A única banda em que Geddy Lee entraria "sem pensar duas vezes"
Por Bruce William
Postado em 26 de junho de 2026
Geddy Lee sempre esteve associado a uma ideia muito forte de banda. O Rush não parecia apenas um grupo em que três músicos dividiam palco e estúdio, mas uma engrenagem fechada, construída ao longo de décadas por Lee, Alex Lifeson e Neil Peart. Mesmo Peart, que entrou depois do primeiro álbum, virou parte tão essencial daquela identidade que imaginar o Rush sem ele passou a soar quase como imaginar outra banda.
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Por isso, quando Geddy fala sobre tocar com outro grupo, a coisa chama atenção. Não é o tipo de músico que passou a vida pulando de projeto em projeto ou procurando uma vaga em outra máquina famosa. O Rush era seu território. Ainda assim, há uma banda em que ele disse que entraria sem pensar duas vezes: The Who.
Segundo a Far Out, Lee já foi perguntado sobre qual banda aceitaria integrar. A resposta veio acompanhada de uma razão afetiva e musical. Ele não queria apenas tocar com Pete Townshend e Roger Daltrey por admiração ao repertório. Havia ali também a sombra de John Entwistle, baixista do The Who e um dos grandes heróis de Geddy. "Eu entraria no The Who e tocaria baixo, porque um dos meus heróis não está mais entre nós. [A música que eu gostaria de ter escrito] é 'Won't Get Fooled Again', do The Who."
Entwistle não tratava o baixo como um instrumento condenado a ficar no canto, apenas reforçando a guitarra e a bateria. No The Who, ele muitas vezes parecia disputar espaço com todo mundo, mas sem transformar aquilo em bagunça. Enquanto Townshend segurava boa parte da estrutura rítmica com a guitarra, Entwistle encontrava liberdade para correr pelo braço do instrumento. Basta lembrar "My Generation", com seu solo de baixo, ou "The Real Me", em que Entwistle transforma a linha grave em uma espécie de ataque permanente. Ele não tocava para enfeitar. Tocava como se o baixo pudesse ser uma voz tão reconhecível quanto a guitarra, o vocal ou a bateria. Para um músico como Geddy Lee, isso era mais do que influência: era permissão.
O Rush também nasceu com muito hard rock no DNA antes de expandir sua linguagem para composições mais longas e intrincadas. Nesse começo, o impacto de bandas como Led Zeppelin e The Who era muito claro. Lee, com sua voz aguda e seu baixo agressivo, encontrou um caminho próprio, mas a escola de Entwistle estava ali: tocar com força, ocupar espaço e fazer o instrumento conduzir a música em vez de apenas acompanhá-la.
Entwistle tinha ainda uma qualidade que interessava muito a Lee: complexidade sem perder personalidade. Mesmo em canções relativamente diretas, ele colocava voltas inesperadas, notas rápidas, frases melódicas e soluções que outro baixista talvez nem tentasse. Seu estilo fazia o baixo parecer menos um alicerce discreto e mais uma arquitetura inteira correndo por baixo da música.
A comparação também ajuda a entender por que Geddy se imaginava naquele lugar. Ele jamais poderia "substituir" Entwistle no sentido real da palavra, porque certos músicos deixam uma assinatura impossível de apagar. Mas poderia dialogar com aquele repertório a partir de uma afinidade profunda: dois baixistas que nunca aceitaram a função como limite.
"Won't Get Fooled Again", citada por Lee como a música que gostaria de ter escrito, também resume a força do The Who em outra escala. A faixa tem peso, catarse, construção dramática e um senso de explosão que atravessa gerações. Não é difícil imaginar por que ela mexeria com alguém que sempre valorizou música ambiciosa, física e emocional ao mesmo tempo.
Geddy Lee passou a vida inteira no Rush, e isso não parece ter sido uma prisão. Pelo contrário: era o lugar onde podia ser ele mesmo com liberdade quase total. Mas a hipótese de tocar no The Who revela uma dívida antiga, daquelas que atravessam a carreira sem precisar virar cópia.
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