Lynyrd Skynyrd: A banda não ficou parada no tempo
Resenha - God & Guns - Lynyrd Skynyrd
Por Paulo Finatto Jr.
Postado em 30 de dezembro de 2011
Nota: 8 ![]()
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No ano em que se apresentou pela primeira vez no Brasil, os norte-americanos do LYNYRD SKYNYRD reacenderam um antigo amor do público nacional: o southern rock. A banda, que vai completar quarenta anos de carreira em 2012, aproveitou o show no festival SWU para reviver também o seu mais recente álbum, intitulado "God & Guns". Embora o disco tenha deixado um pouco de lado a essência do estilo que o grupo ajudou a criar na década de setenta, a "nova" fase de Johnny Van Zant & Cia. ainda tem muito cartucho para queimar.
Não há dúvidas quanto a importância do LYNYRD SKYNYRD para a história do rock n’ roll. O show da banda no SWU em novembro de 2011 – provavelmente a performance mais esperada entre todos os nomes nacionais e internacionais que passaram pelo festival em Paulínia (SP) – comprovou muito bem isso. Por outro lado, a banda possui contornos ainda mais místicos em território brasileiro, sobretudo pelo fato de ser extremamente complicado encontrar os discos da banda em versão nacional. O recente "God & Guns" é a prova maior: mesmo que a banda tenha contrato com a Roadrunner Records, os fãs precisam desembolsar mais de R$ 100 pelo álbum importado, que não é encontrado com facilidade. O que se espera é que as coisas mudem – para melhor – depois do SWU.
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A maior verdade por trás de "God & Guns" é que os norte-americanos não pararam no tempo. Em "Vicious Cycle" (2003), um dos melhores discos do LYNYRD SKYNYRD desde o retorno do grupo em 1987, o que se percebeu foi uma evolução natural na sonoridade do conjunto, cada vez mais próxima do hard rock, mas sem abrir totalmente mão das raízes sulistas. O repertório de "God & Guns" renova essa tendência, mas com um quê comercial bastante evidente em faixas mais curtas e de melodias fáceis. Entretanto, os cerca de cinquenta minutos evidenciam ótimos momentos e toda a competência de Johnny Van Zant & Cia. para compor músicas interessantíssimas. Por mais que destoe um pouco do que os fãs mais saudosistas esperariam do LYNYRD SKYNYRD, o resultado do material é de encher os olhos.
O grupo trabalhou por quase dois anos em cima do álbum. Nesse período, o baixista Ean Evans e o tecladista Billy Powell – ambos faleceram em 2009 – contribuíram pela última vez com o LYNYRD SKYNYRD em estúdio. Outra despedida é a do ex-guitarrista Hughie Tomasson – esse falecido em 2007 – que ajudou a escrever uma das músicas mais marcantes de "God & Guns". Com o produtor Bob Marlette (ALICE COOPER e SEBASTIAN BACH), Johnny Van Zant (vocal), o trio Gary Rossington, Rickey Medlocke e Mark Matejka (guitarras), Roberto Kearns (baixo), Peter Keys (teclado) e Michael Cartellone (bateria) entraram em três diferentes estúdios dos Estados Unidos, juntamente com as cantoras de apoio Dale Krantz Rossington e Carol Chase para registrar cada detalhe sonoro de "God & Guns".
É no mínimo curiosa a forma com que "God & Guns" abre. A banda, que sempre optou por músicas animadas e divertidas para isso, escolheu a sublime "Still Unbroken" para iniciar o track-list. A música não só encerra com chave de ouro o ciclo de Hughie Tomasson com o conjunto como ainda fala muito sobre a própria história do LYNYRD SKYNYRD. A faixa é de arrepiar e deve ser citada com frequência pelos fãs como a favorita deles em "God & Guns". De outro lado, "Simple Life" é aquela típica música que celebra o ‘southern way of life’ – filosofia de vida abordada com certa insistência pela banda em todos esses anos. Embora seja uma faixa bastante agradável e que mal ultrapassa a marca dos três minutos, o resultado é apenas razoável. O grupo deixou sobressair um pouco de pop/rock, característica que não se mostra assim tão pertinente ao gênero southern/hard rock.
A característica mais marcante de "Vicious Cycle" (2003) reparece em diversos momentos de "God & Guns": as melodias marcantes das faixas mais pesadas. A música "Little Thing Called You" é a que melhor resume isso e funciona muitíssimo bem no contexto do álbum. Do mesmo modo, a cadenciada (e muito bonita) "Southern Ways" contribuiu decisivamente para que "God & Guns" se torne uma obra homogêna (pela qualidade) e heterogênea (pelo apanhado de diferentes sonoridades). Porém, a animada "Skynyrd Nation" é a faixa que corrobora para a teoria de que o LYNYRD SKYNYRD ainda tem muito cartucho para queimar. A única faixa nova executada no show da banda no Brasil é vibrante ao extremo e mostra o quanto ainda é decisivo o trabalho da dupla Rickey Medlocke e Johnny Van Zant para o sucesso do grupo.
De impacto menor se comparada com a sua antecessora – mas também importante para o contexto do álbum –, a cadenciada "Unwrite that Song" é outra bonita surpresa encontrada em "God & Guns". Com uma performance magnífica de Johnny Van Zant (às vezes me pergunto se ele não estaria em um nível acima – como cantor – do seu irmão Ronnie Van Zant), a música possui a mesma proposta de "Southern Ways", mas consegue ser ainda mais emotiva. Em seguida, "Floyd" pode ser rotulada como a faixa mais "estranha" do repertório. Com um peso recorrente e uma boa dose de obscuridade, a faixa conta com o convidado ROB ZOMBIE para dividir os vocais na hora do refrão. O resultado final pode até ser capaz de torcer o nariz dos mais saudosistas, mas a verdade é que o LYNYRD SKYNYRD tem mostrado competência ao agregar músicos do calibre de ROB ZOMBIE e de KID ROCK, que apareceu na faixa bonus de "Vicious Cycle" (2003), ao seu estilo mais clássico.
Com mais baladas do que costuma apresentar em seus discos, o LYNYRD SKYNYRD dá sequência em "God & Guns" com a acústica (e politicamente controversa) "That Ain’t My America". O resultado atingido aqui pode não ser do mesmo nível de que em "Unwrite that Song", mas pelo menos a banda explorou a sua vertente mais roqueira em "Comin’ Back for More", justamente para não deixar o disco perder todo o pique da sua primeira parte. No entanto, a faixa é igualmente mediana e acaba ofuscada por outro grande momento do álbum: a faixa-título "God & Guns". Com uma temática lírica que a aproxima dos anos setenta e de clássicos como "Gimme Back My Bullets" e "Saturday Night Special", a música destaca toda a capacidade técnica do trio de guitarristas, comandado pelo único remanescente da formação original, Gary Rossington.
O encerramento do disco não poderia ser em melhor estilo. A mediana "Storm" pode até passar batida, mas a emocionante "Gifted Hands" é certamente outro grande momento do álbum, ao lado de "Still Unbroken" e de "Skynyrd Nation". A música cadenciada – que conta com solos maravilhosos do trio Rossington, Medlocke e Matejka – é uma belíssima homenagem ao tecladista Billy Powell, que acompanhou o LYNYRD SKYNYRD do seu primeiro line-up em 1973 até a sua morte. Com músicas fortes e uma performance impecável de todos os integrantes, "God & Guns" é um item de peso na carreira de Johnny Van Zant & Cia., mesmo que pelo menos um quarto do track-list possa passar batido em um primeiro momento. A certeza que transparece aqui é a de que o LYNYRD SKYNYRD não ficou parado no tempo e possui ainda muita desenvoltura para absorver referências do hard rock mais atual em seu southern rock genuinamente setentista.
Track-list:
01. Still Unbroken
02. Simple Life
03. Little Thing Called You
04. Southern Ways
05. Skynyrd Nation
06. Unwrite that Song
07. Floyd
08. That Ain’t My America
09. Comin’ Back for More
10. God & Guns
11. Storm
12. Gift Hands
Outras resenhas de God & Guns - Lynyrd Skynyrd
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