Como uma música de 23 minutos me fez viajar 500 km para ver uma das bandas da minha vida
Resenha - Dream Theater (Live Curitiba, Curitiba, 05/05/2026)
Por Mateus Ribeiro
Postado em 13 de maio de 2026
O começo da minha relação com o Dream Theater
Comecei a mergulhar de verdade no heavy metal no fim da década de 1990, quando tinha 13 anos e dividia minha vida entre estudos, videogame e futebol. "The Unforgiven", do Metallica, foi a responsável pelo meu ingresso no universo da música pesada - universo do qual nunca mais saí.
Eventualmente, comecei a descobrir muitas bandas. Algumas entraram rapidamente na minha vida e saíram na mesma velocidade, enquanto outras ganharam minha atenção. Mas poucas me impactaram de forma tão imediata quanto o Dream Theater.
Meu primeiro contato com a banda aconteceu por conta do meu irmão, que ouvia "You Not Me" com certa frequência lá pelos idos de 1999 ou 2000. A música, presente em "Falling Into Infinity" (1997), acabou entrando na minha cabeça de um jeito difícil de explicar. Gravei a faixa em uma fita cassete e passei dias ouvindo aquilo repetidamente, tentando entender por que aquele som parecia tão diferente de tudo que eu conhecia até então.
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"Images and Words", o passaporte para o teatro dos sonhos
Naquele período, eu ainda estava descobrindo o que realmente gostava de ouvir. O Dream Theater apareceu de repente e ampliou completamente minha visão sobre o que uma banda de metal poderia fazer. Havia peso, técnica e complexidade, mas também emoção, melodia e grandiosidade.
Depois de ouvir "You Not Me" incontáveis vezes, percebi que precisava saber mais a respeito da discografia do Dream Theater. Foi então que, seguindo recomendações de amigos, adquiri uma cópia de "Images and Words" (1992).
Dos acordes iniciais da clássica "Pull Me Under" ao encerramento de "Learning to Live", passando pela balada "Another Day" e por "Metropolis, Pt. 1: The Miracle and the Sleeper", tudo naquele trabalho mexeu profundamente comigo. Nunca mais encarei a música da mesma forma após ouvir essa obra-prima do metal progressivo. Ainda bem.
Como "A Change of Seasons" entrou na minha vida
Em meio à minha "pesquisa" sobre a banda, comprei o EP "A Change of Seasons" (1995) no início dos anos 2000. Logo de cara, me assustei com a faixa-título. Dividida em sete partes, a música tem 23 minutos, duração que está longe de ser convencional.
Munido da curiosidade que sempre guiou meus passos, reservei um tempo do meu dia e fui ouvir "A Change of Seasons". Mais de 20 anos depois, consigo lembrar daquele momento mágico, em que descobri uma música que se tornou parte da trilha sonora da minha vida.
Encantado pela melodia e pelo desenvolvimento daquela composição, a ouvi por três vezes seguidas. Jovem e cheio de sonhos, tomei uma decisão: se algum dia o Dream Theater tocasse essa preciosidade ao vivo, eu iria presenciar.
As estações mudaram, o tempo passou, mas meu sonho continuava vivo
Encurtando a história e saindo do início do século XXI para a década de 2020, me tornei fã declarado do Dream Theater. Ao longo desse período, muita coisa aconteceu, tanto na minha vida quanto na trajetória do quinteto. Um dos acontecimentos mais marcantes foi a saída de Mike Portnoy em 2010. Além de baterista, ele é o autor da letra de "A Change of Seasons", inspirada pela morte de sua mãe.
A letra aborda a transitoriedade da vida e mostra que devemos aproveitar cada instante que nos é concedido. Talvez seja justamente por isso que "A Change of Seasons" sempre tenha me acompanhado de formas diferentes. Conforme os anos passavam, eu entendia melhor algumas de suas mensagens. O adolescente que ouviu aquela maravilha três vezes seguidas já não era mais o mesmo.
Quando o Dream Theater anunciou que voltaria ao Brasil tocando "A Change of Seasons" na íntegra - novamente com Mike Portnoy na bateria - senti que precisava estar presente. Não era apenas um show. Para mim, aquilo representava a chance de finalmente viver um momento que eu aguardava havia mais de duas décadas.
Uma música especial merecia uma ocasião especial
Inicialmente, eu iria assistir ao show do Dream Theater em São Paulo, mas pensei comigo mesmo: "Já vi duas apresentações dos caras por lá, essa aqui é especial, merecia uma viagem". Era uma manhã de sábado, eu estava descansando, enquanto ouvia "A Change of Seasons" e lia sua letra profunda. Foi então que escolhi Curitiba como meu destino.
Com pouco dinheiro no bolso, mas muita força de vontade, viabilizei a viagem. Cerca de 500 quilômetros separam a cidade onde resido - Limeira, localizada no interior de São Paulo - da capital paranaense.
Fiz as malas e parti para Curitiba, sem medo de ser feliz. Após passar dez horas em um ônibus - e mal ter dormido ao longo da jornada- cheguei ao meu destino. O relógio marcava 5 da manhã e, ciente de que só poderia dar entrada no hotel ao meio-dia, tratei de conhecer cada milímetro da rodoviária. Entre um café e outro, minha expectativa crescia.
Enfim, cheguei ao hotel. Precisei lutar contra o sono para não perder a hora do tão esperado concerto. Para não dormir, deixei a discografia do Dream Theater tocando no celular durante toda a tarde, enquanto relaxava o corpo e preparava o coração para aquele que tinha tudo para ser o show mais emocionante da minha vida.
Enfim, chegou o momento que esperei por mais de duas décadas
Descansado e apreensivo, me dirigi ao local onde o espetáculo seria - e felizmente foi - realizado: a Live Curitiba. Após alguns minutos, um senhor muito sortudo, que havia ganhado um par de ingressos, me pediu informações. Embora eu não soubesse exatamente o que ele precisava fazer para retirar o brinde, o ajudei a desvendar o mapa da mina, e passamos algum tempo falando sobre Dream Theater.
Por volta das 19 horas, entrei na casa e, como de costume, procurei um local que me garantisse uma boa visão e certo conforto, afinal, seria uma verdadeira maratona. Escolhi uma pilastra, que não era exatamente confortável, mas ao menos serviu de apoio.
O Dream Theater começou a se apresentar às 20h30. A partir dos primeiros acordes da instrumental "In the Arms of Morpheus", toda a minha atenção se direcionou ao palco e ao som maravilhoso protagonizado por John Petrucci (guitarra), John Myung (baixo), James LaBrie (vocal), Mike Portnoy (bateria) e Jordan Rudess (teclado).
Eu sabia que "A Change of Seasons" seria o último ato da apresentação, então decidi tentar segurar a emoção para os momentos finais. Um esforço inútil, diga-se de passagem, pois "Bend the Clock", "Peruvian Skies", "Fatal Tragedy" e "The Enemy Inside" trataram de acabar com a minha voz.
Após duas horas e meia, eis que chegou o momento tão esperado por este que vos escreve. Assim que John Petrucci começou a tocar "A Change of Seasons", um filme passou pela minha cabeça. Lembrei do jovem Mateus ouvindo aquela canção pela primeira - e segunda e terceira - vez e de tudo que aconteceu comigo de lá pra cá: as vitórias, as derrotas, as alegrias, as tristezas, a morte do meu pai, amigos que se foram, amores que desbotaram e, logicamente, minha estreita ligação com o Dream Theater.
Foram 23 minutos de pura emoção, nostalgia e reflexão. Algumas lágrimas começaram a correr pelo meu rosto e, sinceramente, eu sabia que isso aconteceria - e minha versão adolescente também.
Honestamente, ouvir "A Change of Seasons" lavou minha alma. Esse é um desejo musical a menos na minha lista de sonhos, que está longe de ser encerrada. Ainda falta muita coisa, tipo ver o Dream Theater tocando "You Not Me" - o que parece ser impossível, já que essa canção apareceu em apenas três shows da banda e nunca mais voltou.
A viagem de volta foi cansativa e um tanto caótica, mas, no fim das contas, tudo valeu a pena. Além de realizar o sonho do jovem Mateus, agora posso contar ao mundo como uma música de 23 minutos me fez viajar 500 km para ver uma das bandas da minha vida.
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