When Gabriel lies down on Genesis

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Por Roberto Lopes
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Poucas turnês tiveram um caráter tão dramático e transitório para uma banda como a do disco duplo "The lamb lies down on Broadway", sexto trabalho de estúdio do Genesis, ocorrida entre 1974 e 1975. O grupo nesse período finalmente havia consolidado o sucesso de público e crítica nos trabalhos anteriores "Foxtrot" (1972) e "Selling England by the pound" (1973) e alcançava o posto de supergrupo, dividindo espaço com outros gigantes dessa época como o Yes, Pink Floyd, ELP e Jethro Tull. Mas as tensões que ocorriam dentro da banda fizeram com que seu líder, Peter Gabriel, decidisse sair do grupo, criando um clima de consternação e dúvida sobre o futuro da banda durante e depois da turnê. O que seria a turnê de consagração se tornaria a última de sua formação clássica (Tony Banks, Mike Rutherford, Steve Hackett, Peter Gabriel e Phil Collins).

Para entendermos como toda essa situação aconteceu, precisamos voltar ao período de gravação do disco que originou a turnê, ocorrido entre agosto e outubro de 1974. Nesse período, a banda decidiu gravar um disco duplo e conceitual, evitando faixas muito longas (como uma suíte ao estilo de "Supper’s ready", por exemplo), onde o grupo ficaria encarregado em compor a parte dos arranjos e melodias e Gabriel encarregado com as letras. Desde o início, a tensão entre os membros mostrava-se nítida e incômoda, sendo o ápice dessa tensão quando Gabriel, desgastado com a rotina massacrante da banda e preocupado com o nascimento problemático de sua primeira filha, demonstrou sua insatisfação ao sair temporariamente do grupo e tentar trabalhar num roteiro com o diretor do filme "O exorcista", William Friedkin, que preferiu não continuar com o projeto, fazendo com que o vocalista, de certa forma constrangido, voltasse ao grupo e terminasse as gravações do álbum. Pra completar, o guitarrista Steve Hackett ainda sofreria um corte na mão, postergando por quase um mês o inicio da excursão, marcada inicialmente para outubro.

O lançamento do disco ocorreu em 18 de novembro de 1974. Apesar de um estranhamento inicial por parte da crítica pelo tema complexo do disco (uma jornada surrealista de um jovem porto-riquenho chamado Rael), o trabalho obteve considerável sucesso de público, chegando ao top 10 inglês e ao top 50 americano. O grupo assim obteve carta branca para iniciar sua ambiciosa excursão.

A turnê, que durou de novembro de 1974 até maio de 1975, teve aproximadamente 102 apresentações, com uma primeira parte realizada nos Estados Unidos e outra posterior na Europa. O repertório consistiu na execução na íntegra do "The lamb...", com as faixas "The musical box", "Watcher of the skies"e "The knife" (essas duas últimas incluídas posteriormente) executadas no bis, o que mostraria uma postura ousada por parte da banda em não só por tocar o trabalho na integra, mas pela tentativa do grupo de transcrever o caráter teatral do álbum ao vivo, com a exibição de cerca de dois mil slides passados em três telões no meio do palco, com efeitos de luz, explosões de fogos e até a utilização de bonecos. Peter Gabriel manteve o caráter teatral de suas performances, contando histórias durante a apresentação e caracterizado como o jovem punk Rael, com uma jaqueta de couro e calça jeans. Mas o vocalista aqui evitou o uso excessivo de fantasias, como fizera nas turnês anteriores, usando-as somente nas músicas "The lamia" e "The colony of slipperman" (onde usava uma bizarra fantasia representando o monstro) e obviamente durante o bis.

A turnê desde o começo mostrou-se tensa; nem sempre as apresentações aconteciam da forma pretendida pela banda. O próprio tecladista Tony Banks afirmaria em 1991 que, com exceção de cinco ou seis apresentações, o resto delas sempre mostrava algum tipo de problema ou defeito. Ou era o slide que falhava, ou os efeitos que não funcionavam ou funcionavam errado, ou a banda que não estava tão entrosada, ou Gabriel esquecendo as letras... Apesar de nos registros em áudio existentes da turnê não se perceberem nitidamente esses detalhes, notava-se que as apresentações não ocorriam de forma totalmente “linear” ou estável. Isso não as comprometia, mas mostrava que algo estava errado com a banda.

As apresentações norte-americanas ocorreram bem, com boa recepção de público e crítica, mas sem a aclamação das turnês anteriores, talvez pelo repertório baseado quase que exclusivamente no disco recente de estúdio.

Mas se em relação às apresentações as coisas aconteciam sem maiores problemas, na banda começavam as atribulações. Durante essa parte americana, Gabriel anunciaria seu desejo de sair do grupo para o empresário da banda Tony Smith. Por insistência de Smith, Gabriel decidiu então continuar com o grupo até o final da turnê, mas isso obviamente criou um clima tenso, em que segundo Collins “nós o recebemos bem, mas agora qualquer coisa poderia acontecer” e o próprio Gabriel afirmaria ”que era muito estranho se apresentar sabendo que ia sair do grupo”. Pra piorar, a notícia de sua saída havia vazado para a imprensa inglesa, que criou “obituários” para a banda, que iria acabar sem seu “líder”. Mas apesar de todo esse clima estranho, nenhum incidente grave ocorreu entre os membros durante a excursão.

Seria na parte européia da turnê, iniciada em fevereiro, em que a banda entraria em sua “prova de fogo” em relação à promoção de seu disco.

Apresentações como em Portugal, na cidade de Lisboa, que até hoje celebra esse acontecimento, no meio da “Revolução dos Cravos” que ocorria no país e, em Roma, onde a banda sempre teve boa aceitação de público, mostraram que o grupo ainda mantinha seu poder de fogo e respeito, parecendo que essa parte européia daria uma nova perspectiva para a excursão.

Mas essa recepção esfriaria rapidamente na passagem da banda na Alemanha e principalmente na França nas últimas apresentações. As gravações nesses países mostravam um público frio e desinteressado, com poucos momentos de empolgação, apesar do desempenho eficiente da banda. As últimas apresentações ocorridas na França foram o ponto mais baixo da turnê, com a casa quase vazia e um público nitidamente sem interesse, culminando com o cancelamento da ultima apresentação da excursão, em Toulouse, por falta de quórum. Foi um fim melancólico de uma turnê que prometia ser o ápice do grupo.

E assim, quase que imediatamente após o termino da turnê, Gabriel anunciou oficialmente sua saída do Genesis, se afastando da cena musical por mais de um ano. O resto do grupo começou a busca por um novo vocalista, mas preferiu usar o então baterista Phil Collins nos vocais, partindo para a gravação do novo disco de estúdio, "A trick of the tail". Gabriel seguiria uma carreira excelente, mas se afastando da sonoridade do grupo que o consagrou, e o Genesis, apesar de manter uma sonoridade progressiva nos primeiros discos pós-Gabriel, após a saída do guitarrista Steve Hackett em 1977, caiu numa sonoridade ligada ao um pop radiofônico, se afastando da proposta inicial da banda.

Atualmente existe um certo caráter mítico em relação a essa turnê, não muito pela repercussão obtida pela mesma, mas pelos registros existentes em bootlegs, que mostram os altos e baixos da turnê (não contando a gravação existente na caixa “Genesis Archives”, excelente mas prejudicada pelo excesso de overdubs) e pelas pouquíssimas imagens registradas dela em super 8 mm (infelizmente a banda decidiu não filmar a turnê) que aumentou ainda mais esse caráter “cult” dos fãs para com a excursão. Outro fato importante foi à recriação quase perfeita dessa turnê feita pelo grupo cover canadense The Musical Box em 2004 e 2005, que estimulou novamente a curiosidade do público (e da própria banda) dessa fase um tanto obscura do Genesis. A própria formação clássica do Genesis no final de 2005 cogitou em recriar a turnê do "Lamb...", que infelizmente foi postergada (e atualmente distante de acontecer) para talvez em 2008 ou 2009.

Mesmo essa oportunidade não sendo tão cristalina, há esperança de que "The lamb lies down on Broadway" um dia possa ser recriado pela banda que o concebeu, permitindo a algumas gerações de fãs verem um dos grandes discos do progressivo ao vivo.

Abaixo alguns dos poucos registros - quase todos amadores - disponíveis dessa turnê.

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Fontes:
Vídeo “Genesis- A History” (1991);
“Genesis- Behind the Music” (1999);
DVD “Genesis Songbook” (2001)


Roberto Lopes, 29, é arquivista e moderador do Ummagumma, onde é conhecido como bobblopes. O Ummagumma é um fórum que procura discutir todas as vertentes do progressivo. Todos estão convidados a visitá-lo e discutir a música progressiva, desde os medalhões sinfônicos até as bandas mais experimentais.

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Sobre Roberto Lopes

Arquivista, professor, cientista da informação e pseudo escritor de música nas horas vagas. Apesar de mais focado no Rock Progressivo e clássico, também curte metal, punk, rock alternativo e indie Rock.

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