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São Paulo Trip: Aero Leppard, um embate de gigantes

Resenha - Aerosmith e Def Leppard (SP Trip, Allianz Parque, São Paulo, 23/09/2017)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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Este é mais um texto publicado originalmente na Metal Militia Web Radio, com fotos de Ricardo Matsukawa, cedidas pela Mercury Concerts. Estamos republicando aqui para comemorar a efeméride de um ano de um dos maiores festivais que São Paulo já recebeu. O domingo de São Paulo Trip trouxe duas lendas do hard rock ao palco montado no Allianz Parque. Agora, a partida jogada naquele templo do futebol seria entre Inglaterra e Estados Unidos. Primeiro, os ingleses do DEF LEPPARD, uma das mais cultuadas bandas da história do rock, dona de álbuns icônicos como "Pyromania" e "Hysteria". Este último completando seus 30 anos e muito bem representado nesta turnê através de quase todas as suas faixas. Fechando a noite, os americanos do AEROSMITH, com o feioso Steven Tyler (a quem desejamos toda saúde) em mais uma de suas muitas visitas após a última turnê. Fomos ao show para contar tudo o que aconteceu. Confira.

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Ao contrário da noite anterior, o público no Allianz foi bem menor, mas isso não quer dizer que tenha sido pouco. Por passear muito pelo terreno do pop, era de se esperar mesmo que o BON JOVI, atração do sábado, levasse muito mais pessoas ao estádio e foi isso que aconteceu. A dificuldade para chegar mais próximo ao palco era a mesma, praticamente, mas, quem resolvia ficar mais tranquilo mais atrás não demorava a encontrar um bom lugar.

DEF LEPPARD

O DEF LEPPARD jamais será uma mera banda de abertura para o AEROSMITH. Os ingleses John Elliot (vocais), Phil Collen e Vivian Campbell (guitarras), Rick Savage (baixo) e Rick Allen (bateria) trouxeram uma senhora produção de palco, com escadarias, plataformas e telões e começam o show fazendo facilmente o público cantar junto os "ô ô ô ôô" fáceis de "Let's Go", do álbum que leva o nome da banda, lançado em 2015. A canção é seguida de "Animal". Vocês acham ruim se eu disser que a música é animal aqui? Não é porque é o caminho mais fácil, é porque é o único mesmo.

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Na plataforma, que ia até praticamente o meio da Pista Premium, John Elliot troca poucas palavras com o público. "Oi, São Paulo. E aí?". O besuntado e schwarzeneggérico Phil Collen fica por lá para introduzir "Let it Go". No final, apoteótico, com duelo entre Phill e Allen, você se dá conta do quão emocionante é aquilo. Allen, ficava no alto de uma plataforma, atrás de um kit desenvolvido unicamente para ele (que perdeu o braço em um acidente de carro). Claro, todos queriam vê-lo tocar, mas ele ficava oculto atrás de seu instrumento. Se a curiosidade das pessoas era movida por um desejo mórbido de ver um baterista com um braço faltando, ou pela sincera admiração por alguém que tinha tudo pra parar e não parou, tudo é válido. O importante é presenciar aqueles momentos ímpares, deixá-los tocarem você, ter sua vida modificada um tanto pelo exemplo de determinação e de insubordinação aos desmandos do próprio destino. A dica, então, é ficar do lado direito no público. Como ele fica atrás da bateria, de frente, mal dá pra ver qualquer movimentação. Do lado direito dá pra acompanhar a movimentação dos seus pés nos pedais que não só tocam o bumbo como substituem um pouco dos movimentos que ele faria com o braço perdido.

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Não teve fu-fu-farofa-fulin, nem "Dangerous". Como disse Ricardo Batalha, editor-chefe da Roadie Crew, não tinha ninguém pra dizer pra eles o quanto "Foolin'" é popular no Brasil?. A sequência segue logo para "Love Bites", que alguns conhecem como "a do Yahoo". E não, a letra de corno não é culpa do nosso amigo Robertinho do Recife. Em inglês, ou até em português mesmo, o público canta junto. "Amar / assim / e jamais dizer adeus / já não / é mais / a grande surpresa". Em seguida é a vez do axeman de DIO, Vivian Campbell, ser ovacionado e levar o estádio à loucura em "Armageddon It".

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Com forte levada de baixo, "Man Enough" é a outra música do disco novo, com direito a anúncio em português ("uma nova música") e acompanhamento de palmas, como Elliot pedira. Ainda há espaço para "Rocket", "Bringin' On The Heartbreak", do "High and Dry", até chegar na instrumental "Switch 625". A canção é nada mais nada menos que uma ponte para que Allen brilhe com um solo de bateria cheio de compassos e feeling. Deveríamos falar muito aqui, mas, assim como a canção não tem palavras, nós também não temos. Depois do acidente, Allen poderia ter parado de tocar, poderia ser um velho barrigudo, rabujento, fedorento, reclamando da vida, poderia até já ter se matado. Allen não fez nada disso. Allen preferiu deixar nossos queixos espalhados no chão, na pista e nas arquibancadas do Allianz. Allen preferiu marcar gols no mundo inteiro, na casa do Palmeiras, na casa de inúmeros outros times, com a Bandeira de São Jorge preenchendo o local do membro perdido. Semelhante mostra de vontade de viver e de tocar teve recentemente o também inglês Steve Grimmett, da banda GRIM REAPER, que perdeu uma das pernas para a diabetes e poucos meses depois já estava de volta aos palcos (nós o entrevistamos ainda no hospital, num tempo de muitas incertezas e de uma única certeza: a de que ele retornaria). A diferença entre Grimmett e Allen é que enquanto o instrumento do primeiro é a voz, antes de Allen um baterista precisava ter todos os quatro membros para poder tocar. Ah, eu disse que não iria falar tanto? Mas falei. Foi inevitável.

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Voltemos ao Planeta Terra, DEF LEPPARD são cinco, não um só, o show continua com o clássico (de um disco clássico) "Hysteria", um momento já inesquecível e ainda com imagens antigas, terminando com verso de "Heroes", de BOWIE. Claro, temos que notar que David Elliot se arrisca o mínimo possível nos agudos. Não corre. Caminha. Dá o que tem. Com pouquíssimas bandas pós-2000, a máxima parece se aplicar a quase todas as atrações do SP Trip. Não dá pra reclamar. Depois de "Let's Get Rocked", outro classico farofa, "Pour Some Sugar on Me". E foi gritaria no estádio inteiro.Claro, a diferença da noite anterior (com o astro teen de 55 anos, BON JOVI) é clara feito água, mas quem foi ali no domingo sabia que não poderia escapar de aplaudir e se emocionar com a farofa açucarada. Ao fim da canção, Allen se levanta e é muito aplaudido

Os ingleses voltam para um bis com "Rock of Ages", que já emenda com "Photograph". E tem que terminar aí mesmo. A canção exige muito da voz de Elliot (ele tem dificuldade de completar algumas partes do refrão) e é um bom show closer. Boa estratégia. Num show recheado de clássicos e sem falatório, só faltou mesmo o fu-fu-fu-farofa-foolin' e, quem sabe, mais alguma (ou algumas) do "Pyromania".

AEROSMITH

Até aquela terceira noite de SP TRIP, nenhuma banda havia atrasado. Os americanos do AEROSMITH, passando mais uma vez por São Paulo com sua Aero Vederci Baby tour foram os primeiros. A introdução com fotos de Steven Tyler, dos guitarristas Joe Perry e Brad Whitford, do baixista Tom Hamilton e do baterista Joey Kramer, uma gravação "Oi, São Paulo. Da cidade dos campeões, AEROSMITH" é o "Vocês querem o melhor?" da banda de Boston. E Tyler e Perry já começam o show na passarela, envoltos em um monte de panos. E não tem conversa. Já fica combinado que quem fala aqui é a música em "Let The Music Do The Talk", seguida do megahit "Love in an Elevator". Durante os muitos solos Tyler faz de tudo, brinca, roda, deita no chão. Parece estar muito bem.

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Muitos gritos recebem "Cryin'". E Tyler até dá o mic para alguns fãs cantarem. Ele escolhe aqueles que estão nas laterais do palco, mas em uma parte atrás dos telões. Talvez por causa desses fãs (por sorteio ou pagamento, não é a toa que eles devem estar ali), nenhum membro da banda usa as laterais, a frente dos telões, como vimos tantos outros vocalistas, guitarristas e baixistas fazerem durante todo o festival.

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Depois de tocar uma lap steal em "Livin on the edge" e da explosiva "Rag Doll", Joe Perry vai ao microfone e declara. "Da última vez, passamos uma semana aqui. Eu adorei". "A próxima música é um blues, ao estilo de Boston", ele completa antes de cantar "Stop Messin' Around" e começar "Oh Well", ambas do FLEETWOOD MAC. Tyler também canta em Oh Well, mas com um megafone cravejado de brilhantes. Até o câmera de palco tem que ter um baita preparo físico pra acompanhar os velhinhos. São muitos solos de cada um, de Perry, de Whitford.

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Dando uma relaxada no clima, é a vez de "Crazy". Na canção, Tyler adicionou uma bandeira brasileira ao monte de panos. Há uma tentativa de noite estrelada (aquele efeito em que os celulares nas arquibancadas parecem estrelas no ceu), mas com muito menos sucesso que o visto na noite anterior, com o já mencionado galã de Nova Jersey. Indiferentes a qualquer tentativa pífia de comparação feita por jornalistas inconvenientes, namorados aproveitam para se abraçar, se beijar... Não tem o etc, estamos num estádio. O momento romântico continua com "I Don't Want to Miss a Thing" e, agora sim, noite estrelada. E quem não estava cantando junto, estava gritando ou fazendo coisa melhor com seus pares.

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A "folga" acaba e voltamos à explosão de "Mama Kin". E Tyler continua fazendo traquinagens no palco, arrasta o câmera pela lente de seu instrumento de trabalho (imagino que o profissional deve ter tido perto de um infarto naquele instante), puxa uma fã da lateral do palco e tasca-lhe quatro beijos na bochecha. Incrivelmente, ela, no entanto, está mais interessada é na selfie que tira com o cantor. Maldito seja 2017 e suas selfies imundas. Continuando, é a vez de "Come Together", dos BEATLES. Ok, essa canção é empolgante e já tem a cara do AEROSMITH, mas era mesmo necessário termos mais uma cover em um setlist de 15 músicas? Poderíamos ter mais um dos sucessos do próprio AEROSMITH, como "Hole In My Soul", que teve um trechinho cantado por Tyler só com a cozinha (baixo e bateria) e o público. O baixo de Hamilton continua num solo e "Seet Emotion", outra com grandes momentos instrumentais.

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Antes de "Dude", Tyler chama uma fã na passarela, tagarela uma porção de coisas num inglês macarrônico, ameaça levantar a blusa... Ela não entendeu nada. Nem nós. E a primeira parte show acaba com quase toda a banda na passarela (Tyler, Perry, Whitford e Hamilton) envolvidos numa longa jam. A banda volta para o bis e, surpresa, tem um piano na passarela. É para Tyler. É para "Dream On". E dali a pouco, o pobre do instrumento acaba virando mais um palco. Sem dar descanso para ninguém, o AEROSMITH toca um funk enquanto o piano é removido. É "Mother Popcorn", de JAMES BROWN. E no mesmo ritmo, "Walk This Way" e uma chuva de papel picado botam fim à festa e o povo pra correr para o metrô. Felizmente, compensando aquele atraso inicial do AEROSMITH ou por pura coincidência, o estação da Barra Funda ficou 20 minutos além do normal.

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Infelizmente, esse foi o último show do AEROSMITH no Brasil. Não sabíamos até então, mas Tyler sentiu-se mal logo após o show e, por ordens médicas, já está nos Estados Unidos para exames. Há suspeitas de câncer de próstata. Esperamos que ele consiga superar este momento difícil e volte ao Brasil muitas vezes com sua banda numa interminável quantidade de bis de sua turnê de despedida. E que venha pra cantar "Janie's Got A Gun", ignorada por completo dessa vez, e "Hole In My Soul" inteira.

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Setlist DEF LEPPARD

1. Let's Go
2. Animal
3. Let It Go
4. Love Bites
5. Armageddon It
6. Man Enough
7. Rocket
8. Bringin' on the Heartbreak
9. Switch 625
10. Hysteria
11. Let's Get Rocked
12. Pour Some Sugar On Me
13. Rock of Ages
14. Photograph

Setlist AEROSMITH

1. Let the Music Do the Talking
2. Love in an Elevator
3. Cryin'
4. Livin' on the Edge
5. Rag Doll
6. Stop Messin' Around (FLEETWOOD MAC)
7. Oh Well (FLEETWOOD MAC)
8. Crazy
9. I Don't Want to Miss a Thing
10. Mama Kin
11. Come Together (BEATLES)
12. Sweet Emotion
13. Dude (Looks Like a Lady)
14. Dream On
15. Mother Popcorn (JAMES BROWN)
16. Walk This Way

Agradecimentos:
Simone e Denise Catto, pela atenção e credenciamento.
Mônica Simonsen Porto e Ed Rodrigues, pela parceria de sempre.


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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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