Sebastian Bach: Em noite infernal, cantor volta a São Paulo
Resenha - Sebastian Bach (Carioca Club, São Paulo, 16/10/2016)
Por Fernando Yokota
Postado em 17 de outubro de 2016
Kinshasa, Zaire, outubro de 1972. No coração da África, Muhammad Ali, já para além do seu apogeu pugilístico, encara o jovem George Foreman naquela que foi a maior das lutas de boxe, a noite que ficou conhecida com o Rumble In The Jungle. Experiente, Ali se põe contra as cordas e deixa seu oponente cansar os braços. Após oito assaltos, a perspicácia vence a pujança e Foreman beija a lona na qual Ali agora pisa com os braços erguidos.
São Paulo, Brasil, outubro de 2016. O calor saariano do domingo dava contornos dramáticos à ideia de dividir o velho Carioca club com centenas de pessoas. Tal qual Ali 44 anos antes, SEBASTIAN BACH opta pela arriscada estratégia de começar devagar para arrebatar o público no fim.
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Se a frase "antigamente saíamos em turnê para promover um disco e hoje gravamos um disco para promover uma turnê" virou bordão em entrevistas, a atual sequência de shows na América do Sul, oferecida como parte da Give 'Em Hell Tour (talvez por um equívoco de comunicação), não traz material do último registro do músico, de 2014. Desta vez, Tião confia unicamente na devoção dos fãs sulamericanos para justificar sua vinda a este lado da linha do Equador, trazendo um repertório baseado fortemente em seus dois primeiros álbuns com o SKID ROW.
A liberdade de não estar obrigado à promoção de um novo trabalho pode explicar a aposta por um setlist não muito usual, no qual a primeira parte é dedicada aos temas mais tranquilos enquanto a parte final é dedicada à bateção de cabeça, gang vocals e riffs mais nervosos. Tal qual Ali quando deixou Foreman gastar os braços no início do combate, Tião, meia hora atrasado, guarda sua energia e gasta a do público com Little Wing e Breakin' Down (do nervoso e injustiçado Subhuman Race), para logo após jogar um uppercut no queixo enquanto conta a história do garoto Ricky em 18 And Life. Em I Remember You, Bach já tinha o Carioca Club cantando por ele. A luta já estava ganha por pontos, mas o serviço ainda estava feito pela metade.


A pausa, ao som da versão de Back In The Saddle registrada pelo canadense em Angel Down (e que conta com o reforço do seu chapa Axl Rose nas vozes), serviu para ajustes no som, longe do ideal. Se a voz de Bach continuou encoberta pelo resto dos instrumentos durante o resto da noite, ao menos um problema com uma peça da batera do monstruoso Bobby Jarzombek, aparentemente triggada com o intuito de soar como se fosse uma explosão (e que parecia explodir os alto-falantes da casa a cada acionamento), foi consertado.
Para a segunda parte, a tática dos jabs e do ataque à linha de cintura é abandonada e fica claro que a estratégia agora é a agressão direta com Slave To The Grind e Sweet Little Sister. Uma misercordiosa trégua é proposta para que a guitarra de Brent Woods fosse consertada e há tempo para Bach cantar parabéns para uma fã aniversariante.


O valor do ingresso dava, ainda, direito a uma exibição de bateria de Bobby Jarzombek, que encosta qualquer um nas cordas com suas baquetas. Big Guns e The Threat viram uma surra de bumbos duplos e de agressão às peles dos tambores, cujos gritos de dor chegavam a ser audíveis sem o auxílio dos falantes da casa.
Escaldante, a noite continua com Piece Of Me, e uma fã sobe o palco e canta com o mestre de cerimônias. Em Monkey Business, entre um cowbell e outro, a banda encontra espaço para uma surreal versão de Tom Sawyer.


No meio da loucura de Youth Gone Wild, Bach identifica um fã que estaria sendo rude com as pessoas ao redor e, ao som da turba gritando "get the fuck out", acaba sendo retirado por um segurança e por pouco o Carioca Club não vira um ringue de verdade (veja detalhes sobre o ocorrido no link abaixo). Na forma de um crescendo ao melhor estilo de um bolero de Ravel oitentista, Tião guarda a bala de prata para a última música e, como no final de Apocalypse Now, explode tudo com T.N.T. do AC/DC. Ao final, SEBASTIAN BACH deu ao público o inferno que o cartaz do show prometia: se não veio na forma das músicas novas, quem disser que o lugar não virou um caldeirão, literal e figurativamente, estaria mentindo.
Sobre Muhammad Ali, há a famosa frase que dizia que ele flutuava como uma borboleta e picava como uma abelha. O peso dos anos pode ter roubado um pouco da leveza e do alcance vocal, mas assim como Ali, o velho Tião agora joga o jogo da paciência. A eventual nota mais alta que lhe falta é substituída pela a simpatia e o contato visual com os fãs, que parecem aceitar a troca. Coisas como o português quase incompreensível, o intervalo no meio do show, a apresentação de menos de uma hora e meia e a voz encoberta pela banda são os sortilégios de quem sabe que a luta é ganha com um soco de cada vez e alguma astúcia. Desta vez foi por pontos, mas SEBASTIAN BACH saiu vitorioso mais uma vez de São Paulo.
(Com o agradecimento à Dark Dimensions e a TheUltimate Music pelo credenciamento)
Setlist:
Little Wing
Breakin' Down
18 and Life
Wasted Time
Quicksand Jesus
I Remember You
Slave to the Grind
Sweet Little Sister
Big Guns
The Threat
Piece of Me
American Metalhead
Rattlesnake Shake
Monkey Business / Tom Sawyer / Monkey Business (outro)
Youth Gone Wild
T.N.T.
Sebastian Bach: voz
Brent Woods: guitarra, violao e voz
Rob De Luca: baixo e voz
Bobby Jarzombek: bateria






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