Mike Oldfield: não só "Tubular bells"

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Tatiana Porto
Enviar Correções  









O rock progressivo inglês dos anos 70 não se resume só aos grandes nomes como Pink Floyd, Genesis, Yes e Emerson Lake and Palmer. Além deles, há, por exemplo, um artista que se define como a "banda de um homem só", o multiinstrumentista autodidata Mike Oldfield, que ficou conhecido em 1973 ao lançar seu primeiro disco, "Tubular Bells", com a famosa música do filme "O Exorcista" e um dos albuns de rock instrumental mais bem sucedidos da história, com mais de 17 milhões de cópias vendidas. Além de "Tubular Bells", todavia, Mike Oldfield produziu outras obras excelentes.

Nascido na cidade inglesa de Reading há 59 anos, Mike Oldfield teve a música como grande companheira e amiga de todas as horas. Já aos seus seis anos de idade, ganhou de seu pai sua primeira guitarra e já começou a mostrar seu talento. Aos 10 anos de idade, já tocava violão em clubes folk e, aos 15 anos, junto com sua irmã Sally, montaram o duo folk The Sallyangie, lançando um disco em 1968. Aos 16, tocava baixo e guitarra na nova banda do ex-Soft Machine Kevin Ayers, a Kevin Ayers & The Whole World, em que gravou dois discos, "Shooting at the Moon" (1970) e "Whatevershebringswesing" (1971). Contudo, logo percebeu que não seria fazendo parte de um grupo que seu talento brilharia e foi com apoio de Kevin Ayers, em 1971, que teve a oportunidade de gravar uma demo com sua própria música. Dois anos mais tarde, ela se tornaria um dos discos mais marcantes da história do progressivo, "Tubular Bells", cuja introdução de piano foi utilizada no filme "O exorcista" em 1973, ainda que sem sua autorização.

Sua fama é de multi-instrumentista, mas a guitarra é seu principal instrumento, no qual desenvolveu uma técnica refinada, dedilhando e extraindo um timbre peculiar e marcante, que virou sua marca registrada. Além de guitarra, destaca-se também ao tocar violão, tanto o tradicional, quanto o clássico e o flamenco. Nesses quase 40 anos de carreira, entre outras coisas, flertou com a música eletrônica ("The Songs of Distant Earth", "Tubular Bells III", "Tres Lunas", "Light + Shade"), a música celta ("QE2", "Voyager") e o lado mais comercial ("Discovery", "Islands" e "Earth Moving"). Repassou a virada do milênio em "The Millennum Bell", compôs a trilha sonora do filme "Os gritos do silêncio" e reforçou que é, em primeiro lugar, um guitarrista em "Guitars". E mais recentemente, flertou com a música erudita em "Music of The Spheres".

Devido à sua carreira extensa e variada, com 24 trabalhos de estúdio, vale a pena destacar alguns trabalhos mais relevantes. Um primeiro grupo desses trabalhos são os longos instrumentais. Entre eles, está o já mencionado "Tubular Bells", de 1973, um clássico do seu tempo, que marcou não só por seu início (a linha repetitiva de piano usada no filme "O exorcista"), mas também pelo ausência quase total da bateria, pelos elementos minimalistas e pela complexidade da sua estutura musical. Tudo isso em boa parte gravado apenas por um garoto de 20 anos, um verdadeiro prodígio. Por motivos pessoais relacionados a seu desempenho, acabou regravando-o, lançando em 2003 "Tubular Bells 2003". "Tubular Bells II" é calcado nas estruturas do original, mas trazendo novos elementos.

Ainda dentro desse grupo, "Hergest Ridge", de 1974, é um trabalho mais pastoral, sereno e bucólico, que desbancou "Tubular bells" do primeiro lugar da parada inglesa quando foi lançado, com destaque para a tempestade sonora de várias guitarras em camadas que surpreende o ouvinte na "Part II". "Ommadawn", de 1975, um dos seus trabalhos mais essenciais, traz uma técnica diferenciada de tocar guitarra, mostrando Oldfield em plena maturidade, em uma peça dividida em duas partes, em que elementos de música celta coexistem harmoniosamente com tambores africanos. "Incantations", de 1978, é o disco mais sinfônico, contando com uma seção de cordas e metais, com quatro músicas nas quais um minimalismo à Philip Glass marca as suas estruturas. Aqui temos um equilíbrio entre os teclados atmosféricos, as guitarras que cantam, o vocal doce de Maddy Prior (do Steeleye Span) e a percussão de Pierre Moerlen (do Gong). Finalmente, "Amarok", de 1990, é o trabalho mais anticomercial e de maior dificuldade de audição que o músico lançou, com passagens intrigantes, irritantes e complexas em sua sonoridade e estrutura. As guitarras marcantes e exóticas, bem como os trechos irônicos propositais, eram uma resposta peculiar contra sua gravadora, que preferia o ver lançando trabalhos bem comerciais em vez de explorar ao máximo suas capacidades como músico.

Um segundo grupo de trabalhos são aqueles que trazem instrumentais mais curtos e canções propriamente ditas. Entre eles, pode-se citar "Platinum", de 1979, definido uma vez por um crítico como "Oldfield para iniciantes", visto que o disco trazia curtos temas instrumentais, mais fáceis de serem assimilados. Na suíte "Platinum", dividida em quatro partes bem distintas, observam-se um pouco de peso em sua guitarra, elementos de jazz e uma versão de "North Star" de Philip Glass. "Five Miles Out", de 1982, trazia instrumentais que mostravam ser ainda possível reinventar a sonoridade progressiva em plena década de 80. "Taurus II" traz a bela mistura de música celta tradicional com uma sonoridade mais pesada, baseada em guitarras. "Mont Teidi" traz a percussão de Carl Palmer que enriquece a música. Além disso, o disco traz os primeiros sinais de músicas mais acessíveis para a rádio, com canções como "Family Man" e "Five Miles Out". Com "Crises", de 1983, o sucesso lhe chega novamente, graças a "Moonlight Shadow", com sua melodia marcante e vocal doce de Maggie Reilly. O disco traz também momentos progressivos, como a faixa-título com seus 20 minutos, em que vemos um guitarras pungentes, várias mudanças de clima e a bateria e percussão fortes por conta do baterista Simon Phillips. O peso também marca "Shadow on the Wall", com Roger Chapman nos vocais.

Em 2006, depois de 7 anos afastados das turnês, Mike Oldfield participou do tradicional festival europeu "Night of The Proms" na Alemanha e também na Espanha em 2007, no qual interpretou seus maiores sucessos junto a uma orquestra, coral e banda de rock. Em 2007, ele lançou sua autobiografia, "Changeling", no qual fez um retrato bem aprofundado de seus anos de formação e da sua carreira nos anos 70. Já em 2008, lançou seu primeiro trabalho clássico, "Music of the Spheres", com a colaboração de Karl Jenkins (ex-Soft Machine) na orquestração e que foi apresentado em primeira mão no famoso Museu Gugenheim de Bilbao, na Espanha. Desde 2009, Mike Oldfield vem trabalhando na relançamento de seu catálogo da gravadora Virgin pela Mercury, trazendo tanto novas mixagens de seus clássicos discos dos anos 70, quanto lados Bs e registros ao vivo. Até o momento, foram lançados os discos compreendidos entre "Tubular Bells" a "QE2" (1980).

Quem pode conferir a abertura das Olimpíadas de Londres em 2012, teve uma agradável surpresa ao ver Mike Oldfield tendo uma destacada e aclamada atuação na homenagem feita pelo diretor Danny Boyle ("Transpotting", "Quem Quer Ser Um Milionário?") ao sistema de saúde publico britânico (NHS). Sobre seu desempenho nas Olimpíadas, o próprio Mike Oldfield definiu como sendo "o projeto de uma vida", ao trazer uma versão jazzística de "Tubular Bells" "Far Above The Clouds" e "In Dulci Jubilo". Além disso, está trabalhando em um novo disco (ainda sem previsão de lançamento), com uma sonoridade hard rock, muitas guitarras, órgão Hammond, canções – ao contrário de seus discos nos anos 2000 –baterias de verdade.. É esperar para ver essa nova faceta desse músico e compositor inglês, cuja carreira sempre foi marcada pela versatilidade musical sem perder sua identidade sonora única.

Discografia recomendada: "Tubular Bells" (1973), "Hergest Ridge" (1974), "Ommadawn" (1975), "Five Miles Out" (1982) e "Amarok" (1990).


Ummagumma

As novas faces do progressivo: Quaterna RéquiemAs novas faces do progressivo
Quaterna Réquiem

As novas faces do progressivo: Sleepytime Gorilla MuseumAs novas faces do progressivo
Sleepytime Gorilla Museum

Ummagumma: Estagnado para alguns, o prog revela bandas inovadorasUmmagumma
Estagnado para alguns, o prog revela bandas inovadoras

Ummagumma: Desentendimentos e confusões... o que é rock progressivo?Ummagumma
Desentendimentos e confusões... o que é rock progressivo?

Ummagumma: A onda de retornos de grupos consagrados atingiu o progressivoUmmagumma
A onda de retornos de grupos consagrados atingiu o progressivo

Prog Death Metal: Um estilo que revitaliza e atrai críticasProg Death Metal
Um estilo que revitaliza e atrai críticas

Ummagumma: 1974 a 1975: When Peter Gabriel lies down on GenesisUmmagumma
1974 a 1975: When Peter Gabriel lies down on Genesis

New prog: renovação ou equívoco?New prog
Renovação ou equívoco?

Umagumma: Literatura que trata do Rock Progressivo e suas bandasUmagumma
Literatura que trata do Rock Progressivo e suas bandas

As novas faces do progressivo: Godspeed You! Black EmperorAs novas faces do progressivo
Godspeed You! Black Emperor

Ummagumma: os álbuns que marcaram os redatores do siteUmmagumma
Os álbuns que marcaram os redatores do site

Ummagumma: Das fitas à internet, o rock progressivo e os bootlegsUmmagumma
Das fitas à internet, o rock progressivo e os bootlegs

Ummagumma: As novas faces do rock progressivo brasileiroUmmagumma
As novas faces do rock progressivo brasileiro

Capas: Os grandes artistas do rock progressivoCapas
Os grandes artistas do rock progressivo

Todas as matérias sobre "Ummagumma"



Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Heavy Metal: os dez melhores álbuns lançados em 1990Heavy Metal
Os dez melhores álbuns lançados em 1990

Fotos de Infância: Lemmy Kilmister, do MotorheadFotos de Infância
Lemmy Kilmister, do Motorhead


Sobre Tatiana Porto

Tatiana Porto, 31 anos, química e doutoranda em bioquímica em terras inglesas. É movida a música e ciência. Fã de rock progressivo desde 1990, mas também gosta de rock clássico, rock e pop dos anos 70, 80 e 90, música clássica e eletrônico sem preconceitos.

Mais matérias de Tatiana Porto no Whiplash.Net.