Outro dia um velho rocker amigo meu me procurou para discutir as origens do nome rock 'n' roll. O nome, eu expliquei, foi cunhado por Alan Freed, um disc-jockey de Cleveland que depois se firmou em Nova York. Sua intenção era de tirar a pressão causada por pais de adolescentes brancos, preocupados pela alma de seus filhos que passaram a ouvir rhythm & blues, julgada por eles como sendo uma música pagã por ser criada e executada pelos negros. A solução simplória e politicamente correta de Freed foi de mudar o nome do gênero da música. Mas mesmo conhecendo esta história, uma pergunta persiste. De onde Alan Freed tirou o nome rock 'n' roll?
Segundo o que se sabe, Alan Freed apenas buscou um nome que ele julgava associar a música com a dança frenética que os adolescentes exercitavam. "To rock" é balançar e "to roll" é rolar. Basicamente o nome significa "Balançar e Rebolar". E as duas palavras (rock e roll) já vinham sendo usadas em canções e em seus títulos, portanto o nome lhe parecia muito natural e de fácil assimilação, o que de fato era.
O que Alan Freed não sabia é que o termo era, dentro da comunidade negra, um sinônimo para sexo. Exprimem dois movimentos naturais exercidos durante uma relação sexual, o balanço cadenciado de cima para baixo e o rebolar do casal em horizontal. E esta conotação passou a ficar mais popular nos anos vinte, segundo consta, com o surgimento de uma canção, lançada pelo Black Swan Records no outono de 1922: "My Daddy Rocks Me (With One Steady Roll)", gravada pela cantora Trixie Smith.

Com a chegada dos anos trinta, o termo rock já não se limita a sugerir a relação sexual de um casal, passando a ser usado como um adjetivo para ilustrar a sensualidade existente no ritmo da música. Um dos primeiros exemplos deste uso é com "Rockin' in Rhythm" de Duke Ellington, lançado pela Victor Records em 1931. Com o Duque, maneira que Duke Ellington era reverenciado, a palavra 'rock' conseguia popularidade não somente na comunidade negra mas tambem entre a população branca. Esta possivelmente seja a primeira vez que uma grande gama de pessoas da comunidade branca tenha ouvido a expressão.

Em fevereiro de 1948 uma música com o termo 'rock' finalmente conseguiria chegar a No.1 nas paradas do que eventualmente passaria a ser chamado de rhythm and blues ou simplesmente R&B. Digo eventualmente passaria a ser chamado porque com a segregação ainda como lei, os Estados Unidos mantinham praticamente duas sociedades e cidadanias distintas, dividas pela cor da pele. Até então, discos gravados por artistas negros para a comunidade negra, eram chamados de "race records", ou seja, discos da raça (negra). Mas as coisas iriam mudar de uma forma extremamente rápida, muito graças ao interesse do branco em ouvir e copiar esta música.
E um dos pivôs desta mudança seria "Good Rockin' Tonight", uma regravação de Wyona Harris de uma canção gravada originalmente por Roy Brown no ano anterior sem muito sucesso. Chegaria a número 1 nas paradas negras e seria novamente um sucesso quando regravado por Elvis Presley uma década depois. A canção fez tanto sucesso que todo mundo passou a usar o termo, como se fosse meio caminho para um sucesso de vendas. Iniciou-se uma sucessão de canções só no ano de 1948 com títulos como "Rockin' Boogie", "We're Gonna Rock", "Rockin' The House", "Rockin' At Midnight" e por aí vai.

Acontece que nos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial, iniciou-se no país um apogeu industrial. Depois da dura década que seguiu a queda da bolsa de valores, passou a ficar extremamente fácil encontrar emprego, comprar casa, carro e um sem número de eletrodomésticos recém inventados ou disponíveis agora pela primeira vez com preços compatíveis com a realidade da família de classe média. Os anos quarenta foram, segundo muitos, um ano sedado, onde a singularidade era mau vista, e o bom era a produção em massa. Assim nasciam ruas, as vezes bairros inteiros, onde cada casa era exatamente igual à outra, todas construídas juntas e vendidas com pagamentos facilitados a perder de vista em subúrbios recém urbanizados.
À margem desta paixão pela padronização cultural, artística e intelectual, estavam os poetas Beats, que a imprensa chamaria de beatniks (nome tirado do 'Sputnik', então recém lançado ao espaço pela Rússia), para impingir neles uma conotação de subversivos e sugerir possivel afiliação comunista. Apesar dos Beats conseguirem levantar questionamentos legais sobre a censura de livros dentro do país, o que acabaria mesmo mudando a América de seu raciocínio homogêneo para o heterogêneo seria o interesse pela música negra por parte dos brancos, que se intensificaria durante a década de cinqüenta. Este interesse, fez com que o rótulo de 'race records' passasse a incomodar os ouvintes brancos, pelo seu cunho racista. Foi então que Jerry Wexler, um judeu de Nova York que escrevia para a Billboard, cria a denominação Rhythm & Blues para esta música swingada, enraizada no blues. O termo pegou e 'race records' caiu em desuso.
Com a chegada de 1950, o termo rock já virara mania e praticamente dois terços do que se lançava de R&B o continha em seu título. Se fizerem a pesquisa, encontrarão entre 1950 e 1952, títulos como "I'm Gonna Rock", "How About Rockin' With Me", "Rock With It", "Rock With Me", "Rockin' With Red", "Rockin' The Blues", "Rockin' Blues", "Sausage Rock", "Rock The Joint", "Rock Me Baby", "Rocking On Sunday Night", "Rocket 88", "Rock, H-Bomb Rock" e porque não, "Rock, Rock, Rock".

É claro que o rock não é novo no sentindo de que saiu do nada. Ele é uma evolução natural do R&B, tendo de diferente basicamente o andamento. Little Richard certa vez definiria a diferença como rock sendo rhythm & blues em andamento acelerado. Ao chegar o ano de 1954, já teriamos Bill Haley abandonando sua carreira de músico de country & western para se dedicar exclusivamente ao rock; Little Richard e Chuck Berry já com seus primeiros compactos lançados; e Elvis Presley prestes a presentear sua mãe com uma gravação de sua voz feita na lojinha de Sam Phillips. Depois do sucesso de Elvis viria Carl Perkins e Jerry Lee Lewis, ambos com raízes no country, buscando aproveitar do recente interesse neste tal de rock 'n' roll.
Carros rápidos e meninas faceiras - os temas dominantes durante o restante da década.
Todas as matérias da seção Pé de Página
Os comentários são postados usando scripts do FACEBOOK e logins do FACEBOOK, HOTMAIL, AOL ou YAHOO, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de exclusiva e integral autoria e responsabilidade dos usuários que fizeram uso deste sistema (citados na assinatura de cada comentário). Caso você considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato. Os responsáveis pelo site podem excluir comentários que julgarem inadequados e fornecer informações sobre os comentários a reclamantes se solicitados.
Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.
Mais matérias de Márcio Ribeiro no Whiplash.Net.
QUEM SOMOS | RSS | FACEBOOK | TWITTER | NEWSLETTER | APPS | ANUNCIAR | ENVIAR MATERIAL | FALE CONOSCO
Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria. Os textos não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será retirado do site.
Em abril de 2012 Whiplash.Net teve 1.078.971 visitantes únicos, 2.974.068 visitas e 10.616.661 pageviews. Ver stats.