Aerosmith: Duas horas do mais puro Hard Rock em São Paulo

Resenha - Aerosmith (Allianz Parque, São Paulo, 15/10/2016)

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Por Marcello Cohen
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Que o Aerosmith é uma das bandas mais importantes da história do Rock todos sabemos. Com tal status, uma formação que permanece praticamente a mesma por mais de 40 anos - praticamente por causa das breves saídas de Joe Perry e Brad Whitford nos anos 80 - está numa ainda indireta turnê derradeira. Bem, amigos, para quem esteve na mágica noite de 15 de outubro de 2016 no estádio do Palmeiras, isso simplesmente parece impossível. Tudo por causa da forma física invejável de todos os senhores, que desfilaram categoria em duas horas do mais puro Hard Rock. Se estão perto do fim ou não, está claro que não é por falta de condições de apresentar algo digno do nome que carregam. Com clássicos suficientes para ao menos 8h horas de show, os bad boys de Boston podem muito bem se dar ao luxo de não trazer nenhum disco novo desde a última aparição por aqui. A essa altura da vida, ninguém é louco de reclamar de uma banda ainda impecável no palco escolhendo 19 de seus hinos eternos para brindar os presentes que lotavam cada pedaço do lugar.

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Antes de tudo, tivemos o aquecimento do Sioux 66. Uma das bandas novas praticantes do Hard clássico que a noite pedia, os garotos não tremeram diante do enorme palco. Apresentaram um pouco de seu repertório cantado em inglês e português misturados até na mesma música. As letras de protesto até chegam a destoar do ritmo nunca conhecido por isso, mas o resultado é bem agradável. Rolou até uma curiosa versão para a ótima O Calibre do Paralamas do Sucesso. Com aplausos no final, a banda agrada os presentes já secos por Steven Tyler, Joe Perry, Brad Whitford, Tom Hamilton e Joey Kramer.

E com pontualidade simplesmente invejável, o Aerosmith começa a brincadeira. Isso com surpresa no setlist, que foi algo recorrente em todo o show. O pérola Draw The Line já abre valendo cada centavo investido. E já podemos ver o único problema do show - que felizmente nada teve a ver com a banda em si. O Aerosmith tem um dos piores públicos do Rock em nível de participação, e falo isso depois de três shows. Quando rolam as baladas noventistas que fizeram a banda renascer, todo mundo pira. Nada contra, mas quando você vê que para ao menos 80% dos presentes uma banda desse tamanho se resume a isso é de matar. Em músicas mais agitadas da mesma época, a participação cai bastante, mas o pior é quando damos uns pulos em discos setentistas. Não tem simplesmente uma alma viva que se digna a cantar, fazendo com que um silêncio constrangedor tome conta do seu entorno. É normal o público de hoje conhecer pouco em shows de estádio, mas a coisa nos shows da banda conseguem piorar ainda mais. Bem, mesmo com isso tudo, nada atrapalharia a noite épica que estava começando.

Love in an Elevator se classifica entre as "agitadas" noventistas no nível de participação. Muitos cantam, mas outros tantos desconhecem. Já aqui vemos o quanto especial seria a apresentação. Bastava olhar o que Steven Tyler fazia. Em vez de piorar com o tempo, ele conseguiu a proeza de melhorar - ao menos em relação aos shows de 2011 e 2013. Assim foi o tempo todo, com voz em dia, disposição do grande frontman que é agitando o tempo todo e sem nenhum artifício para tomar um ar. É som depois de som até o fim. Para um senhor de 68 anos, isso é simplesmente inacreditável. A banda acompanha com classe, sem errar um detalhe sequer. Mesmo com o som não tão bom quanto o que vi naquele lugar no David Gilmour, está muito longe de prejudicar algo.

Aí agora finalmente vemos o estádio cantar como a banda merecia. Hora de Alicia Silverstone e a senhorita Tyler aparecerem de imediato na memória de quem cresceu vendo o clipe de Cryin' - pela reação, todos os 45 mil presentes. O momento foi muito emocionante, chegando ao ápice na reta final com a dupla Perry/ Whitford brincando de solar e Tyler sacando a gaita. É inegável que essas músicas marcaram época e tem o seu valor. Então ta na hora de mais surpresa. Eat The Rich é mais uma carta na manga que o Aerosmith selecionou especialmente para São Paulo. Ela nunca me encantou de fato, mas é evidente sua importância para a banda, e escuta-la ao vivo foi uma experiência fantástica! Para fechar a sequência de Get A Grip, a cantoria de Cryin' segue na irmã Crazy. Então acontece o grande momento para mim. Simplesmente Kings And Queens senhores! O que falar dessa verdadeira entidade que representa o auge de Draw The Line? Uma das músicas mais magníficas que o Aerosmith escreveu foi daquelas para arrancar minhas lágrimas, mas lamentavelmente passou despercebida para 90% do estádio. Quando vemos a mudança de reação entre ela e a anterior notamos como o público do Aero é desinteressado na história da banda. Livin' on the Edge representa outra época, mas sua estrutura fantástica mantém o clima incrível num dos pontos altos de todo o show. Para arrematar, outra maravilha setentista. Diretamente de Rocks, Rats in the Cellar dá uma aula de Rock para um público que novamente não sabia do que se tratava. A porrada que fez a cabeça de toda uma juventude americana - que tempos depois formaria bandas como Metallica, Guns N' Roses, Testament e Slayer - ainda conta com um encerramento sensacional na alongada rifferama promovida por Joe Perry. Aí vem outro choque de realidade. A ao meu ver fraquinha Dude (Looks Like a Lady) chega e bota o estádio abaixo. Ta certo que a voz do povo é a voz de Deus, mas tem horas que ela dá uma bela desafinada... Por conta disso, consigo entender a decisão da banda em mesclar o set, dando um jeito de sempre agradar quem pagou caro. O fã die hard vai ouvir raridade, o noventista vai ouvir algumas das músicas que cresceu vendo na MTV. Não preciso dizer que em Monkey on My Back - uma preciosidade pinçada em Pump -, o silêncio voltou a reinar né? Nessa altura, tal fato pouco interessava. Ver uma banda como o Aerosmith desfilando algumas maravilhas desse porte já bastava. Pink, outra totalmente dispensável, foi cantada em uníssono. A sempre presente Rag Doll agita com seu ritmo contagiante, abrindo espaço para Joe Perry brilhar. Assumindo os vocais em Stop Messin' Around, ganhamos uma verdadeira aula de Blues em uma interpretação simplesmente matadora. Aí vem um lado com Chip Away the Stone é mais uma surpresa maravilhosa que a noite reservou, casando muito bem com o momento.

Aí Tyler mostra uma de suas características mais marcantes. Além de ser um grande frontman, o cara é uma das figuras mais legais do Rock. Ao ver pedidos por Hole In My Soul, não fez como em 2011 que apresentou Angel completinha, mas fez questão de cantar seus primeiros versos e ainda se desculpar pela impossibilidade de leva-la por completo. Foi a introdução para I Don't Want to Miss a Thing. Essa vale alguma ressalvas. Em casa, eu não paro nem um segundo sequer para escutar. Agora ao vivo ela ganha muito. Daquela coisa meio batida de estúdio, a balada mais balada já lançada por eles fica arrepiante. Daqui até o Rock In Rio, certamente não vou escuta-la, mas lá sei que será um grande momento. Aí é hora de prestar uma homenagem a uma das maiores influências do Aerosmith. Come Together, cortesia de uma certa banda de Liverpool, ganha uma versão daquelas que todo o estádio celebra. Então Walk This Way fecha a parte regular do show. Uma das pérolas de Toys in the Attic conseguiu ser simplesmente relançada nos anos 80, na parceria clássica com o Run DMC que tirou o Aerosmith de sua pior fase para aí começar aquela sequência de lançamentos responsável pela captação de grande parte de seus fãs atuais.

Depois disso, vem um dos encerramentos mais magníficos que já presenciei. Steven Tyler surge no piano. O homem simplesmente me puxa os versos iniciais de Home Tonight e faz uma das partes de You See Me Crying no piano. Para arrematar tudo, começa a sempre arrepiante Dream On. Humanamente impossível não se emocionar com a performance dos senhores de Boston nesse momento. Como se já não fosse o bastante, Sweet Emotion fecha a conta com chave de diamantes. É aquela hora de olhar para os amigos ao lado incrédulo com o que acabamos de presenciar. Comandados pelos toxic twins em noite de gala, o Aerosmith fez um show simplesmente memorável. Um set inspirado e cheio de surpresas apresentado por um gigante do Rock em grande forma. Uma daquelas noites para agradecemos o fato de ainda ser possível estar de frente com uma banda como o Aerosmith. Graças ao senhor, a despedida ganhou um bis. Que venha o Rock in Rio!

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Sobre Marcello Cohen

Carioca de nascimento, Marcello é apaixonado por Rock desde seus 12 anos, quando aprendeu a gostar de Beatles, Rolling Stones, Queen, AC/DC, Metallica, Iron Maiden e Black Sabbath, bandas que até hoje são as suas preferidas. Amante de bandas de variados estilos de Heavy Metal, Hard Rock e Classic Rock, escreve no blog Coração de Metal, nome que rende homenagem ao pioneiro Stress.

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