O álbum do Nirvana que Kurt Cobain mais se orgulhava de ter feito
Por Bruce William
Postado em 26 de junho de 2026
"Nevermind" deu ao Nirvana o tipo de vitória que parece sonho até começar a cobrar juros. O disco lançado em 1991 transformou uma banda vinda do circuito alternativo em fenômeno mundial, derrubou Michael Jackson do topo da parada americana e colocou Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl no centro de uma história que eles mesmos não pareciam muito preparados para administrar.
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No começo, é claro, havia motivo para comemorar. "Nevermind" era um salto imenso em relação a "Bleach", estreia gravada com pouco dinheiro e muito desejo de escapar do anonimato. Mas a mesma produção polida que ajudou o álbum a atravessar fronteiras também começou a incomodar Cobain. O Nirvana tinha chegado a uma plateia gigantesca, só que a embalagem daquele sucesso parecia limpa demais para uma banda que ainda se via ligada ao punk, ao ruído e ao desconforto.
Por isso "In Utero", lançado em 1993, nasceu carregado de intenção. Não era apenas o terceiro álbum do Nirvana. Era uma tentativa de empurrar de volta parte do público que havia entrado pela porta aberta por "Nevermind", ou ao menos de deixar claro que a banda não queria repetir a fórmula mais radiofônica do sucesso anterior. A primeira frase de "Serve the Servants" já parecia comentar o próprio fenômeno: a angústia adolescente havia pago bem, e agora vinha o tédio, o desgaste e a ironia.
Segundo a Far Out, Cobain falou naquele período com entusiasmo raro sobre o resultado de "In Utero". Para ele, o disco finalmente aproximava o Nirvana daquilo que a banda ouvia por dentro, mas ainda não tinha conseguido registrar da maneira certa: "Chris [Novoselic], Dave [Grohl] e eu estamos totalmente empolgados com ele. Este é o som que tínhamos na cabeça e que nunca conseguimos transferir. Este é o som que sempre sentimos que o Nirvana deveria ter, então finalmente encontramos um produtor que faria isso."
Esse produtor era Steve Albini, nome associado a gravações cruas, pouco interessadas em suavizar arestas. Albini havia trabalhado em "Rid of Me", de PJ Harvey, e sua abordagem combinava com o desejo do Nirvana de soar menos domesticado. Em vez de lixar as imperfeições, "In Utero" parecia interessado em deixá-las visíveis: bateria seca, guitarras ásperas, vocais expostos e uma sensação de que o disco podia incomodar mesmo quando trazia melodias fortes.
A gravadora, naturalmente, não recebeu tudo isso com tranquilidade. O Nirvana vinha de um fenômeno comercial, e qualquer coisa que parecesse menos acessível virava risco. Parte do álbum acabou passando por remixes de Scott Litt, conhecido por seu trabalho com o R.E.M., especialmente em faixas como "Heart-Shaped Box" e "All Apologies". A tensão era previsível: Cobain queria recuperar uma aspereza; o mercado queria outro disco capaz de circular sem assustar tanto.
Mesmo assim, "In Utero" não é apenas uma sabotagem de "Nevermind". Essa seria uma leitura fácil demais. O disco tem raiva, feiura e recusa, mas também tem algumas das composições mais fortes de Cobain. "Heart-Shaped Box", "Pennyroyal Tea", "Dumb" e "All Apologies" mostram um compositor que podia soar frágil, sarcástico e brutal dentro da mesma música. A produção mais dura não escondia as canções; em muitos momentos, deixava a dor mais perto.
"In Utero" acabou se tornando o último álbum de estúdio do Nirvana, o que torna tudo mais pesado em retrospecto. Mas ele não precisa ser lembrado apenas como despedida involuntária. É também o registro de uma banda tentando recuperar o controle sobre o próprio som depois de ser engolida por um sucesso que ninguém previa naquela escala.
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