Nazareth em SP: Sim, é possível seguir adiante
Resenha - Nazareth (Studio SP, São Paulo, 26/05/2016)
Por Ricardo G. dos Santos
Fonte: Literatura e Opiniões
Postado em 30 de maio de 2016
Após oito longos anos, a banda escocesa Nazareth retornou a São Paulo. O último show acontecera no Citibank Hall. Na época, o mítico Dan McCafferty ainda era o vocalista. Eu estive lá e tenho ótimas memórias da performance da banda, então capitaneada pela dupla Dan/Pete Agnew, os simpáticos escoceses naturais de Dunfermline, capital da Escócia na Idade Média.
Lembro-me que Dan tossiu muito no intervalo das músicas. A Doença Obstrutiva Pulmonar Crônica, que forçou sua aposentadoria dos palcos em 2013, já o castigava muito naquela época, mas isso não o impediu de cantar com a mesma maestria de outros tempos. O grupo apresentava o novo CD The News e, como sempre, fez um show festivo, à altura das expectativas de seu exigente público. E, para minha alegria, consegui tirar uma foto ao lado de meu ídolo Dan McCafferty.
Desde então, a banda passou pelo Brasil novamente algumas vezes, mas São Paulo ficou de fora. E não é para menos: o público aqui em shows do Nazareth sempre foi pequeno. Apaixonado, louco pela banda, mas pequeno.
Eu me perguntava se ainda teria chances de vê-los aqui em minha cidade. E então veio a triste notícia, em meados de 2013: Dan não poderia continuar se apresentando em shows completos, pois sua DOPC havia avançado muito. Até mesmo respirar estava se tornando difícil.
A banda deveria continuar, ou se aposentar junto com sua maior estrela? A maioria (esmagadora) dos fãs preferia a primeira opção. Os integrantes remanescentes da banda, entretanto, não concordavam. Após alguns meses sem atuar, o Nazareth voltou aos palcos com Linton Osborne, mas a parceria não durou muito. Mais alguns meses de espera (e muitas especulações) até o anúncio do novo vocalista: o experiente Carl Sentance, do Persian Risk, que já havia passado também por bandas como Geezer Butler e Krokus.
Em 2016, aparece a oportunidade de voltar a ver a banda: eles agendaram uma pequena turnê pelo Brasil e incluíram, para minha surpresa, um show em São Paulo.
'Sem Dan McCafferty? Com apenas um integrante original?' Sim, exatamente assim.
Chegara a hora de ver, ouvir e dar o veredicto acerca da pessoa que teve a petulância de substituir Dan McCafferty, meu maior ídolo da música desde a adolescência.
'Senhor Carl Sentance, esteja preparado para um avaliador exigente!'
E eis que chega o dia.... A longa espera na fila... A alegria de conhecer Nazamigos da internet (Roni, Daniel, Evandro...)... O show de abertura ('StormSons', excelente banda, acho que ainda ouviremos falar muito destes caras)... Um longo hiato até os técnicos do Nazareth prepararem o palco, som e instrumentos para o início do espetáculo... Até que, sem a tradicional música celta que antecedia os shows do Nazareth em outros tempos, eis que... Opa, lá estão eles: Lee Agnew na bateria, o mestre Pete Agnew em seu contrabaixo (infestado por camundongos roqueiros), o competentíssimo Jimmy Murrison, guitarrista da banda desde 1994, e...
Uau, Carl Sentance irrompe no palco esbanjando energia e MUITO talento! A abertura do show é com Silver Dollar Forger, do álbum Rampant. Foi impressionante, Carl Sentance conquistou imediatamente a simpatia do público presente. Subiu ao palco confiante, decidido, e em poucos segundos já era a estrela do show. Seu estilo, bastante diferente do de Dan McCafferty, deu nova vida aos clássicos e levou o pequeno, mas vibrante público presente na Estúdio, em Pinheiros, ao delírio.
Dono de voz possante, afinadíssima, ele colocou corpo e alma naquelas músicas que muitos fãs do Nazareth consideravam (sim, no passado) uma heresia serem interpretadas por outro cantor. E foi assim em todas as canções, até o final do show, com a psicodélica Morning Dew.
Não faltaram grandes sucessos como Dream On, Holiday, Where Are You Now, Love Hurts e Love Leads to Madness. Também não ficaram de fora clássicos pesados como Miss Misery, Razamanaz, This Months Messiah, Changin' Times e Hair of the Dog. Tudo sempre com participação entusiasmada do público. E, é claro, não poderia faltar Broken Down Angel, primeiro sucesso da banda e uma das poucas músicas tristes que a gente acaba cantando com alegria – 'culpa' da belíssima melodia.
A voz de Carl fez eco. Um monstro, um Kaiju no palco. Substitui Dan McCafferty à altura (a bem da verdade, está até melhor que nosso grande Dan estava em anos recentes). Pete Agnew pode ser (alguns dizem que é) um pouco sovina [mas ele é o dono da banda, oras – tem que ser!], porém é brilhante em seu contrabaixo e uma simpaticíssima figura no palco, com seus sorrisos largos e suas caretas tradicionais. Lee Agnew, sempre bem humorado e competente na bateria, fez algumas brincadeiras com Carl, mostrando que a banda está bem entrosada não apenas nos acordes. Jimmy Murrison passou muitos anos sendo contestado, mas hoje é inquestionável na guitarra. Fisicamente, me pareceu um pouco abatido (espero que seja apenas cansaço), mas fez o seu trabalho com o brilhantismo de sempre. Admiro muito este cara, que foi paciente e compreensivo com as críticas nos seus primeiros anos de banda e, sobretudo, muito forte para mostrar a todos que ele merece estar onde está. Resiliência!
Esta é a minha banda favorita, que continua fazendo a trilha sonora da minha vida desde 1983. Vê-los mais uma vez em palcos paulistanos renova e multiplica minha alegria, sobretudo porque agora tenho um novo ídolo: CARL SENTANCE!
Parabéns à Feeling Produções e à Kiss FM por terem trazido o Nazareth novamente para a pauliceia desvairada.
Longa vida ao grande NAZ!
Setlist:
Silver Dollar Forger
Miss Misery
Razamanaz
This Flight Tonight
Dream On
Holiday
This Months Messiah
Turn On Your Reciever
Where Are You Now?
Beggars Day
Changin' Times
Hair of the Dog
Expect No Mercy
Love Hurts
Love Leads To Madness
Broken Down Angel
Morning Dew
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