Gravadoras: livro relata erros cometidos pela indústria musical

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Gravadoras: livro relata erros cometidos pela indústria musical

Traduzido por Nacho Belgrande

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O tradicional jornal americano The New York Times, em sua edição de 6 de janeiro passado, escolheu como destaque dos lançamentos do mercado editorial daquela semana um livro do jornalista americano Steve Knopper sobre como a indústria fonográfica cometeu uma sucessão de erros que a levaria, eventualmente, à sua bancarrota.

O que segue é a resenha do New York Times para a obra, sucedida pela íntegra da “orelha” do livro, ainda não disponível em português.

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Quando As Gravadoras Lutaram Contra o Digital, e o Digital Venceu

(nota do tradutor: referência à letra da música eternizada pelo grupo inglês The Clash, onde o refrão bradava “I Fought The Law/And The Law Won” [Eu lutei conta a lei/e a lei venceu]).

Por DWIGHT GARNER
Publicado originalmente em 6 de Janeiro de 2009

“Não dá pra enrolar um baseado num iPod,” disse a cantora/compositora Shelby Lynne à Revista do New York Times no começo do ano passado. E, ok, eu acho que isso está entre as desvantagens do iPod. Mas é difícil pensar num recurso eletrônico lançado nas últimas décadas que tenha trazido mais prazer a mais pessoas do que ele.

Alguém deveria se importar com o fato de que, nesse processo, o iPod tenha matado a indústria musical que conhecíamos? Talvez não, escreve Steve Knopper em “Apetite For Self-Destruction,” (A Espetacular Queda da Indústria Fonográfica na Era Digital, Steve Knopper, 301 páginas, Free Press, $26 dólares) sua incisiva versão dos erros que as grandes gravadoras cometeram desde o fim do LP e a chegada da música digital. Estes dinossauros, sugere ele, são responsáveis em grande parte por sua própria extinção.

O Sr. Knopper, um editor-colaborador da (publicação de entretenimento norte-americana) Rolling Stone, fornece uma visão angular e moralmente complicada do atual estado da indústria da música. Ele não deixa os que copiam e gravam CDs entre nós – ou seja, aqueles que baixam canções digitalizadas sem pagar por elas, e vocês sabem quem vocês são - inteiramente sem culpa. Mas ele sugere que mesmo com um pouco de visão, os selos musicais poderiam ter se adaptado às brutais e complicadas novas realidades da Internet e sobrevivido.

Essa é uma história que começa nos primórdios dos anos 80, quando a música digital chegou, primeiramente na forma do CD. A princípio, sugere o Sr. Knopper, quase todo mundo estava apavorado com esses pequenos e reluzentes novos brinquedos.

As gravadoras se preocuparam com a pirataria digital e como adaptar as fábricas que produziam LPs de vinil. As lojas de discos não queriam comprar novas prateleiras de exposição. Os produtores se preocupavam com os efeitos nas sessões de gravação, agora que qualquer passo e batida de porta seriam audíveis. Um grupo chamado MAD (Musicians Against Digital – Músicos Contra o Digital) formou-se prontamente, e artistas como Neil Young declararam que os CDs não tinham alma.

“A mente foi enganada,” disse Young na época, parecendo um pouco como (o personagem da série cinematográfica ‘Guerra Nas Estrelas’) Yoda, “mas o coração está triste.”

Os selos entraram no meio porque eles poderiam subir os preços. (LPs, na época, eram vendidos por cerca de 9 dólares; a maioria dos CDs custava quase o dobro disso.) As gravadoras também podiam renegociar contratos com artistas e forçar os consumidores a comprar coleções de discos inteiras novamente. De acordo com Knopper, os executivos também achavam que era legal assistir “àquela gavetinha abrir e fechar” nos CD players.

Os produtores e artistas também se uniram, afirma Knopper, porque o CD “simplesmente tinha um som melhor do que o LP, não importa o quanto seus detratores queixem-se até hoje sobre a perda do som analógico rico e quente.” Mas as lojas de discos permaneceram na resistência, e assim a existência das capas de papelão e das “longboxes” de plástico – lembram-se delas? - continuou até o começo dos anos 90 (o autor nos lembra de que no filme “Defending Your Life” o personagem de Albert Brooks morre ao tentar abrir uma enquanto dirigia).

“O boom do CD durou de 1984 a 2000”, escreve Knopper. Daí o restante de velhos erros e uma onda de novas realidades começou a martelar a indústria musical por todos os lados.
Uma das primeiras coisas que os selos fizeram de errado, diz Knopper, foi a eliminação do single. Isso forçou os jovens a largarem o hábito de visitar lojas de discos com regularidade e forçou-os a comprar um disco inteiro para ter a canção que eles queriam. A curto prazo isso era uma boa prática de comércio. A longo prazo isso provocou animosidade. Foi suicida.

Quando o Napster e outros websites de compartilhamento de música apareceram, o single voltou para se vingar. Em pouco tempo, o MP3 – o termo comumente usado para arquivos de áudio digitalmente comprimidos e facilmente trocados – tivesse substituído o sexo como o termo mais procurado em sites como Yahoo! e AltaVista.

A indústria musical travou a vinda do Napster. Ao invés de fechar um acordo com o serviço que tinha mais de 26 milhões de usuários, os selos o processaram, forçando-o a fechar. O resultado, escreve Knopper, foi que os usuários simplesmente se fracionaram, indo para muitos outros sites de compartilhamento de arquivos. “Aquela foi a última chance,” ele declara, “para a indústria fonográfica que conhecemos livrar-se da ruína certa.”

Algumas das sementes dessa epopéia foram plantadas muito antes, durante uma briga da indústria no meio dos anos 80 pela Digital Áudio Tape (DAT). Dispositivos foram instalador nos tocadores dessas fitas para limitar cópias. Mas os selos tiveram pouca visão ao ignorarem as copiadoras de CD nos computadores. Os usuários podiam copiar música quase infinitamente nelas. Oops. “Eles vacilaram,” um executivo de vendas da Sony disse. “Completamente.”

As seções finais de “Apetite for Self-Destruction” descrevem a chegada de Steve Jobs e da Apple no pedaço. O lançamento do iPod foi um tipo de tiro de misericórdia para a indústria moribunda. Em pouco tempo, a Apple tornou-se a maior varejista de música dos EUA. Os executivos da música observavam, catatônicos e indefesos. “A Apple tinha basicamente tomado todo o mercado musical,” escreve Knopper.
Ele pinta um quadro devastador de jabaculê, corrupção, ganância e má fé da indústria ao longo de décadas. ("Esse negócio não é cheio de Martin Luther Kings,” um ex-executivo da música admite.)

É uma pena que esses interessantes argumentos e observações estejam tão misturados num livro pouco gratificante. A prosa em “Apetite for self-Destruction” é mal-passada, cheia de clichês (as apostas são sempre altas, pessoas constantemente têm seu tapete puxado, vendetas são executadas) e descrições estranhas. Michael Jackson “dançava como um anjo para trás, estrilava e gritava agudos”; o executivo da Sony Tommy Mottola “vestia correntes de ouro e jaquetas de couro roxo e tinha um visual cool.”

Além disso, Knopper aparentemente não teve acesso a muitos dos figurões dessa história, incluindo o Sr. Jobs. Sua versão recicla material coberto em livros mais antigos e melhores, como “Hit Men” de Fredric Dannen e “The Perfect Thing” de Steven Levy.

As gravadoras acharam, nos últimos anos, algumas novas razões para ter fé. Ringtones tornaram-se um negócio sério. Jogos para computador como Guitar Hero e Rock Band decolaram, e precisam ser alimentados com músicas novas. E sempre haverá a esperança que o quase monopólio da Apple sobre as vendas de música será quebrado por outros mecanismos e serviços, permitindo aos selos pechinchar por uma fatia maior na venda de canções.

Essa poderia ser uma longa espera. A Apple será sempre difícil de bater. O Sr. Jobs está provavelmente trabalhando agora num iPod que vai enrolar o baseado de Shelby Lynne pra ela.

Este artigo foi revisado para refletir a seguinte correção, feita em 14 de janeiro de 2009:

A resenha do Livro do (New York) Times na última quarta-feira, sobre “Apetite for Self-Destruction: A Espetacular Queda da Indústria Musical na era Digital, “ por Steve Knopper, referiu-se erroneamente aos esforços de limitar a cópia de música nas fitas DAT (Digital Audio Tapes) no meio dos anos 80. Dispositivos chamados de widgets foram instalados em tocadores de fita para limitar as cópias; as gravadoras não os instalaram nas fitas em si.

Descrição/Orelha

Pela primeira vez, "Apetite for Self-Destruction" reconta a história épica da eminente ascensão e queda da indústria musical ao longo das últimas três décadas, quando o sucesso inacreditável do CD tornou o mercado musical numa das indústrias mais glamurosas e poderosas no mundo – e o advento do compartilhamento de arquivos a pôs de joelhos. Num relato abrangente e ágil, cheio de personalidades grandiosas, o editor colaborador da Rolling Stone, Steve Knopper mostra que, depois da incrível riqueza e excesso dos anos 80 e 90, a Sony, a Warner e as outras potências causaram sua própria queda ao longo de anos de negação e decisões ruins mediante os avanços dramáticos da tecnologia.

A indústria musical tem estado dormindo ao volante desde que o Napster revolucionou a maneira que a música era distribuída nos anos 90. Agora, uma vez que pessoas poderosas como Doug Morris e Tommy Mottola falharam ao reconhecer o incrível potencial da tecnologia de compartilhamento de arquivos, os selos fonográficos estão em risco de tornarem-se completamente obsoletos. Knopper, que tem escrito sobre a indústria por mais de dez anos, tem acesso único àqueles intimamente envolvidos nos altos e baixos do mundo da música.

Baseado em entrevistas com mais de duzentas fontes da indústria musical – desde o diretor da Warner Music Edgar Bronfman Jr. até o renegado criador do Napster, Shawn Fanning – Knopper é o primeiro a oferecer tão detalhado e arrebatador histórico contemporâneo da selvagem incursão da indústria ao longo das três últimas décadas. Do nascimento do CD, passando pela explosão das vendas do formato nos anos 80 e 90, a ascensão do Napster, e as conferências secretas que levaram ao iTunes, até o atual colapso da indústria enquanto as vendas de CD caem vertiginosamente, Knopper nos leva para dentro de salas de reunião, estúdios de gravação, grandes propriedades privadas, laboratórios de informática em garagens, jatos particulares, conflitos corporativos, e negociatas secretas dos nomes célebres e os poderosos dos bastidores que fizeram tudo isso acontecer.

Com retratos inesquecíveis dos poderosos e ex-poderosos do mundo da música, relatos detalhados de idéias tanto brilhantes como estúpidas trazidas à execução ou deixadas na sala de edição; os podres em esquemas escusos, negociatas e brigas, e muitas histórias jamais antes reportadas, Apetite for Self-Destruction é uma leitura arrebatadora, informativa e altamente divertida. Ele oferece uma ampla perspectiva do atual estado da indústria musical, como ela entrou nesses caminhos sinuosos e pra onde ela vai – uma história de alerta para a era digital.

Fontes:
NY Times
Simon & Schuster

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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande, 33 anos, residente em Marilia - SP, é professor de inglês e francês, apesar de formado em Técnico de Engenharia de Estúdio pelo Recording Workshop de Los Angeles, nos EUA. Suas lembranças musicais mais remotas datam de 1983, com a fervilhante passagem do Kiss pelo Brasil e da alta popularidade do Queen no país. Fã(nático) por Mötley Crüe (de quem tem mais de 100 CDs), segue de perto também o trabalho de Slayer, Krisiun, Guns N´ Roses, Van Halen e Ozzy Osbourne, entre outros.

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