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Sobre a vivência de um roadie

Por Renato Cardoso |

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

Cedo acorda e vai de bicicleta até a casa do músico. Falta o ginásio, e mal avisa a mãe que vai ficar um dia fora. Os braços ainda estão dormentes do sono, mas logo começa a trazer os amplificadores para a van: primeiro os maiores e mais pesados para ir encaixando o resto menor depois. O mau jeito na coluna vai relembrando, até a cidade que ocorrerá o show, para não ir carregando peso sem antes alongar. Já está de tardezinha e chega ao destino: descarrega tudo no palco, liga os cabos, refaz a maioria das coisas de novo já que o dono do bar, que chega atrasado, diz que assim o público não vai aproveitar muito bem a apresentação. Observa a passagem de som pensando sobre o lanche: “aumenta o vocal”! Quando os músicos terminam, todo mundo pra lanchonete mais vagabunda e mais próxima para uma refeição nada nutritiva. Enquanto os músicos vão para o hotel tomar banho e passar perfume indagando quantas garotas haverá para dizer-lhes que são lindos, o roadie ainda lembra do mau jeito nas costas.

Alta noite, horário atrasado, a primeira música começa: muitas outras virão pela frente. O roadie só tem espaço para pensar quando que vai arranjar uma banda que preste para estar ele lá em cima do palco. Show sem problemas, já vai começar o bis. E até que passou rápido! Quem vai dar a canja é quase um amador; na empolgação, como se aquele momento fosse o único em sua vida que estaria num palco, chutou sem querer um pedestal, que na vista do roadie foi caindo de vagarinho, como um filme em câmera lenta. Poucos ali sabiam o que acontece quando um microfone se choca com o chão: Tum, chh, piiiiiiiiiiii. Depois daquilo todo saberiam. Pelo menos foi por um curto tempo, o roadie estava ágil enquanto a câmera estava lenta e aliviou o público de desconforto que poderia durar uns minutos a mais.

Fim das músicas. As garotas em grande número fazendo o papel delas. Empresário vendendo os CDS. Olha-se para aquele palco tão bonito e percebe que tudo já acabou. Ao esvaziar da casa, começa a desmontagem. As costas foram muito bem esticadas dessa vez, mas a dor já tinha se instalado. Mesmo assim, no cansaço tudo é feito de bom grado, com o rosto quase sem expressão, cabelo embaraçado e a boca bocejando. Por fim, conhece sua cama de uma noite. Poucas horas de sono não suprem o cansaço: mas quanto mais cedo sairmos... De volta para a casa.

Descarrega tudo. O amplificador nem pesa mais, o braço está amortecido. A bicicleta vai enferrujar: ficou exposta a chuva. Pedalando de volta, pensando em deitar numa cama de verdade. Esqueceu que tinha tarefa, meu filho. Ainda era ginasiano e tinha seus afazeres. Essa vida não te leva longe. Ainda sim, é bom estar perto do ambiente em que se deseja trabalhar, mesmo que do outro lado.

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