Joe Strummer: Um herói a cada ano, não há coração que agüente

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Por Kid Vinil
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'Daddy was a bankrobber, but never hurt nobody
He just loved to lived that way
and he loved to steal your money"

Bankrobber - J.Strummer/M. Jones/1980

"White youth, black youth better find another solution
Why not phone up Robin Hood and ask for wealth distribution"

White man in Hammersmith Palais - J.Strummer/M.Jones/1978

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"London calling upon the zombies of death
Quit holding out - and draw another breath"

London Calling -J.Strummer/M.Jones/1979


Um herói a cada ano, assim não há coração que agüente! Primeiro foi Joey Ramone em 2001 e agora Joe Strummer. Dois caras responsáveis por um dos movimentos musicais mais importante de todos os tempos, o "punk rock".

Foram eles que me incentivaram no final da década de 70 a montar minha primeira banda punk, o Verminose.

"My baby´s drove off in a brand new caddilac....", estes foram os primeiros versos que aprendi a cantar ouvindo a canção de Vince Taylor interpretada pelo Clash.

Joe Strummer, desde que formou o Clash no início de 76, tinha algo de especial no seu jeito Humphrey Bogart e sua performance eletrificada.

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Desde seus primeiros passos com a banda 101´ers ( uma banda que tocava garage rock pelos pubs londrinos de 74/76), todos que o viam empunhando sua inseparável guitarra Fender Telecaster, já sentiam que aquele era o cara.

O Clash acabou se tornando uma química perfeita, quando chegou à sua formação clássica com seu parceiro Mick Jones na guitara e vocal, Paul Simonon no baixo e Topper Headon na bateria.

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O primeiro single foi lançado em março de 1977 e trazia as músicas "White Riot" e "1977".

Na letra de 1977 ironicamente Joe Strummer dizia: "Em 1977 eu espero ir para o céu" - recentemente após saber da sua morte um leitor da revista inglesa Mojo completa: "Obrigado Joe, pelos 25 anos a mais que você nos proporcionou".
O álbum de estréia lançado em agosto de 77, é outro marco na história do punk ao lado do primeiro dos Ramones. O disco é energia do começo ao fim, até mesmo na releitura de "Police and Thieves" um clássico da reggae music de Junior Marvin e Lee Perry. Eles diziam que nas passagens de som em estúdio eles estavam cansados de tocar as mesmas músicas e começaram a tocar alguns reggaes e foi assim que nasceu a idéia de regravarem "Police & Thieves" e o arranjo de guitarra foi criado por Mick Jones.

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Em Novembro de 78, chegava às lojas na Europa o segundo disco do Clash, que diferenciava bastante daquela urgência demonstrada no primeiro álbum.

Joe Strummer e Mick Jones foram nessa época pra Jamaica, por sugestão do empresário, para compor o novo disco, o resultado de "Give´em enough Rope" foi um disco muito mais produzido, as letras refletiam a Europa daqueles dias, um verdadeiro retrato político-social do continente.

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O Clash cada vez mais enveredava por novos caminhos. Ninguém podia prever o que viria depois, e antes de lançarem o bombástico "London Calling" eles colocaram na rua um EP chamado "The Cost of Living EP" que tem quatro faixas, entre elas a regravação de "I Fought the Law". Segundo Mick Jones, enquanto eles estavam em São Francisco gravando "Give ´em enough Rope", tinha uma jukebox no estúdio que tocava muita música dos anos sessenta, dentre elas, essa da Bobby Fuller Four, daí veio a idéia de regravá-la.

Mas, a grande porrada ainda estava por vir. Em 14 de Dezembro de 1979, o Clash lançava aquele que seria um dos clássicos da era punk, o álbum "London Calling".

Em janeiro de 1980 eu estava em Londres com um único objetivo, assistir ao Clash, custasse o que custasse. E foi o que aconteceu, apesar deles não estarem tocando exatamente em Londres: viajei cerca de 6 horas de trem até a cidade de Leeds, onde no auditório da Universidade o Clash se apresentaria.

Os ingressos estavam esgotados, não haviam cambistas, por se tratar de uma Universidade, então o que fazer?? Sair perguntando pra todos na fila quem poderia arranjar um ingresso para o pobre brasileiro, que viajou de tão longe para ver sua banda preferida? Foi então que um garoto me levou à secretaria da escola, onde um dos funcionários tinha o ingresso de seu filho para vender, pois o mesmo ficara doente naquele dia. Santa Doença! Não acreditei mas estava eu, ali dentro do imenso auditório para ver o Clash. Procurei um lugar estratégico onde pudesse ver tudo, e fiquei num balcão acima da platéia. A abertura foi feita por alguns DJ´s jamaicanos, dentre eles Mickey Dread.

E, finalmente entra o Clash no palco tocando "Safe European Home". Não resisti e caí em lágrimas. Foi a primeira vez que chorei ao ver alguém se apresentando, mas, pudera, a emoção foi demasiada, o sacrifício foi tanto, que não me contive. Meus ídolos no palco passavam uma energia tamanha, que dava impressão que um cometa ou algum furacão estava passando por ali naquele instante. Uma adrenalina inexplicável naquela comissão de frente composta por Joe Strummer, Mick Jones e Paul Simonon. O show praticamente seguiu com as novas músicas de "London Calling", afinal era a tour de lançamento do álbum. No meio do show um espaço para "White Riot" e ironicamente estoura uma briga no meio do público lá em baixo, abre-se uma clareira no meio da multidão e logo é dissipada pelos seguranças.

Trago até hoje comigo o livreto do show, camiseta da Tour e a lembrança de um dos mais belos shows da minha vida. São bens preciosíssimos!!!

Inflamado pela Clashmania voltei para o Brasil e comecei ao mesmo tempo um programa de rádio e a banda Verminose.

Em dezembro de 1980, o Clash mais uma vez surpreendia, e dessa vez lançava um álbum em vinil triplo. Para a época era um exagero, e principalmente para uma banda que vinha de um disco tão elogiado como London Calling. Infelizmente "Sandinista" não foi tão bem recebido pela crítica inglesa, mas os americanos só teceram elogios. Na verdade, esse pode ser considerado o disco mais difícil do Clash, onde a banda usa e abusa dos experimentalismos e da tecnologia da época, mas é um disco para ser melhor compreendido. Como sempre, o Clash não tinha a preocupação de se repetir e a inovação sempre foi a tônica na banda.


Depois de conquistarem a América, o Clash passou a absorver cada vez mais sua cultura e seus ícones, a semente havia sido plantada em "Sandinista" e culminou com o álbum "Combat Rock", lançado em Maio de 1982. Novamente, diferente de tudo que eles já haviam feito, "Combat Rock" atirou em várias direções e acerta hits radiofônicos como "Should I Stay or Should I Go".

Apesar do sucesso comercial que o Clash obteve nesse período, a banda começou com intrigas internas, primeiro com a saída do baterista Topper Headon, antes do lançamento de "Combat Rock". Imediatamente foi substituído pelo primeiro baterista do Clash, Terry Chimes, que também não durou muito e, em seguida Mick Jones deixa a banda para cuidar de seu novo projeto o Big Audio Dynamite. Mesmo assim Joe Strummer não desiste, contrata dois guitarrista para o lugar de Mick Jones e lança em Novembro de 84 o álbum "Cut The Crap", que recebeu severas críticas, sem dúvida o disco mais fraco do Clash.

Desencorajados pelas baixas vendas do disco e pelas críticas recebidas, Joe Strummer e Paul Simonon decidem no início de 86, acabar definitivamente com o Clash. Enquanto Mick Jones continuava com o Big Audio Dynamite, Paul Simonon tentou lançar sua própria banda Havana 3AM, mas fracassou e desistiu.

Joe Strummer fez algumas trilhas e lançou seu primeiro disco solo "Earthquake Weather", em 1989. Depois substituiu Shane McGowan, o vocalista do The Pogues, por algum tempo em 1990.

Depois de um certo silêncio e poucas aparições, finalmente em 1999 Joe Strummer lança o que pode ser considerado seu segundo álbum solo, mas dessa vez com a banda Mescaleros. Com o titulo de "Rock Art and the X Ray Style" , Joe Strummer mergulha naquilo que os ingleses chamam de "rock combo", uma vez que os Mescaleros são a tradução perfeita dessa mistura musical e poética inaugurada por Joe desde seus primórdios no Clash.

Joe Strummer & The Mescaleros passam a excursionar e aos poucos a pedido da platéia acaba incluindo músicas do Clash no repertório.

Durante o V2000, o festival de verão inglês, que aconteceu em agosto daquele ano, tive a oportunidade de entrevistar e conhecer pessoalmente meu ídolo. Um cara totalmente descontraído e muito à vontade quando falou comigo, comentando que o novo disco que estavam terminando e que sairia no ano seguinte, seria intitulado "Global A Go Go". Joe sempre foi um cara preocupado com as questões políticas de vários povos, principalmente seus irmãos jamaicanos, com quem tinha uma amizade muito grande. Nesse dia que o entrevistei, Joe estava com alguns DJs jamaicanos que me apresentou e falava sobre os problemas do povo na Jamaica e de um festival beneficente que estavam organizando para angariar fundos.

Ao comentar sobre a inclusão das músicas do Clash, disse que adorava tocar aquelas músicas, mas que até então descartava uma reunião da banda.

Foi somente em Novembro desse ano que abriu-se uma possibilidade de uma eventual reunião do Clash, quando Mick Jones subiu ao palco com ele e os Mescaleros num show beneficente na Inglaterra. Joe tinha acabado de gravar seu terceiro álbum com os Mescaleros, que naturalmente deve sair em 2003, estava em férias com a família e sofreu um ataque cardíaco fulminante. Como o destino pode ser tão cruel?

No álbum "Global A Go Go" Joe Strummer dedicava o disco a Joey Ramone. Quem sabe os dois se encontrem lá em cima e componham algumas músicas juntos... Só que essas canções inéditas nós só poderemos ouvir no nosso próximo estágio, quem sabe...?

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