Lá fora o tempo está nublado. As coisas ao redor de mim estão todas fora do lugar. Livros, DVD’S, CD’S, papéis, roupas, revistas, flyers, souvenirs. “Fora do lugar”, talvez, seja apenas um sintoma de que, na verdade, elas já não têm espaço definido. Ao contrário: se entrelaçam, misturam, interagem, assumem novas formas e manifestações. Tornam-se, muitas vezes, indescritíveis. E nós ainda não sabemos lidar com isto. Administrar o caos não é uma tarefa fácil. No fundo, sempre que padrões são quebrados e tradições desfeitas e questionadas, quando nada mais é tão certo quanto era antes, a estranheza que nos sobrevém é natural. Estranheza geralmente acompanhada de rejeição, ceticismo reacionário e uma má vontade para o novo, o diferente. Rejeitamos porque não conhecemos. Tudo que não está no nosso domínio, que é o oposto daquilo a que estamos acostumados, que desafia a ordem comum do nosso mundo – ainda que idiossincrático – tendem a ser repelidas, atacadas e execradas. Antes de tudo, tememos o desconhecido sob todas as coisas. É onde não estamos seguros, onde todas nossas fragilidades se fazem presente, onde podemos ser expostos ao ridículo e descobrir, ainda que a contragosto, o quão somos fracos e limitados. E quem gosta de se expor a isto?
O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash! ou de seus editores.

Burial pratica um dubstep que já vai além do rótulo. Funde estilos estabelecidos com outros ainda incipientes e de definição complicada e duvidosa para se encaixar numa cena também imberbe e, ao mesmo tempo, ultrapassa as fronteiras dela. Percebe no que estamos nos metendo? Na ânsia de tentar definir e encaixar as coisas – um hábito e uma necessidade antiga – criamos inúmeros rótulos angustiados que visam explicar para nossas mentes mecanicistas e pragmáticas, sedentas por algo sólido que possam compreender, por que (o que e como) aquilo é o que é.
É o choque da tradição, do viés maniqueísta – certo ou errado, preto ou branco, bom ou ruim – com o mundo moderno. É como se tentássemos lidar com os novos elementos da sociedade, do comportamento, da música, utilizando a maneira arcaica, enrijecida e ordinária a que estamos acostumados. Há um conflito permanente aí. Uma era que já nasceu, desenvolveu e abarcou a todos e a tudo, o moderno, já expresso no pós-modernismo, convivendo dentro do estreito e limitado, porém forte e robusto casulo das tradições e convenções clássicas, da herança de um século ainda não digerido.
Numa das passagens mais populares de sua obra, ao avaliar como o capitalismo estava modificando a estrutura da sociedade em que vivemos, Marx disse:
"A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais. A conservação inalterada do antigo modo de produção constituía, pelo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. Essa revolução contínua da produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas; As relações que as substituem tornam-se antiquadas antes de se ossificar. Tudo que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas."
Para deixar claro: Marx foi um dos primeiros, e um dos mais brilhantes, a exaltar e reconhecer as maravilhas que o capitalismo criou. Ele não nega esta realidade, contudo, aponta para o centro do turbilhão e identifica os problemas, os ciclos e as peculiaridades deste novo estilo de vida, fundada sob o interesse burguês, classe que ascendeu ao poder principalmente após a Revolução Francesa. Resultando, assim, numa crítica social, filosófica, econômica e conceitual. Encara-lo como um velho utópico e desprovido de valor para os dias atuais só pode ser fruto de pessoas que nunca leram sua obra, não entendem bulhufas do que dizem e estão mais preocupadas em demonizar o socialismo do que qualquer outra coisa. Marx é, antes de tudo, um dos mais brilhantes filósofos da época moderna. Época esta que ressoa e se manifesta até hoje – potencializada, expandida, intensificada – mas plenamente identificável em suas palavras, bem como na de inúmeros outros pensadores “antigos”.
O que isto tem a ver com música, afinal?
Tudo.
Ou seria a música uma entidade alheia ao mundo, à sociedade e ao tempo em que está inserida? Ou ficaria ela ilesa ao que acontece a sua volta? Não seria ela passível de influências? Não está imersa nas engrenagens – do mercado, das atribulações, do público, do show, das idéias?
As pessoas, ao terem seu comportamento, sua rotina, seu fator econômico, social, seus meios de comunicação, suas referências, sua alimentação, a noção de tempo, amor, sexo, idade, relações familiares, sentimentais, conjugais, a tecnologia, os filmes, a literatura, as idéias, a moda, a imprensa, o transporte, enfim, a vida, em toda sua amplitude, modificada, abalada, reestruturada, corroída e questionada, também não produziriam música diferente? Os compositores, absorvidos por tal quadro, não sairiam transformados deste processo?






E, embora este aforismo defina com precisão como a encaro, pensar sobre música e tentar enxergar as implicações que ela traz sobre nós, amantes e cúmplices desta arte, é um exercício delicioso – e necessário.
Ela, como tudo, vêm sofrendo profundas mudanças e alterações ao longo do tempo. A segunda metade do século XX em diante, não por acaso, registrou as maiores inovações e criações que se têm notícia. Tanto em termos técnicos – tecnologia, instrumentos, aparelhagem – como na organização (mercado, gravadoras, produtores, mídia), e principalmente na sonoridade, com inúmeros estilos surgindo, se fundindo, amadurecendo.
Reflexo, apenas, de todas as outras mudanças que a sociedade onde estamos inseridos viveu e vive.
No aspecto sonoro, uma das mais interessantes, ricas e multiformes, não por acaso, é a música eletrônica. Emergida até o tutano dentro do contexto citado, o pós-modernismo, o eletrônico, evoluindo principalmente através dos seminais Tangerine Dream e Kraftwerk, gerou algumas das principais mudanças observadas, embalando toda uma geração e sempre se adaptando, ressurgindo, dando origem a novos filhos, penetrando boa parte do cenário e indo muito além do seu nicho específico. Está presente, ainda que em sutis toques, nos mais variados estilos possíveis. É fruto direto de nosso tempo. E é tão fragmentada, indefinida, corrupta, caótica, urbana e voluptuosa como nossa própria vida, nossa própria forma cambaleante de tatear o escuro, o típico perdido e paradoxal homem moderno. Como o que Burial produz.
Cultuamos o novo, disto não há dúvida. O ode à novidade, às inovações e a tudo que é mais recente, mais fresco, é uma necessidade intrínseca do capitalismo, do mercado, da imprensa e, por extensão, nossa. Portanto, nada mais “natural” que hypes explodam a todo momento, que modas apareçam, que uma banda recém surgida consiga atingir graus de louvação inconcebíveis – nós sempre nos entusiasmamos com novidades – e, muitas vezes, necessitamos de um maior convívio, de uma análise mais demorada, de um envolvimento mais longo, para que nos tornemos um pouco mais sóbrios em relação ao objeto, à música, à pessoa, ao grupo abordado. É o combustível do novo que move o mundo. E, ao mesmo tempo, estamos tão apegados ao “passado”, tão tradicionais, tão reféns de convenções, tão reacionários, rechaçando muito do que se apresenta, se anuncia. Somos seres rígidos e secos, obrigados a nos locomover frente a um mundo que é muito mais rápido do que podemos acompanhar. Antes que nos levantemos, já tomamos uma seqüência impiedosa de choques, dados, informações, novidades e “necessidades” na cabeça. Até que atingimos um estado quase fronteiriço entre a vida e a morte, o sonho e a realidade. Até que fiquemos atordoados, sem tempo para reagir. E assim vamos. Vai uma pílula azul aí?
Na música, isto tudo se exprime de infinitas formas. Já não dá para restringir em prateleiras este ou aquele artista, há muito, aliás, é ofensivo tentar encaixar em pequenos currais o que muitas bandas praticam.
Por exemplo, o que você diria de Talking Heads, Mars Volta, Flaming Lips, TV On The Radio, Gang Of Four, Afghan Wigs, Arcade Fire, Manic Street Preachers, Morphine, Beta Band, DJ Shadow, Sonic Youth, Beastie Boys, Pavement, Aphex Twin, Tortoise, Dave Matthews, Faith No More, Wilco, My Bloody Valentine, Neutral Milk Hotel, Asian Dub Foundation, Massive Attack, Mono, Goldfrapp, Broken Social Scene, etc, etc, etc...?
Embora seja possível classificá-los sob certos rótulos, é, como dito, arbitrário e insuficiente restringi-los. Nomes, tanto de décadas anteriores, como da atual, trazem um horizonte amplo e aberto para a música, construindo melodias, estruturas e harmonias muitas vezes anti-convencionais, brincando, no fundo, com as diversas possibilidades existentes.
Movin’ Up trata disto: m-ú-s-i-c-a.
Talvez um pouco pretensa a jornalismo cultural. Outsider, inquisitiva, ácida. Mais crítica e menos resenha. Privilegia a discussão e o embate. Mais apontamentos que sentenças. Insinua ao invés de impor. Questiona antes de afirmar. O contexto, não o isolamento. Errônea, paradoxal e moderna. Com orgulho de sê-lo. Consciente, não alienada. Tudo ao mesmo tempo agora. Everything all the time, right here, right now.
É sobre todos os estilos de música que normalmente não encontram lugar nas páginas do Whiplash! e/ou aparecem muito pouco. Tanto para preencher uma lacuna editorial, como para gerar fissuras diversas, quebras, caminhos, relações.
Movin’ “On” Up é nada mais do que mover-se, não ficar parado. Sem espaço para a letargia e a acomodação. É a vida, em suma, acontecendo. Como diz a psicologia, quando não consigo apresentar mudanças, oscilações e processos, estou doente. A pluralidade identificatória vai até a morte. O centro da vida psíquica é a ação e devemos reassumir a condição de autor de si próprio, por sermos os construtores do mundo em que habitamos.
Responsáveis – única e exclusivamente – pelas nossas escolhas, aquilo que fazemos. É para pensar tudo isto, e discutir música, em suas infindas manifestações, que esta coluna nasce. O convite está feito. Até breve.
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Maurício G. Angelo odeia definições. Acha que não entende nada de música, mas o suficiente. Pseudo-jornalista, pseudo-crítico e pseudo-escritor. Não gosta de explicar ironia. Escreve no Whiplash! desde 2003. Colaborou para uma série de veículos, como a revista Roadie Crew e os sites Rock Press, Duplipensar e Simplicíssimo. Ouve tudo aquilo que lhe interesse: do blues ao metal extremo, passando pelo pop, progressivo, clássico, jazz, eletrônico e MPB. Peca pelo tesão, nunca pela inércia. Alfabetizado, chato, detalhista e exigente: está continuamente tentando aprender a ler, e tem orgulho disso. Passou bons momentos ao lado de Rubem Braga, George Orwell, Pink Floyd e tantos outros. É apaixonado por palavras, pelo som e pelo silêncio. Erra muito. Muda mais ainda. E se permite ser hiperbólico, às vezes.
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