diz que não). O mesmo aconteceu com o sucesso "Let's Dance", cuja versão original (aquela de sete minutos, totalmente avessa à versão do single) é fruto do pop oitentista aliado à capacidade inventiva de Bowie, que ditou o que seria a dance music dali para frente. Até mesmo os últimos registros ("Black Tie White Noise", "Earthling", para citar os mais relevantes) têm pitadas do que podemos achar na música eletrônica de hoje em dia.

Que fique claro, entretanto, que nada disso quer dizer que David Bowie não teve um pingo de originalidade em sua carreira. Muito pelo contrário! Com poucas exceções na carreira — o que foi o Tin Machine, pelo amor de Deus? —, Bowie sempre se mostrou primoroso em suas artes, seja pintando, atuando ou compondo. Experimental até onde não pôde mais, sem perder o tino comercial que um ícone como ele é obrigado a ter. O grande trunfo do artista por toda sua trajetória foi se levar aos extremos, mostrar até onde sua música pode ir, e assim chegar a lugares novos com tudo que já temos. Bowie é antenado, nós sabemos disso, ele já nos disse isso. Quer prova maior disso do que suas canções, lúcidas e atuais em pleno 2013?

Pode ainda não estar fácil ver o revival de David Bowie como algo previsível. O fato é que o cantor sempre foi muito bom em ser discreto. Não é tarefa simples ver por onde Bowie andou para chegar onde queria, só o que vemos é o passo adiante que ele dá, à frente de todos. Dois anos e meio escondendo composições e ensaios não são para qualquer figura pública.
Mas vamos à conclusão: O que o camaleão fez foi levar o revival de artistas ao extremo. Não que os nove anos seguintes ao enfarte foram uma grande jogada de marketing, nada disso. Isso seria reduzir Bowie a um publicitário doentio. Ele foi muito além: Cuidou da família, continuou ativo artisticamente com suas pinturas e usou esse movimento de ressurreição musical para ter uma oportunidade única de exposição na mídia (pois, vamos combinar, seus últimos álbuns foram tão expressivos quanto maquiagem transparente). Ele se arriscou com grandeza, assim como em vários momentos de sua carreira, e sem precisar ser um gênio ou ter poderes transcendentais para isso. Tudo de que o cantor precisou foi uma conexão de internet para se manter atualizado, como sempre.
Bowie, mais uma vez em sua trajetória, usou as cartas da mesa para levar a indústria musical a um novo patamar. Paul Trynka, o biógrafo responsável por transcrever a história do artista em "Starman" (2011), disse que ele só voltaria à música se tivesse algo genial a mostrar. Se Bowie voltou, então sabemos que ele não nos decepcionará.
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